“ADIB EID – entrevista”

Adib Eid
Adib Eid, o Bibe, dedicou a vida ao comércio. Foi o dono do primeiro aparelho de televisão de Iperó.

Concedida a José Roberto Moraga Ramos em 26 de fevereiro de 2004

Adib Eid, nascido em 26 de agosto de 1926.

Meus pais eram Sada Jorge e Said Eid. Nasci em Santo Antonio Velho (depois do rio Sorocaba), bairro que até hoje pertence a Boituva. Éramos em dezesseis irmãos, sendo que somente treze chegaram à vida adulta. Meus pais vieram do Líbano e compraram um pequeno sítio naquela região próxima ao rio. Meu pai morreu cedo, de uma doença para a qual não havia cura naquela época. Nem sei o nome. Mamãe ficou com os treze filhos para criar e educar. Estudar era apenas até o quarto ano. Depois, a gente não podia fazer mais nada. Ali, a gente vivia da pequena lavoura (pera, laranja, ameixa), mas não havia muita gente para comprar. Minha irmã enchia uma cestinha e eu ia junto com ela para vender no trem. Certo dia, um dos passageiros disse: “Mocinha, se você lavar o pé, eu compro essas frutas que você está vendendo.”

O maior lucro da nossa família vinha do comércio de areia para a famosa Estrada de Ferro Sorocabana. Isso foi por volta de 1932. A Sorocabana tinha um desvio que chegava até o local de onde era retirada a areia. Havia uma guarita e, quem ficava no local, era uma senhora. Uma ferroviária. Não me lembro o nome dela, mas todo dia o trabalho dela era virar a chave para que pudéssemos carregar duas gôndolas de areia. Todo dia. E precisava carregar no dia e já entregar, senão a multa era pesada. Não podia ficar com o carregamento parado.

Aqui em Iperó não tinha nada. O nome era Santo Antonio ainda. Não havia cem pessoas aqui. O muito que havia aqui eram três ou quatro casas. A gente vinha de carroça, passava pela ponte que ainda era de madeira. Aqui era tudo mato. A gente vinha caçar. O caminho era outro, passava por baixo da ponte de ferro. Só havia a casa do Emílio Thomé (primeiro comerciante de Iperó), lugar que depois foi comprado pelo Calil. Também havia a casa do José Pereira Capitão, outro comerciante. E uma casa de madeira da mãe do Chico Cóvos, no lugar onde posteriormente foi construído o sobrado do “Dito da loja”.

O meu primeiro emprego surgiu quando eu tinha dez anos. Vim trabalhar com o Calil. Ele havia comprado o armazém do Emílio Thomé e eu vim trabalhar de caixeiro. Isso foi por volta de 1936. Todo dia, mamãe mandava almoço e janta para nós. De lá do sítio, ela mandava marmitas para nós. Quem trazia a comida era o meu irmão mais velho. Depois, surgiu o Chiquinho Pacheco, que instalou-se aqui com uma padaria. Um belo dia, o Chiquinho Pacheco resolveu vender a padaria para um “nortista” e montou um armazém. O “nortista” falou: “Mas, seu Chico, com o que eu vou pagar o senhor? Eu não tenho um vintém furado.” O Chico respondeu: “O senhor vai pagar com trabalho.” Então, esse rapaz falou para o Calil: “Você não quer ceder o Adib para trabalhar comigo no balcão? Eu não tenho ninguém lá.” O Calil respondeu: “Se ele quiser ir, pode ir.” E assim começou minha história de trabalho nas vendas.

O nome desse “nortista” era Altamiro Gastão. Ele chegou do norte sem nada, chegou no armazém do Calil e pediu um pouco de comida. Olha só. E, depois, virou dono da padaria e meu patrão. Ele mandou buscar a mulher dele lá no norte. Nessa época, já trabalhavam na padaria, eu, Urciles e Chico Cóvos. A mulher dele, logo que chegou, passou a nos dar almoço. “Está pronto o almoço, gente.” Ela colocava um caldeirão no fogo, com carne seca e feijão, sem tempero, sem nada. A própria carne seca temperava o feijão. Junto com essa comida, trazia farinha de mandioca. No começo foi muito difícil. O Altamiro ganhou muito dinheiro e começou a fazer loucuras.

Ele começou a mexer com criação de porcos, arrumou um compadre e esse compadre começou a roubá-lo. Esse compadre trabalhava na ferrovia. Nessa época, os porcos começaram a morrer e o Gastão passou a beber muito. Certo dia ele veio falar comigo: “Adib, o prédio aqui é de vocês. Fala para a sua mãe comprar a padaria, que eu vou voltar para o norte, pois estou enterrado de dívidas.” Chamei a mamãe e ela gostou da ideia. Assim começou a nossa vida de comerciante. Eu trabalhei com mamãe até me casar e depois comprei um prédio na esquina da rua Porfírio de Almeida com a rua Santo Antonio.

