“Atlântida iperoense”

Atlântida iperoense
Atlântida. (Ilustração da internet - Portal 2013)

Augusto Daniel Pavon

Meu querido Hugo, temos dados que, somados, fazem emergir com muita força, como se fosse Atlântida emergindo do fundo do mar, a cidade de Iperó dos anos que tanto falamos. Surge revitalizada, atestada pelas fotos, crônicas e principalmente pela imprensa (onde aparecem meus tios Acácio e Lázaro Garcia), com participação ativa na política em defesa do então distrito. Os reclames do comércio mostram a grandeza da ‘minha’ Porfírio, agitadíssima. Lá também está a propaganda da nossa casa, “Garcia e Pavon”. Hugo, se você não existisse, talvez eu tivesse que pedir ao seu pai que tomasse uma providência! Estamos conseguindo, a história informal está surgindo, a Atlântida emerge viva e forte numa tríade: crônicas (narrações), fotos e imprensa da época.

 

Hugo Augusto

Gustão, e já tem tanta coisa interessante… Viu entre as notas de falecimento do jornal, acho que uma sobre a sua bisavó? Dona Honória Ferreira de Almeida. E o comércio? Muito forte mesmo na época… e na Porfírio de Almeida! Enfim, estamos chegando num ponto em que há a necessidade de colocar no impresso mesmo: um livro!

 

Augusto Daniel Pavon

Conheci Vónoria (avó Honória), minha bisavó, mãe de Augusto (meu avô) e de Acácio (meu tio-avô). Meu avô, meu tio, ambos de luta, vindos de família bem carente, não sei exatamente a história, mas consta que o pai era latoeiro, fazia objetos de latas, como canequinhas, por exemplo, mas não tinha um lugar fixo, corria cidades. Infelizmente, não o conheci. Mas os dois irmãos rasgaram espaço e, cada um a seu modo, fizeram seu caminho. Meu avô foi poceiro (fazia poços), pedreiro (fez uma casa, ainda nossa, na rua Silvano Mioni), foi ferroviário (oficinas de Sorocaba), foi caminhoneiro (em 1952 comprou um caminhão e transportava querosene entre São Paulo e Paraná em estradas de terra) e comerciante, entre outras. E graças a Deus foi meu avô.

Meu tio Acácio foi ferroviário, sindicalista e líder sindical (Sorocabana), mandado embora da ferrovia, como comuna, agitador. Uma vez na rua tornou-se toureiro, de desfilar nas ruas com roupas de toureiro, entrar em uma arena e tourear (“pegar touros a unha”), expressão que era a tradução de uma manobra extremamente perigosa, quando o toureiro agarrava o touro pela cabeça, aguardando sua aproximação, ajoelhado. Participou do “O Jornal de Iperó” e foi poeta naquela poesia sobre Iperó. Voltou à ferrovia, onde se aposentou.

Vonória, lembro-me dela vindo de Sorocaba para a minha casa na Porfírio, abraçada à minha tia Lazinha, sua filha, pequena, cabelos encanecidos, testa larga, muito bonita e meiga no andar, sorrir e falar. Tinha a face de uma pessoa da qual a vida cobrou muito e que as dificuldades e a história dela confirmam. Isso a tornou tolerante, compreensiva e quando estava perto dela, sem que ninguém me falasse, eu sentia que ela irradiava segurança e paz, sem emitir uma palavra. Cidica, Gustico, Lazico, assim se referia à minha mãe (sua neta), meu avô (seu filho) e meu tio (seu neto). Pessoas daquelas que, voltando ao “trem da vida”, estiveram por pouco tempo em nosso trem, mas marcaram presença. Que Deus a proteja onde estiver.