“Era um garoto que como eu…”

Era um garoto
Ângelo Lourenço Filho, o Gilo, faleceu há alguns anos. Através do site, deixou importantes registros sobre a Iperó do fim dos anos 50 até o início dos anos 70, período em que residiu na cidade.

Ângelo Lourenço Filho

Dezembro de 1959. Um garoto de nove anos, caminhando por uma estradinha poeirenta, vai dando um último olhar para aquela casinha de barro e pau a pique, num lugarejo perdido na planície ao pé do morro de Ipanema, no sentido sul, na direção de Sorocaba, conhecido como Araçoiabinha. Sente o coração doer, vai deixando para trás a inocência de uma infância feliz. Viveu essa infância livre, leve e solto. Andava descalço pela mata e ia para a escola, também de pés no chão, amparado por um estilingue. Artefato útil em determinadas situações e de extrema estupidez em outras. Logo será Natal.

Sabe o garoto que naquele Natal, mais uma vez, junto com os já seis irmãos, não haverá presentes. No papai Noel já não acredita. Seu interior tinha dado adeus aos sonhos de criança. Deduzia que papai Noel e cegonha eram frutos da imaginação dos adultos. Nem por isso expressava revolta ou mágoa. À sua maneira era feliz. Caminha ao lado da mãe. Uma bela mulher, apesar dos calos nas mãos e da prole de seis filhos. Suas três irmãs e os dois irmãos ficaram na casa dos avós. A menor das irmãs tem dois anos. A mais velha é quem irá cuidar dela por alguns dias.

Andam na direção do morro de Ipanema no sentido norte. Esgueiram-se pela bifurcação à direita no sentido de George Oetterer. Sete quilômetros de estrada de terra esburacada e lamacenta. Sua mãe canta. Ele reza e canta. Está feliz. Vai para algum lugar. Não sabe para onde. Mas está feliz.

Seu pai, depois de uma licença de cinco anos imposta por uma tuberculose, curado, voltou a trabalhar na ferrovia, na Estrada de Ferro Sorocabana, na cidade de Iperó. Aquele garoto, até então, nunca havia ouvido falar de tal lugar. Só conhecia a cidade de Sorocaba e a vila que era Araçoiaba da Serra. Sua mãe explica que irão pegar o trem “japonês” em George Oetterer. O trem parava na estaçãozinha por volta das 9h. Precisavam caminhar rápido. Era de bom tamanho chegarem por volta das 8h30.

Seu pai estará esperando na estação ferroviária de Iperó na chegada do trem e irá explicar o que eles deverão fazer. A expectativa e ansiedade dominavam o âmago daquele menino. Aquilo representava ultrapassar o pico do morro. Conhecer o outro lado da meia noite. Como ele iria avistar o morro de Ipanema sob outro ângulo? E essa nova vida? Que tal essa vida nova?

O trem japonês verde, belo, tão belo quanto o verde dos campos daquelas paragens, desbrava pelos trilhos da forte Sorocabana. Interrompe o trajeto na estação de Varnhagen (Ipanema), onde embarcam uns dez passageiros. Vai voando rumo adentro até Bacaetava. A mãe do garoto murmura: “Estamos perto. Seu pai me falou que era depois de Bacaetava.”

Alguns minutos depois uma sombra se apossa do trem verde. As portas se abrem. O menino e sua mãe descem do trem japonês. Esse trem fazia apenas o trajeto de Sorocaba a Laranjal Paulista. Dali retornava. Nesse mesmo horário, na estação de Iperó, que compunha um braço de extensão da ferrovia no sentido sul do Brasil, rumo a Itararé, cidade fronteiriça com o estado do Paraná, está parado outro trem na contramão da estação e que seguia no sentido de São Paulo. O trem P1, que era de semi luxo. Tinha restaurante, jornaleiro, vagões com poltrona classe vip e vagões com bancos não confortáveis classe popular. A estação de Iperó fervilhava. Era gente que vinha e gente que ia. A estação de Iperó era luxuosa. Tinha toaletes e sala de espera para as senhoras. Também tinha um bar onde podia se tomar café e comer bolo, bolacha, doces e salgados. O bar do sr. Campos. Um paraíso para o bugrinho de pés no chão de Araçoiabinha.

