“De Sordi”

De Sordi
O De Sordi jogador e o "De Sordi" de Iperó.

Augusto Daniel Pavon

O São Paulo da década de 50 tinha por lateral direito Newton De Sordi, na época em que lateral era uma função defensiva. Ponta direita ainda era aquele que conduzia a bola até a linha de fundo, pra quem sabe o que é isso, e cruzava, cruzava pra Gino Orlandi fazer de cabeça. Poy, De Sordi e Mauro (figura imponente, estilo clássico, pra quem sabe o que eu estou dizendo e com quem era comparado o Ulisses, zagueiro central do velho Sorocabana, da década de 60, altivo, trato refinado no contato com a “pelota”), Dino, Victor e Riberto, Maurinho, Amaury, Gino Zizinho e Canhoteiro. O maior time de todos os tempos, porque, graças a ele, e bendito seja, hoje sou tricolor.

Mas, enfim, qual é o assunto mesmo? Eu entro em transe quando estou pensando no tricolor. De Sordi tem família em Jundiaí. Após a Copa de 58 foi embora pro Paraná, casou-se com a filha de um usineiro de açúcar, Meneghel, em Bandeirantes, e seu filho chegou a ser prefeito do local. Tudo isso pra falar do “nosso” De Sordi, o Nélson “De Sordi”, de nossa Iperó, que talvez tenha recebido esse apelido por ser um tricolor devoto, ou como diz minha mãe, no tempo em que jogava, batia pesado, como o lateral tricolor.

Levava uma vida num “dolce far niente”, gostava de uma Rosinha (uma caninha feita pela tradicional família Rosa, mas põe tradicional nisso, ligada a uma outra também tradicional e importantíssima família de Iperó, os Sartorelli) e eterno frequentador de velórios, aos quais criticava quando faltava o tradicional lanche: tubaína e sanduíche de mortadela. Enfim, mais uma figura folclórica.

Numa quinta-feira, 2 de junho de 2011, eu o vi subindo pela Santo Antonio, próximo ao lugar de sempre, onde levo a minha mãe, escritório da Vera, irmã do Marcos Andrade. Chamei a atenção do mesmo, que parou, ficou a me olhar por alguns minutos e, pondo o dedo no meu nariz, disse- me: “Você é o filho do Límpio!”. Não perguntou; afirmou. O “De Sordi”, dentro de suas fraquezas, sempre foi muito altivo, diria que até um tanto orgulhoso. Não falei, só ouvi. Isso parece fácil, mas pra mim não. Estou tentando me disciplinar, mas hoje tenho certeza que amo ouvir minha voz.

O “De Sordi” falou sobre tudo, ainda “metido”, mas fiquei muito feliz quando não percebi influência do álcool. Falava por si mesmo. Imponente como sempre foi. Dono de si. Acreditem se quiserem, mas me senti muito feliz. Feliz de ver e ouvir alguém, na sua simplicidade, diante de minha prepotência, mostrar como ser feliz, se sentir importante, vencer com muito pouco. Mostrar em uma fração de segundo o orgulho de ter vencido. Nós fazemos tanto, sentimo-nos tão seguros e importantes e, na maioria das vezes, não somos felizes. Tudo isso não foi para dizer que amo o meu tricolor, mas para dizer muito obrigado ao “De Sordi”, o Nélson, que também era tricolor.