“Choque de trens ao lado da estação”

Acidente ocorrido ao lado da estação, envolvendo o choque de duas composições. (Arquivo Jurandir Ramalhão)

Hugo Augusto

Um acidente grave ocorrido entre o fim da década de 1960 e início da década de 1970. Meu pai sempre conta sobre o acidente, pois estava na plataforma no momento da colisão:

“Vi muitos acidentes, mas esse foi o pior. Um trem estava manobrando [LOBA] e foi atingido por um cargueiro que vinha de Sorocaba [MINISSAIA]. Tentei retirar o maquinista [LOBA], mas ele estava preso nas ferragens. As mãos dele tremiam e o sangue pingava. Não pude fazer nada. Tentei levantar a cabeça dele e foi aí que vi vários furos em sua testa.”

A MINISSAIA não respeitou um sinal vermelho na entrada do pátio de Iperó e atingiu a LOBA que estava manobrando para formação de uma composição de passageiros. O maquinista da LOBA morreu. O da MINISSAIA ficou bastante ferido, mas se recuperou.

 

Stênio Andrade Gimenez

Incrível o registro! Sobre o acidente, assim ouvi a experiência do sr. Cordeiro, maquinista aposentado que ainda trabalha conosco na manobra em Mairinque:

Era ainda garoto quando comecei como auxiliar no depósito da Barra Funda. Naquela época tínhamos de trabalhar com maquinistas exigentes, do tempo do vapor, que não davam moleza para ajudantes. Nas minhas primeiras escalas tive de encarar o pior deles, o sr. Aderbal. Para causar boa impressão, antes da jornada fui à locomotiva para limpá-la e deixar tudo tinindo. Passei estopa nos pega mãos, nos bancos e janelas, e joguei um pouco de água no piso para refrescar a cabine. Eis que o sujeito entra pela porta de trás e, com a cara enfezada, me mostra a palma da mão suja.

– Obrigação de ajudante é limpar a cabine, disse ele.

Foram suas únicas palavras durante a viagem toda, até que na saída de Bacaetava pegamos o sinal vermelho e luz da locação acessa, indicando que o ‘Movimento’ queria falar com a gente. Finalmente ele quebrou o silêncio:

– Já falou alguma vez na locação?  Sabe falar com o ‘Movimento’?

– Sei sim, senhor.

– Então vai lá e veja o que eles querem.

Fiz o contato e respondi a ele.

– Eles querem que a gente puxe até liberar o travessão, pare e aguarde completar o sinal para recuar na via 2 e seguir em via contrária até Iperó.

– Estou vendo que você não entendeu nada!

Aderbal não quis saber e seguiu até o próximo sinal – que também se encontrava em vermelho – e dessa vez fez questão, ele mesmo, de falar com o CTC. Nessa hora imagino a bronca que deve ter levado do despachador, pois a ordem era mesmo aquela que eu havia passado anteriormente. Ele subiu na máquina e recuou o trem a toda, até passarmos para a via 2 e finalmente seguirmos adiante como planejado.

Chegando a Iperó vimos a cauda de um trem parado na via 1. Mais adiante a locomotiva toda amassada após bater de frente com outra. Em volta a correria do pessoal ainda tentando retirar o maquinista ensanguentado da cabine. Tinha acabado de acontecer, mas acho que àquela hora ele já estava morto. Foi o primeiro acidente que presenciei na vida. Coisa assim a gente jamais esquece.”