Calça curta, camisa de chita surrada e cabelo mal cortado com a tesoura desafiada da avó compunham o retrato daquele garoto. A aparência pessoal nada correspondia com a vivacidade, perspicácia e principalmente o sexto sentido desenvolvido por questões de sobrevivência na mata.

Do pátio da estação não se conseguia avistar a cidade. Apenas as casas de funcionários da estrada de ferro, beirando um barranco com extensão de uns 500 metros. Para chegar à rua principal era necessário subir uma escada de cimento, conhecida popularmente como escadão. O pai do menino, como estava trabalhando naquele horário, explicou para a mãe que eles deveriam subir o escadão e, chegando na primeira rua, de nome Porfírio de Almeida, procurar pelo armazém do seu Augusto. Seu Augusto iria entregar todo o material encomendado para fazer a faxina da casinha onde eles iriam dali para frente viver. Uma casinha da Sorocabana situada na Vila do Depósito, do outro lado da cidade. Fato esse que iria determinar o futuro da vida de muitas pessoas.

Seu Augusto e dona Alice gentilmente os atenderam, desejando boa sorte e que fossem bem vindos a Iperó. E Deus é testemunha de como eles tiveram sorte. De posse das chaves do imóvel seguiram até a Vila do Depósito para limpar a casa. A casa era pequena. Com aquela filharada toda seria necessário fazer um barracão nos fundos. Mas uma delícia: tinha água encanada e chuveiro. A uns cem metros dali, imponente e altiva, uma linda e enorme caixa d’água. A vila tinha duas ruas com casas de ambos os lados. A casa deles situava-se na segunda rua, e os fundos dela davam para os trilhos de um triângulo de manobra das máquinas que precisavam fazer o engate dos vagões para um movimento de retorno. Os vizinhos prontamente se dispuseram a ajudar no que fosse possível. Alguém trouxe café com leite, pão caseiro e até uma marmita com arroz e feijão.

A partir daquele dia, devidamente instalados, mais uma família se agregava a tantas outras de iperoenses migrantes de várias regiões do estado. Vizinhos da família Lourenço lá estavam os Prestes (Izaltino), os Senna (Sebastião), os de Barros (Antonio), os Feliciano (José), os Véttina (Joaquim), os Moura (Arlindo), os Verdotti (José), os Moreno (João), os Ticão (Antonio), os Eid (Amadeu) e mais umas cinquenta famílias. Gente irmanada num único objetivo: sobreviver nas agruras de uma comunidade carente, educar os filhos do jeito que desse e rezar (orar).

1960 está chegando e os pais necessitam providenciar a matrícula das crianças na escola. Em Iperó só havia o Grupo Escolar Dr. Gaspar Ricardo Júnior, que atendia as quatro primeiras séries do curso primário. A possibilidade de ficar sem vaga para estudar era enorme. Eram poucas salas de aula disponíveis para atender a demanda e o número de professores também era reduzido. O garoto de Araçoiabinha conseguiu a transferência para a terceira série.

Sua professora, uma lenda em Iperó, dona Henory de Campos Góes. A diretora, dona Alzira Vianna. Ai de quem precisasse ter uma conversinha em particular com a dona Alzira. E ai de quem fizesse alguma gracinha na sala de aula da dona Henory. Educadora austera, mas de enorme coração com a gurizada. Que diga um saudoso colega que gostava de judiar dos meninos, todos mais franzinos que ele (e principalmente dos são-paulinos, como o caipirinha “picorroto” – esse era o apelido dos nascidos em Araçoiabinha). O colega corintiano detestava os são-paulinos.