O prédio pertencia ao Durvalino Pereira. Paguei através de prestações e, quando terminei, derrubei o prédio velho para construir um novo no lugar, que permanece até hoje. Chamei o Geraldo Danezi, o Álvaro Guazelli e o Dito “carregador”, que foram meus pedreiros lá. Falei: “Minha gente, isso aí tem que ser levantado rápido, porque eu estou endividado. O negócio tem que ser rápido.” Isso foi em 1948. Eu e o Salomão amassávamos o barro com o pé, pois naquele tempo não havia cimento. O tijolo era assentado com barro mesmo. Compramos o tijolo no olaria de Iperó, dos Del Vigna. Em tempo recorde, levantamos o prédio. Ali eduquei os meus filhos.

Antes de eu comprar, o Durvalino ofereceu para o Salim, que era inquilino no prédio e, na visão de Durvalino, tinha prioridade na compra. Mas o Salim perguntou: “Durvalino, para que eu vou usar esse chiqueiro?”. Então, Durvalino ficou ofendido e respondeu: “Olha, turco, para você eu não vendo mais, por dinheiro nenhum”. O prédio era uma taipa, construção feita de barro. Mas o ponto era muito bom. Quando eu comprei, o tio Salomão falou que eu havia comprado um chiqueiro. Mas eu falei para ele que era um bom negócio. Aí, fui falar com o Salim: “Infelizmente, o senhor vai ter que desocupar esse lugar que o senhor chama de chiqueiro, porque eu comprei do Durvalino.” O Salim, turco muito bravo e estúpido, falou para mim: “Ninguém mandou você ser burro. Daqui eu não saio. Eu posso até pagar aluguel para você, mas daqui ninguém me tira.” Falei para ele que ia procurar os meus direitos.

Peguei o trem até Boituva. Depois, outro trem até Porto Feliz. Cheguei no Fórum e pedi para falar com o juiz. Esperei meia hora e o juiz me mandou entrar. Expliquei a situação e ele me disse: “Pode ir embora, que vou resolver o seu problema.” Dali a quinze dias, o Salim recebeu uma intimação para desocupar o prédio no prazo de 60 dias. Após receber a intimação, ele veio falar comigo, disposto a entregar o prédio em prazo menor que o estipulado pelo juiz, visto que ia construir uma casa ao lado daquele prédio.

Infelizmente, poucos anos depois houve uma tragédia muito grande na casa dele. Ele não fazia “cara bonita” para ninguém e maltratava freguês dele. Um dia, o Rubens Domingues chegou e falou: “Ô, turco!” Aí, o Salim se ofendeu, pois não gostava de ser chamado de turco, e respondeu com palavrão. O Rubens foi para trás do balcão e derrubou o Salim, começando a enforcá-lo. O Guilherme, filho do Salim, quando viu aquilo, pegou o revólver e deu um tiro na cabeça do Rubens, matando-o lá dentro mesmo, na hora. Escutei aquele barulho, aquele tiro e pensei: “O que será que aconteceu?” Daqui a pouco chegaram na minha venda e disseram: “O Guilherme matou o Rubens”. Respondi: “O Guilherme? Ele não mata nem uma formiga. É um coitado.” Mas, infelizmente, para não ver o pai degolado, ele praticou um crime. Entendeu?

Ficou pouco tempo na cadeia, nem dois meses. A família contratou um advogado famoso de Angatuba e, esse advogado falou: “Pasmem, senhores jurados. Um elefante degolando um velho de setenta e poucos anos. Esse moço, o que uma criança dessas, franzina, poderia fazer? O quê? Ia deixar o pai morrer nas mãos de um monstro? E outra coisa, senhores: só tem direito de invadir nossos lares, o Sol e a Lua. Ele invadiu o lar dessa família para matar o velhinho.” Resultado: eram nove jurados e a decisão foi de nove a zero a favor da absolvição. E a gente que já viveu muito tempo, presenciou muitas coisas desagradáveis também aqui em Iperó. Não foram somente coisas boas.

