Alguns “causos”…

Alguns causos
Logotipo da Estrada de Ferro Sorocabana.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a população sofreu com o racionamento de produtos, principalmente comida. Os vagões com alimentos eram fortemente vigiados. “Óleo, açúcar, farinha de trigo: tudo era racionado. Quando acabou a guerra, precisávamos de salvo-conduto para andar de trem”, conta Romeu de Campos.

Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, os alimentos também foram racionados. Muitas pessoas saqueavam os trens que chegavam carregados. José Roberto Moraga Ramos, ex-ferroviário, diz que seu avô, Mário de Melo, era uma dessas pessoas. “À noite, ele e alguns amigos iam até o local onde estavam os vagões. Lá, faziam um furo no fundo do vagão (que na época era de madeira), retiravam a quantidade necessária de farinha ou açúcar e tampavam o furo novamente.”

Augusto Rodrigues Filho conta que, por volta de 1960, Iperó parou para ver o então governador Jânio Quadros, que passou pela cidade durante a campanha à Presidência da República. “Ele estava no restaurante do trem. Cabelão preto, terno escuro, bigodão, óculos, vassourinha na lapela, comendo umas fatias de pão com ovo frito e cumprimentando as pessoas.”

Anos depois, após o golpe militar, a “Polícia do Exército” patrulhava o local para evitar sabotagem nos trilhos. “Em 1964, por exemplo, os ferroviários entraram em greve. Os militares trabalharam como maquinistas para que a ferrovia não parasse. Nessa época, às 21h era iniciado o toque de recolher. Quem saísse nas ruas após o horário poderia ser acusado de subversão”, explica Rodrigues, que também falou sobre um dos acidentes mais graves ocorridos no pátio da estação. “Vi muitos acidentes, mas esse foi o pior. Um trem estava manobrando e foi atingido por um outro cargueiro que vinha de Sorocaba. Tentei retirar o maquinista, mas ele estava preso nas ferragens. As mãos dele tremiam e o sangue pingava. Não pude fazer nada. Tentei levantar a cabeça dele e foi aí que vi vários furos em sua testa.”

O movimento na estação de Iperó sempre foi muito grande. Isso é confirmado pelo fato de que em 1967, mesmo com a ferrovia em decadência, desembarcaram 164 mil passageiros e embarcaram 204 mil passageiros na estação local. Dois anos antes, quando se tornou município autônomo, Iperó incorporou em seu brasão a figura de uma ferrovia com o trem, resgatando suas origens. Mas, desde o fim da década de 1970, conforme diminuíram os investimentos no setor ferroviário, Iperó passou a incentivar a vinda de indústrias ao município, o que mudou o perfil da economia local. A Estrada de Ferro Sorocabana e a Fepasa ficaram nas lembranças.

Acidente ocorrido ao lado da estação, envolvendo o choque de duas composições. (Arquivo Jurandir Ramalhão)