O pai do garoto sapeca, descendente de imigrantes do oriente médio, assim como a maioria desses imigrantes que fixaram residência em Iperó, possuía um comércio varejista, que vendia um pouco de tudo. O filho tomava emprestado do armazém lâminas de barbear, a conhecida Gillette, e sendo o teto da sala de aula de assoalho, sempre que dona Henory dava uma relaxada, com uma habilidade fantástica ele atirava as lâminas no teto. Lógico que ninguém era trouxa de dedurar, senão a conversa depois da aula não seria nada agradável.

Só que vira e mexe alguma lâmina despencava do alto e pronto: lá vinha dona Henory, soltando o verbo e botando de castigo nosso amiguinho. Nada de sair para o recreio naquele dia. Por mais que ele se fizesse de anjinho, ela evidentemente sabia quem era o autor da proeza. Talvez, e justiça seja feita, ele deve ter pagado alguns castigos injustamente. “Criou fama, deitou na cama”, já dizia o velho ditado. Com o tempo o sapeca filho do proprietário do armazém se esqueceu das brincadeiras com as lâminas e passou a atirar com canudinho de bambu bolotas de papel molhado no teto. Começava tudo de novo. “Não fui eu, não sei de nada. Nada tenho com isso”. Etc e tal. Bronca na diretoria, castigo, e ele nem aí.

E assim a vidinha na cidadezinha pacata, vai transcorrendo. O picorrotinho conseguiu ser aprovado com muita dificuldade. Safou-se de ter que repetir a terceira série com dona Henory.

A professora da quarta série foi um anjo de pessoa chamada dona Pedrina Rosa. Mãe do pestinha do Ely Rosa, que fez o menino de Araçoiabinha pagar um mico sem tamanho e inesquecível. Dona Pedrina foi uma precursora do ensino áudio, teatro, visual. Gostava de ilustrar as aulas com leitura dinâmica e simulação de situações em forma de teatrinho. De vez em quando dona Pedrina adaptava de algum livro de história infantil, uma peça de teatro com as crianças. Foi numa dessas que nosso querido Ely aprontou.

Dona Pedrina ensaiou a garotada para representar a fábula da “Branca de Neve e os sete anões” no barracão. Ela escolheu os figurinos, ajudou as mães dos atores a confeccionar as alegorias, enfeitou e preparou o palco. Tudo ensaiado, a plateia lotando o cinema, só que de última hora um dos sete anões teve um mal estar. Coitado do Dunga amarelou. Tinha que ser logo o Dunga! A solução que dona Pedrina encontrou para a situação emergencial foi apelar para o filhão que não dava sossego. Pegou o Ely que não fazia parte do script, mas acompanhava a mãe em todos os ensaios e obviamente conhecia de cor e salteado o desenrolar do enredo. Pronto, problema solucionado. Solucionado?

Tudo vai transcorrendo maravilhosamente bem. A plateia se divertindo, rindo, aplaudindo, até que numa cena onde os anões entram cantando a famosa “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou…”, o Ely se matando de rir, empurra o coitado do tímido menino ladeira abaixo do palco. Fim do primeiro ato. Fecham-se as cortinas.

Só que teve a volta. Dona Pedrina sempre presenteava os primeiros colocados da sua turma. No final do ano, a vítima da “peça”, tendo sido aprovado em primeiro lugar, ganhou um livro de histórias ilustrado e uma bola de capotão número 4. O título do livro era “Os Gansos do Capitólio”. Uma obra prima da literatura infantil. Ali nasceram duas paixões no coração do menino tímido. A paixão pelo futebol e pela literatura. A bola de capotão sofreu muito com as unhas sujas de terra da garotada da Vila do Depósito. Nem o couro dela sobrou, pois alguns gomos que restaram, serviram de malhas para confecção de estilingues. O livro, depois de lido, relido e memorizado “ad eternum”, caiu no esquecimento em alguma prateleira ou baú de livros e revistas velhas manuseadas.

