“A bagagem do padre Hilário Henn”

Bagagem do padre Hilário
Carregador de bagagens numa estação ferroviária dos Estados Unidos. (Imagem da internet)

Hugo Augusto

Importantes escritos do professor Olavo Lázaro Munhoz Soares relembrando o episódio na estação:

“O ano de 1971 corria celeremente para o seu fim e eu já me preparava para o ritual da passagem da responsabilidade pela paróquia ao meu sucessor. Tive a sorte de escolhê-lo, uma vez que eu queria deixá-la sob a direção de alguém que não decepcionasse o meu povo, sofrido, mas cheio de esperança, alguém que fosse idôneo e continuasse os nossos trabalhos, principalmente os paroquiais, com eficiência e devoção.

Jamais alimentei a veleidade de encontrar um sucessor que preenchesse o meu figurino, principalmente se levássemos em conta que cada um tem personalidade própria e importaria muito, respeitá-la. Então, o padre Hilário Henn, que residia em Guarapuava, no Estado do Paraná, já meu velho conhecido, dado que, como padre salvatoriano, de Conchas, havia trabalhado muito conosco e muito me auxiliou, assistindo a igreja de Iperó nos anos 60, aceitou o nosso convite e veio para Boituva. Sua posse deu-se no dia 4 de março de 1972, um sábado, na estação, na missa das 19h.

Observe-se que estávamos em pleno governo Médici (30/10/69 – 15/03/73), um dos mais repressivos dos governos militares, de pós-64, sob a égide do famigerado AI-5, que bloqueava toda e qualquer possibilidade de manifestação de oposição e até de opinião, contrária às ferrenhas normas oficiais. Tão esdrúxula situação suscitou a formação de grupos guerrilheiros que assaltavam bancos, sequestravam autoridades estrangeiras para trocá-las por presos políticos e até faziam “justiçamentos políticos” (execuções), com represálias de parte a parte, levando o País a um clima de insegurança terrível, de perseguições gratuitas, de revolta íntima, como jamais houve em nossa história desde o descobrimento. O Brasil já não era o mesmo Brasil que conhecíamos e amávamos desde o nosso nascimento. Então, não havia liberdade de opinião, nem de pensamento, numa terra que, pela extensão territorial, infundiu em seus habitantes, nós, os brasileiros, um inato anseio de liberdade ao arrepio de qualquer constrangimento.

Pois, em meio a esse clima de repressão e desconfiança, de caça às bruxas e a terroristas, presumíveis ou não, o padre Hilário despachou para Iperó, via Estrada de Ferro, seus caixotes de roupas, livros e outros pertences, inclusive dois revólveres, um gravador e dois “hand-talkie” (aparelho de comunicação, própria, na época, da polícia), dados seus pendores para a caça e a pesca. No afã de acondicionar esse material, descuidou-se e não verificou se havia balas no pente das armas. E… havia!!!

Destarte, os caixotes chegaram ao entardecer na estação de Iperó e seus funcionários tiraram-nos do vagão de mercadorias e os jogaram entre os demais num canto da plataforma. Foi a conta! Com o impacto, uma das balas, que fora esquecida nas armas, detonou e, por um azar dos diabos, foi atingir a parte superior da coxa, quase na virilha, do ferroviário Antônio Augustinho Fragoso, o que, como um rastilho de pólvora, em questão de segundos, alarmou a todos que estavam na estação, o povo de Iperó e os de fora de Iperó. Não houve quem não ficasse alvoroçado e preocupado! As versões correram mundo, desde a de um corriqueiro acidente até a de possível plano terrorista, já em fase de execução!

Não demorou muito, talvez questão de 40 minutos, e do quartel da polícia militar de Sorocaba se deslocou um grupo de soldados, sob o comando do tenente Ed de Campos, que numa operação de guerra ocupou estrategicamente a delegacia de polícia de Iperó e se preparava para deter o padre Hilário. Este, ao inteirar-se de todo aquele aparato, foi industriado pelo nosso comum amigo, Paulino de Moraes, a rumar diretamente para Boituva, refugiando-se na casa paroquial, onde eu o aguardava.

De minha parte, com a cabeça cheia de princípios de Direito, cujo curso estava terminando na Faculdade de Itu, solicitei ao advogado Norberto Agostinho que fosse a Iperó informar-se das reais dimensões do problema e até onde aquilo tudo implicava em prisão ou não do padre Hilário. Depois de muita espera, Norberto tardava, o que aumentou mais ainda a minha tensão. Arrisquei um telefonema à residência dos seus pais. O Dr. Norberto, na época, era solteiro e foi ele em pessoa quem me atendeu.

– Mas, como? Eu esperava ansiosamente por você para me dar informações do que ocorria em Iperó…! Afinal, o que está havendo?

– O senhor nem queira saber! A delegacia estava tomada por soldados. Na porta de entrada, postaram-se dois deles, os mais corpulentos da turma, que logo me foram mandando embora, com alguma palavra de baixo calão, o que me deixou bastante amedrontado.

A partir daquele momento, me convenci que estávamos à mercê do direito da força que poderia se precipitar com toda a tropa invadindo a minha casa para buscar o padre Hilário.

Ainda tentei mais dois expedientes. Através do meu vizinho, Washington Thame, companheiro de outras não menos difíceis jornadas, junto do general Agostinho Cortes, procurei me comunicar com o quartel de Itu a fim de solicitar do seu comandante alguma proteção ao meu colega, mas, Washington retornou dizendo que o oficial de plantão nada podia fazer naquelas horas da noite.

Lancei mão do segundo expediente. Telefonei ao bispo de Sorocaba, Dom José Melhado Campos, que também me respondeu que nada podia fazer e que eu procurasse resolver o problema da maneira que me aprouvesse. Abandonados à própria sorte, procurei acalmar o padre Hilário, afiançando-lhe em face:

– Se você for preso, não irá sozinho. Irei junto para ajudá-lo, aconteça o que acontecer!

E dizer que falava assim, sob um governo repressivo, a quem enfrentar era “correr sério risco de vida” (História do Brasil, de Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira), principalmente, quando as portas que se nos deveriam abrir, fechavam-se, uma a uma, para não se comprometerem!

A noite já ia da metade para o fim e qualquer ruído nos deixava sobressaltados, mas até ao amanhecer, felizmente, ninguém apareceu.

Mais tarde, em 1973, quando eu fazia o Curso de Letras, na Faculdade de Itu, o agora coronel Ed Campos Vieira, que na época era tenente, meu colega de turma e de longa data, me esclareceu toda aquela esdrúxula situação vivida por nós na noite da chegada do padre Hilário e a detonação das suas armas. Ao saber que eu residia na casa paroquial de Boituva, coronel Ed orientou os seus comandados:

– Ah! É o Olavo que está lá? Deixem-no dormir sossegado. Vamos embora!

Quando amanheceu, às 5h, mais ou menos, conduzi o padre Hilário em meu carro, a Sorocaba, saindo pela estrada do Sítio Grande, por pura precaução, e por ser mais deserta e estratégica para uma retirada como aquela. Em Sorocaba, estacionei em frente da casa do Bispo, na esquina da Av. Eugênio Salerno com a Praça 9 de Julho, onde já me esperava o Dr. Roberto Luiz Ayres, nosso Delegado Regional de Polícia, sob cuja responsabilidade e orientação ficaria o problema.

Retornei, de imediato, a Boituva, mais tranquilo, agora. Era como se tivesse me livrado de mais um terrível pesadelo!”