“7 de Setembro em Iperó”

7 de Setembro
Hasteamento da Bandeira em 7 de setembro de 1972. (Arquivo José Roberto Moraga Ramos)

Augusto Daniel Pavon

7h30. Estou voltando de um plantão que faço há 28 anos e depois de um tempo prolongado sem chuvas, o céu está fechado. Finalmente cai uma chuvinha. Terça-feira, cidade parada, não está frio e também não está quente. Do quarto andar ouço passarinhos diferentes cantando, brinco com meu cachorro e viajo, viajo no tempo, pois hoje é 7 de setembro, “Dia da Independência”. Chego a Iperó, num ano da primeira metade da década de 60. Diferente da maioria que estudava em Sorocaba ou Boituva, eu sempre gostei das datas festivas. E o “7 de Setembro” sempre me encantou. Já citei o trem das 4h40 e eu estava nele mais uma vez. Desta vez, não para estudar, mas para ir desfilar no “7 de Setembro” pelo “Ciências e Letras”, ginásio tradicional de Sorocaba, com seu lindo blusão que no dorso trazia um desenho lindo, onde se lia em latim “Veritas et Virtus”. Já escrevi e traduzi: “A verdade é uma virtude”.

Chegávamos à estação de Sorocaba às 5h30, aguardávamos o desfile que deveria começar às 8h, mas começaria às 9h. Disso eu não reclamava, gostava demais. Desfilei na 7 de setembro, na Penha e na São Bento muitas vezes. A fanfarra do “Ciências” era fantástica. Havia competição entre as fanfarras do interior do Estado, verdadeiras bandas, e a do “Ciências” sempre entre as primeiras. Luís Marins Filho (o mesmo que escreve nos jornais, aparece na televisão e gosto muito dele), filho do professor Luís Marins (dono e um dos diretores da escola), estava na minha classe. Sol na maioria das vezes, chuva, sede, fome, tudo isso estava presente, mas eu desfilava com vontade. Numa dessas, voltando a Iperó e chegando mais ou menos ao meio dia, ainda muito disposto, almocei como um leão e como anteriormente combinado, saímos para um churrasco.

Silvano, hoje nome de rua (ainda chego lá), o Paulão (professor Paulo Zovaro) e havia mais um, mas não era o Cica (porque ele e o Silvano juntos terminava em discussão; não pelo Silvano, mas pelo Cica que já era ranzinza). Cada um levava uma parte. Seguíamos pela linha, trilhos, subíamos na direção de Bacaetava, atravessávamos o corte, passávamos sob o viaduto do Jânio (o Quadros, então governador do Estado), caminhávamos um longo trecho, saíamos pouco depois do término do corte, à esquerda, e seguíamos um caminho que nos levava longe, a um lindo lugar no rio Sorocaba, que ainda hoje é coberto de árvores. Havia um barco, atravessávamos o rio e íamos a um rancho simples, muito bem feito e estava completada a missão.

Agora vinha um período de sacrifício. Éramos obrigados, naquele “calorão”, a ficar mergulhando e nadando naquelas águas que “odiávamos”. “Puta” vida dura. Como “nóis sufria no Perozinho daqueles tempos”. Mas o sofrimento não se restringia a isso. Tínhamos que trabalhar para fazer o churrasco e também deixar as “taubaínas” amarradas na água para não esquentarem. Assim era a nossa terrível vida. Com pessoas que não gostávamos, num dia de Sol horrível, numa cidade que não amávamos e comendo carne, tomando “taubaína” num rio que também não gostávamos, após uma manhã que também não nos tinha agradado. Isso tudo pra mostrar como a vida simples, solta, do nosso “anteriormente”, fazia um “mal danado”. Hoje que é “bão”!!!