A vida na Vila do Depósito fervilha. Locomotivas a vapor, diesel e elétricas trafegam indo e vindo para o pavilhão da solda de trilhos e para o triângulo que permite às locomotivas retornar ao pátio da ferrovia. Os barulhos das máquinas de solda elétrica, dos soquetes de ferro fundido, das picaretas e dos martelos, confundem-se com os murmúrios e correria das donas de casa, atarefadas em preparar o almoço dos operários. Os filhos dos operários que terminaram a quarta série do primário, intuitivamente sentem o peso de meio órfãos. Quase que absolutamente nada a fazer.

Estudar no ginásio de Boituva nem em sonho. Para conseguir isso seria necessário fazer um exame de admissão ao curso ginasial. Os mais abastados poderiam fazer uma preparação ao vestibulinho com um professor particular. Aos menos favorecidos, além das diversões de caçar passarinhos, pescar, nadar no porto de areia e jogar futebol, restava o consolo de, no rigor do inverno, ganhar alguns trocados trabalhando de boia fria na colheita do algodão que representava a única atividade rural compatível à idade deles.

Naquele ano de 1962 o mês de Maria já havia terminado e as comemorações ao padroeiro Santo Antonio haviam começado. O mesmo menino agora já rapazinho, meio perdido, trabalhava de manhã colhendo algodão, jogava bola à tarde e à noite dava umas voltas pela praça onde estavam instaladas as barracas da quermesse. Tinha uma vontade imensa de ter algum dinheiro para comprar um arroz doce ou um doce de cidra. E também apostar numa das casinhas da brincadeira do coelhinho. A barraca presenteava o ganhador com bonitos brindes utilitários. Na sexta feira que antecedia a festa maior do padroeiro, ele botou uma roupinha bonita, desceu pela rua que ultrapassava o córrego, que antecedia a Vila do Depósito, e subiu até a entrada dos trilhos em direção à estação. Pediu muito para seu anjo da guarda que o ajudasse de alguma forma ter um dinheirinho para comprar os doces e brincar na barraca do coelhinho. O que ele ganhava na colheita de algodão tinha que ajudar na casa.

Na inocência de seu íntimo e desse diálogo com a divindade maior, ao menos para ele aconteceu um milagre. Quando ia cruzar os primeiros trilhos da malha ferroviária, numa relva verde daquela noite de inverno rigoroso, em plena escuridão, percebeu uma nota de 10 cruzeiros, tão verdinha quanto aquela relva. Relva umedecida pelo sereno que regava suavemente a graminha e também suavizava seu rosto, misturando naquele instante mágico as lágrimas que na sua solidão e na sua inabalável fé estavam presentes. Daquele instante em diante suas forças se multiplicaram. Ele sentiu que poderia ser um vencedor. Era sim possível ter uma vida melhor para ele e para a família. O coelhinho da barraca não colaborou, mas os doces ele comprou, comeu e se lembrou dos irmãos.

No fim de junho o engenheiro administrador da vila chamou o pai do jovenzinho mirrado. O engenheiro tinha um filho da mesma idade. Dizendo que admirava muito a vivacidade do garoto, estava propondo que ele deixasse a lavoura e fosse fazer o curso de admissão ao ginásio com um professor particular que ministrava as aulas numa salinha improvisada nos fundos da casa. Esse professor se chamava João e era um expert no embalsamento de animais, morando onde hoje é a casa paroquial da igreja matriz de Santo Antonio.

O engenheiro assumiu a responsabilidade de bancar o custo das aulas. A safra da colheita de algodão já estava terminando e, como num outro milagre, também surgiu uma alternativa de ajudar na manutenção da casa. Os cafeicultores, para poderem enviar as sacas de café para os entrepostos que efetuavam a torrefação, necessitavam de mão de obra caseira para separar o joio do café. Dava para ganhar uma graninha razoável. Como o trabalho de “catar” café podia ser feito em horários que não prejudicavam as aulas, o dinheiro arrecadado era o suficiente para pagar as aulas do professor João. De qualquer forma tudo foi possível devido ao incentivo recebido do engenheiro administrador.