Eu, quando comecei com o bar, fui para São Paulo negociar com a Antártica. A cerveja vinha “empalhada”, embalada em sacos de estopa, com 24 cervejas em cada saco. Às vezes, a cerveja ia parar em Santo Anastácio por engano. Eles colocam apenas “S.A” nas embalagens. Cansei de avisar o pessoal da Sorocabana para escrever sem abreviar. Havia as casas da Sorocabana, que foram construídas quando eu tinha doze anos. Iperó foi crescendo graças ao movimento grande da Sorocabana. O movimento no bar era muito grande. O pessoal que vinha no pernoite passava no bar. Era um movimento bárbaro. Quando a gente queria passear, o único jardim nosso era a estação da Sorocabana. E aquela cabina? Trabalhavam três cabineiros e quase não venciam virar as chaves por causa de tanto movimento. Tinha trens manobrando dia e noite. O armazém tinha um movimento bárbaro.

Vizinho à minha venda havia o Salim. Depois, o sr. Luizinho barbeiro construiu mais para frente. Ele morreu cedo. Era um homem muito bom, mas com a saúde frágil. Tinha o sr. Campos, que mandava em Iperó. Era a casa mais bonita de Iperó. Quando vinham pessoas de fora, pessoas ilustres, eram recebidas na casa dele. Depois, tinha o Felício e, mais para frente, o Jaziel construiu onde está o Ládio hoje.

No tempo em que eu ainda estava na escola, houve muita maleita em Iperó devido à grande umidade e quantidade de insetos na região onde foi construído o aterro do pátio e a estação. Até as árvores tremiam. Você tinha muita febre. Tremia muito. Podia estar um calor de 35 graus, mas você estava tremendo do mesmo jeito. Ficou famosa na região, a maleita de Santo Antonio. Era “barbaridade” de maleita. Se a gente falava que era de Santo Antonio, as pessoas já saíam de perto e orientavam os demais a tomarem cuidado. Terminei o quarto ano em Boituva.

Naquele tempo, mamãe dava duzentos réis, porque aqui não tinha quarto ano. Eu ia a pé, todo dia, para estudar em Boituva. Então, eu e meus amigos éramos recebidos na escola com vaia: “Lá vem os maleiteiros! Lá vem os maleiteiros!” A água para nós, na escola, vinha em copos separados. A nossa salvação era o sr. Vital, que aprendeu a dar injeção. Todo dia a gente ia tomar injeção com ele. Era uma injeção que fazia você gritar de dor.

Fui engraxate em São Paulo. Quando minha irmã Nenê casou com o Paulino, eu tinha uns doze anos e minha mãe falou: “Filho, vai com a tua irmã, coitada. Ela é daqui do mato.” Não esqueço até hoje. Foram morar na Alameda Olga, 111. O bondinho que passava ali perto, custava duzentos réis. A gente não tinha esse dinheiro, mas precisava levar a comida para o Paulino, na Lapa, onde ele trabalhava. Então, meus colegas arranjaram uma caixa de engraxate, e eu saía para engraxar sapatos. No começo foi difícil. As mulheres gostavam de sapato brilhando e diziam: “Menino, você deve ser lá do mato, né? Não me apareça mais aqui. Isso é modo de engraxar?” Morei nessa época, na Barra Funda, quando a iluminação das ruas era através de lampião ainda. Todo dia, a turma vinha acender os postes. Era interessante.

Depois, de volta para Iperó, cheguei a dar aulas para adultos aqui, onde funcionava o pernoite. Eu tinha dezoito anos naquela época e deixava de namorar para ir dar aulas para marmanjos. Não ganhava nada. Dava aulas durante três horas por noite. Comecei a dar aulas, porque quando peguei meu diploma, eu trabalhava com mamãe e souberam que fui um bom aluno na escola.

Anos depois, fui subdelegado. O Saraiva, muito amigo da gente, me chamou lá em Boituva e falou que eu seria o subdelegado daqui. Falei: “O que? Não tenho tempo nem de cuidar da minha vida.” Ele me respondeu que eu era uma pessoa de confiança e iria assumir aquele cargo. Eu tinha apenas 21 anos, mas já era casado naquele tempo. A gente prendia muito ladrão de galinhas e separava brigas. A cadeia era em frente ao meu armazém. As pessoas às vezes preferiam ir para a cadeia, pois ficavam envergonhadas. Um bebia, outro brigava com a mulher. Ali, ele ficava “carpindo” o dia todo em frente à cadeia. Só havia eu e um soldado chamado Joaquim. Era o único soldado.

Lembro de uma ocasião, por volta de 1938, no tempo da ditadura de Vargas. Todo mundo descia na estação para tomar o cafezinho do sr. Campos. Nesse dia, havia um capitão tomando o café. O trem ficava parado apenas dois minutos. O chefe de trem acionou o apito e o trem partiu. Então, esse senhor foi falar com chefe da estação. “Escuta, como é que o senhor manda o trem ir embora com passageiro ainda para embarcar?” O sr. Moura, chefe da estação, respondeu: “Não tenho culpa. É o movimento. Tem horário. Deu dois minutos, o trem vai embora.” O capitão, então, mandou que o trem ficasse parado em Boituva e ordenou que fosse providenciada uma locomotiva com vagão para levá-lo até lá. O trem ficou meia hora retido em Boituva, com dezoito vagões de passageiros.

