Affonso Sardinha, Dom Francisco de Sousa, Frei Pedro de Souza e Domingos Pereira Ferreira

Construções antigas encontradas nas matas do Araçoiaba, numa área onde pode ter sido o empreendimento de Domingos Pereira Ferreira (meados do século XVIII) ou mesmo a vila de Nossa Senhora de Monte Serrat (fim do século XVI e início do século XVII). (Ronaldo César Messias)

Affonso Sardinha chegou a Ipanema por volta de 1589. Ele e o filho, também Affonso Sardinha, vinham do Jaraguá procurando ouro. Eram grandes as dificuldades para se chegar a Ipanema naquela época. Para ilustrar isso, em 1904 João Pandiá Calógeras escreveu sobre as minas de São Paulo e citou um texto de 1710 a respeito da busca por metais “na serra Ibirasojaba, distante oito dias da vila de Sorocaba e doze da vila de São Paulo a jornadas moderadas”. Os Sardinha acreditavam que encontrariam jazidas de ouro, mas em vez disso descobriram, literalmente, uma montanha de ferro. Encontraram jazidas de magnetita e óxido de ferro no rio das Furnas. Contentando-se com o “gato”, visto não terem apanhado a “lebre”, construíram dois fornos do tipo catalão onde o ferro não chegava ao estado líquido, mas podia ser trabalhado.

Pouco tempo depois, em 1591, Dom Francisco de Sousa iniciava o seu governo e era também o administrador-geral das minas do Brasil. Político erudito e hábil, ficaria conhecido como “Dom Francisco das manhas”. Ao saber dos achados dos Sardinha, partiu em direção a São Paulo em 1598 e foi para a região de Ipanema. Levou com ele os mineiros Jaques de Unhalte e Geraldo Betim, além de Baccio de Filicaia, Cornélio de Arzão, soldados e o povo. Após verificar as excelentes condições das minas, Sousa teria obrigado os Sardinha a cederem a área à Coroa.

Dom Francisco de Sousa levantou um pelourinho em 1599 e batizou o local como Nossa Senhora de Monte Serrat. Despachou oficialmente a partir da nova vila, que se transformou em capital da capitania de São Vicente nesse período, ordenando que se buscasse ouro pela região. “Alguns meses ficou no Araçoiaba, que também se chama Ipanema por causa do ribeirão, no meio de tanta penúria, aquele grande teimoso, enviando os mineiros para os arredores, por exemplo a Bacaetava e ao Sarapuí.” (ALMEIDA, 1969)

Não foram encontrados ouro e nem prata nesse período. O governador teria fundado, então, um engenho de ferro. Mas o local durou pouco. Se existiu alguma produção de ferro, não enriqueceu a ninguém. Depois dessa decepção, Dom Francisco de Sousa retornou à capital e a vila praticamente deixou de existir. Os povoadores se dividiram e a maior parte também retornou a São Paulo. Entre os que ficaram, começaram a criar novos núcleos habitacionais no entorno do morro, sendo junto ao engenho, sendo no Itapebuçu (pedra chata grande), posteriormente Itavuvu, supostamente à beira do rio Sorocaba.

Um desses povoados (o Ipanema ou o Itavuvu) se chamou São Filipe, fundado entre 1600 e 1611. O governador mudou o local e o teria chamado de São Filipe em alusão ao rei espanhol Felipe II. Devido ao sossego desses primeiros povoados e a dificuldade em progredir, habitantes do Ipanema, do Itavuvu e de outros pontos transferiram-se para a área onde se formou um novo núcleo – o de Baltazar Fernandes – que deu origem a Sorocaba.

A fábrica ficou abandonada. Por volta de 1660 teriam encontrado novamente as jazidas de ferro do Araçoiaba que estavam “esquecidas”. A descoberta chegou ao ouvidor da comarca de Itanhaém (que abrangia a região de Ipanema) e ele veio pessoalmente verificar a existência das reservas. Considerando-as importantes, publicou alvará proibindo que as pessoas se estabelecessem naquelas terras, sob pena de morte. Novamente não houve desenvolvimento e o local foi abandonado.

Em 1681 o governo português demonstrou interesse pelas minas mais uma vez. Frei Pedro de Souza foi enviado para examinar a região, mas não concluiu nada de positivo. Passados quase 70 anos desde os estudos do frei, Portugal permitiu a exploração da área por particulares em 1750. Foi organizada uma sociedade, sendo sócios Domingos Pereira Ferreira (com o privilégio de explorar as minas e montar uma fábrica de ferro), Mateus Lourenço de Carvalho, Manuel del Lineiva Cardoso, Antonio Lopes, Jacinto José de Abreu, Antonio Romar Dória, João Geraldi e o sargento-mor Antonio Ferreira de Andrade. Essa sociedade passou a atuar por volta de 1765, mas também não foi adiante o empreendimento, pois além da pouca produção de ferro, as exigências e os ônus previstos no contrato (impostos cobrados, por exemplo) obrigaram os aventureiros a abandonar a área. Desaparecia a fábrica de Ipanema e assim ficou até o início do século seguinte.