Novembro de 1962. Não havia alternativa. Era tudo ou nada no ginásio de Boituva. Professor João apresentara a relação de documentos que se faziam necessários para efetivar a matrícula ao exame de admissão. Prova de escolaridade da quarta série primária, certidão de nascimento, comprovante de residência e duas fotos 3×4.

Comprovante de residência e prova de escolaridade nenhum problema. Mas, certidão de nascimento e fotos? Só tinha um jeito: sozinho com 12 anos e sem ter nenhuma experiência de vida urbana e articulação para resolver problemas, além de seu pequeno mundo, pegou o trem, foi até a rua da Penha em Sorocaba, onde tinha um local que se tirava fotografia e que ficava pronta em seis horas mais ou menos. Dali até o mercado municipal, embarcou num ônibus direcionado até Araçoiaba da Serra, à procura do cartório, para tirar uma cópia de seu registro de nascimento. Como a sorte bafejava os teus cabelos, a escrevente do cartório de Araçoiaba o reconheceu como parente e conseguiu liberar a certidão a tempo de pegar outro ônibus de volta para Sorocaba, em condições de retirar as fotos e retornar para Iperó já à noitinha.

O exame admissional era realizado em três dias consecutivos, consistindo de uma prova de matemática com nota mínima de 4,5, outra de português também com nota mínima de 4,5 e a terceira de ciências, história e geografia com nota mínima de 5,0. Tirou 4,8 em matemática, 5,2 em português e 8,0 em ciências, história e geografia. Aquelas notas já definiam o perfil da personalidade do jovem. Foi o único da turma do professor João que passou na primeira chamada. Puts! Legal, maravilha, parabéns, e daí?

Os dias passam e fevereiro de 1963 chega. Vários outros colegas de Iperó se incorporam para estudar em Boituva, inclusive alguns alunos do professor João. Uns que passaram na segunda chamada e outros que conseguiram a transferência por matrículas efetivadas em escolas de Sorocaba e Tatuí. O amigo, filho do engenheiro benfeitor, foi estudar na Escola Técnica Industrial de Sorocaba e seguiu seu caminho.

À época as escolas adotavam uniformes. Os meninos de calça azul marinho, camisa branca, com bordado em vermelho, escrito “G.E Boituva” no bolso, e ainda um blusão azul claro com o brasão da cidade nas costas. As calças podiam ser de brim coringa, as camisas de tricoline bordadas à máquina e os blusões de algodão e flanela. O conjunto de uniforme era adquirido de algum fabricante ou revendedor autorizado. E quem não tinha dinheiro para comprar? O jeito era se virar.

Como a mãe do nosso personagem era costureira, comprou uns panos de brim em Sorocaba. Sorocaba tinha muita revenda de tecido, pois a Manchester Paulista era uma das maiores produtoras de tecidos do Brasil. Com o tecido de brim comprado já dava para confeccionar duas calças. Faltavam as camisas e os bordados. Como a ignorância da maldade nunca se atreveu a contaminar o coração daquela mãe, nem o sangue do garoto, ela ingenuamente catou alguns sacos de algodão branco, que vinham embalando os alimentos comprados no armazém da Sorocabana, alvejou, tingiu ou azulou com anil e pronto! Duas camisas estavam prontas. Restavam para a estreia triunfal no pátio do colégio os bordados das camisas e do blusão. Uma jovem que se tornaria uma amiga/irmã, gentilmente cedeu sua blusa para que a esforçada mãe copiasse bordando a mão os dizeres do bolso da camisa. O blusão não iria ter jeito. Não tinha como comprar e até porque também ainda era verão e em Iperó e Boituva o calor era bravo.