Também me lembro do refeitório da Sorocabana. Eu ia lá almoçar todo dia. Abençoadas mãos do Sizino Dias. Ele era um cozinheiro espetacular. Era meu freguês e eu falava para ele: “Sizino, puxa vida. Eu passo no refeitório e que cheiro gostoso!” Ele falava: “E por que não chega lá para comer?” Eu ia e era três, quatro misturas. Que maravilha era a Sorocabana. É uma pena a Sorocabana ter se esfacelado da forma como aconteceu. Hoje faz muita falta a Sorocabana.

E sobre o cinema: a nossa infância foi no cinema. Êita saudade. Meu pai do céu! A gente assistia filme, tinha baile todo sábado. Era o divertimento de Iperó. Filme duas vezes por semana e baile todo sábado. Iperó não tinha outra coisa. Depois, veio a televisão. A primeira televisão daqui fui eu quem trouxe. Acho que nem em Sorocaba tinha, pois quando eu cheguei lá para pagar a prestação de uma máquina de sorvete que eu havia comprado, estavam chegando dois aparelhos de televisão dos Estados Unidos.

O dono da loja me ofereceu, dizendo que a televisão faria sucesso no meu bar. Perguntei: “Televisão? O que é isso? Não sei o que é televisão.” Ele respondeu: “É o seguinte: o pessoal está jogando lá em São Paulo e você consegue ver na sua casa, sem ir até o local do jogo. Para você que tem bar, vai fazer sucesso com a televisão. Você me paga como puder. Você é freguês daqui.”

A transmissão era muito ruim. Não cabia mais gente no bar. Então, eu colocava a televisão na janela. Era só “bang-bang”. Aí veio o presidente do Sorocabana e me disse que eu estava tirando os frequentadores do cinema. Mas, aos domingos, vinha gente de Tatuí, Boituva, Bacaetava, Ipanema. Chegava telegrama na estação reservando mesa no bar. Eu apenas exigia que se consumisse no bar. Quem não consumia, aí eu cobrava a entrada. O porteiro era o Simão. Risos.

Dia desses apareceu aqui um senhor, que há trinta anos não vinha em Iperó. Era o Pedro Piva. “Bibe, você ainda está vivo? Como essa cidade cresceu!” Ele foi injustiçado. Foi vereador e não podia ver coisa errada. Ele criticava mesmo. Criticava muito a administração do Zé Borba. Naquele tempo, ditadura militar, o Zé Borba levou ao conhecimento do alto escalão, em São Paulo. O Piva foi afastado da Sorocabana e o Zé Borba arranjou uma meia dúzia de elementos para “provar” que o Piva era comunista. Fui envolvido. Chegando lá, todo mundo falou aquilo que agradava ao Zé Borba. Quando chegou a minha vez, durante o juramento, eu disse: “Quero dormir com a cabeça tranquila no meu travesseiro. Não gostaria de fazer o mal para ninguém. Pode me perguntar o que o senhor quiser.”

– O senhor conhece Pedro Piva?

– Conheço, sim senhor.

– Ele tem tendência comunista, sr. Adib?

– Ele é tão analfabeto quanto a mim, que tive pouco estudo. Se o senhor perguntar para ele o que é o comunismo, ele não vai saber responder para o senhor.

– Mas ele vive falando mal do governo.

– Excelência, um elemento que tem quatro filhos, ganhando um “salarinho”, vai falar bem do governo? Nesse caso, todo mundo é comunista na minha cidade. A maioria dos ferroviários, lá, vive no maior aperto.

– O senhor é amigo do sr. José Homem de Góes?

– Sou, sim. Jogo truco com ele quase toda noite. O senhor está estranhando? Estou falando aquilo que eu sei. Sabe como é que está vivendo o sr. Pedro Piva? Com ajuda nossa, do povo de Iperó. Não precisa falar mais nada?

– Não, chega!

Dali a uma semana, o Piva foi chamado para trabalhar em Presidente Epitácio. Removeram ele para lá. E depois de trinta anos, ele regressou e veio me abraçar no armazém. Olha só, se eu tivesse falado alguma coisa que o prejudicasse. Os filhos dele estavam passando fome. Ele sem emprego. As minhas palavras salvaram ele, porque os outros queriam apenas agradar o Zé Borba. Mas precisamos ser verdadeiros.