Nesses anos, a impunidade e a bestialidade de alguns poucos, que se julgavam superiores devido à palidez da pele e solidez do bolso, disseminava a discriminação racial e social sem nenhuma polidez em qualquer ambiente. Não é preciso imaginar o que alguém que sonhava em ser alguém, teve que enfrentar um convívio cruel como o que se lhe apresentava. Tomava banho de sabão em pedra ou sabão de cinzas e não conhecia desodorantes. Tinha as mãos e os braços dilacerados pelos espinhos dos frutos do algodoeiro e as unhas maltratadas pela catança de café. Usava camisas de saco alvejado como uniforme. As cuecas eram calções encardidos pelas águas do rio Sorocaba, culpa maior do vício insaciável de nadar. Cueca de saco também servia de short de natação. Os sapatos velhos, com meia sola reposta várias vezes pelo próprio. Na casa ele tinha um pé de cabra. Pedia a vizinhos que arrumassem sapatos usados com salto e sola, para então, com um formão também adaptado retirar os saltos, recortar as solas e com taxinhas assentar a parte superior dos sapatos.

Com a chegada do inverno, novamente a colheita de algodão. Trabalhava das 6h às 11h30 ou 12h. Como as plantações do algodão eram em terrenos próximos da cidade, saía correndo, chegava suado em casa, tomava um banho, escovava os dentes, colocava o uniforme, pegava os cadernos e livros e corria para pegar o trem que ia para Boituva às 13h30, quase sempre já com fome, pois seu almoço de boia-fria era por volta das 9h. Para vencer só havia uma alternativa: mostrar-se superior às provocações e agregar para si a responsabilidade de ajudar até mesmo os desafetos. Com sua sabedoria e sapiência nas matérias escolares, aos poucos passou a ser admirado e odiado. Um dia estava no paraíso, outro dia no inferno. Outro fator contraditório em sua vida, e que ajudava também a alimentar a antipatia de muitos, era o seu sucesso com as meninas. Morria de vergonha e timidez, mas mesmo assim era muito assediado.

A partir de 1963, quando estava na terceira série, nosso garoto começou a colecionar desafetos no âmbito escolar. Os motivos, como sabemos, poderiam ser vários, mas um deles estava diretamente relacionado ao futebol, que era uma atividade da cadeira de educação física. O professor de educação física inseriu na grade curricular a partir desse ano um campeonato interno. Como eram muitos os alunos de Iperó que estudavam no Mário Vercellino, ele resolveu formar uma equipe só com esses alunos. Até porque as aulas ou atividades físicas, e é claro o futebol, eram realizados no campo do Esporte Clube Votoran agregado da fábrica Votoran, no período da manhã, e os alunos tinham que madrugar para pegar o trem e ficar aguardando o horário das aulas todos juntos, independentemente da série que cursavam. Eram uns doze ou treze meninos.

Da relação de atletas constavam bons jogadores, quebra galhos e pernas de pau. Jogavam no time de Iperó: Cica, Gilo, Zé Carlos Paes, Giba, Tiquinho, Groff, Ely Rosa, Adilson Pestinha, Hélio Saúva, Tio Zé, Carlinhos do Felício, Jorge do Bibe, Carlinhos da Diva, Zé Tiguera, Edvaldo Gasparini, Carlinhos do Genésio, João Alfredo, Rubinho. A molecada de Iperó dava show. Se já havia um clima de rivalidade feroz entre os jovens de Iperó e Boituva, depois dos títulos os ânimos se acirraram mais ainda. Dentre todos os participantes dos campeonatos, despontavam vários jogadores jovens que posteriormente iriam brilhar vestindo a gloriosa camisa grená da Associação Atlética Boituvense, bem como a camisa verde e vermelha do Esporte Clube Votoran.

Só quem vestiu o manto sagrado preto e branco do Sorocabana Esporte Clube é que sentiu na pele a rivalidade que extrapolava os limites da fronteira intermunicipal das duas cidades. Enquanto as provocações se limitavam à convivência escolar, nada de mais sério ou grave tendia a acontecer. Mas depois que alguém da turma do passado recente cruzasse em campo vestindo principalmente o uniforme da Boituvense, jogando contra o Sorocabana, lá ou cá, cá ou lá, não tenham dúvidas: o chicote estalava e o pau quebrava. Dentre inúmeras citações de fatos verídicos ocorridos entre as duas cidades em função da rivalidade futebolística, vamos ilustrar uma ocorrida com o nosso já conhecido personagem.

O Sorocabana Esporte Clube sempre manteve uma equipe de base (equipe de base hoje é moda). Da equipe de juvenil subiram para a equipe principal dirigida pelo seu Dito Bom, o Tarciso (goleiro), Cumbina (médio apoiador), Rodolfo (meia armador), Bartolo (centro avante) e Gilo (ponta). Disputando uma partida amistosa contra os grenás de Boituva, na Arena dos Eucaliptos ou Arena Sorocabana (arena também é moda), aconteceu um lance perigoso. Perigoso para o gol da Boituvense e para a cabeça do Gilo. O gol o Gilo fez. Como foi o gol ele não sabe. Um jogador do time adversário acertou não a pelota, mas sim a sua orelha. Ele caiu ligeiramente desmaiado. Acordou entre tapas e beijos. Seu pai encostado no alambrado, não gostou nada do que viu. Xingamento pra cá, resposta de lá, juiz “fdp” e coisa e tal, a jiripoca começou a piar e ânimos a esquentar.

O pai do Gilo gostava de aquecer as manhãs de domingo, principalmente quando tinha jogo do filho, com umas doses da rosinha nos armazéns do Calil Eid e do Olimpio Pavon. Jogo pegado, bola pro mato, uma escapada do Gilo pela esquerda e lá vem o lateral direito da Boituvense: um negro forte, raçudo e que não alisava nem as ripas do cercado da Arena Sorocabana. Uma ginga do Gilo, um drible à la Leivinha, passando o pé por cima da bola em velocidade e “crau!”. O calção rasgado e duas covas na coxa, lembrança eterna dos pregos da chuteira do grande lateral. O pai do Gilo, seu Ângelo, quando pulou o cercado, já foi com duas ripas na mão. Com ele, mais uma meia dúzia de apaixonados do Sorocabana. Foi uma correria desenfreada para os vestiários. Acabou o jogo. Acabou aquele jogo, mas não a bronca que aquela partida despertou e fez renascer nos corações feridos e magoados. A famosa rivalidade.

Ainda quando estava cursando a terceira série, um colega de Iperó que era repetente e não poderia repetir mais, senão seria jubilado, tornou-se um excelente amigo. Filho de uma família razoavelmente bem estabelecida, boa gente, brincalhão. Como ele tinha nos genes o feeling para negócios, o negócio de português, história e geografia complicava. Passava de ano aos trancos e barrancos. Foi então que esse amigo, já com a verve de um grande vendedor, conseguiu vender seu peixe para o garotinho de cabelos encaracolados e olhos verdes. Uma proposta irrecusável para quem como ele ia de estômago vazio para a escola. Proposta decente: para cada prova que nosso herói passasse a cola das questões, um doce do seu Firmino, que mantinha um carrinho apetitoso em frente ao portão de entrada do Ginásio Mário Pedro Vercellino. Em caso de atraso do trem, também era garantido um biscoito de polvilho e amendoim vendido no bar da estação.

Tudo transcorria do jeito que ambos haviam pedido a Deus. Até que certo dia, já no último bimestre, um professor de geografia que morava em Sorocaba e que ia e voltava no mesmo trem, gentilmente convidou o passador de cola para uma conversa particular. De dedo em riste foi logo dizendo: “Olha aqui garoto! Você pensa que me engana. Tenho absoluta certeza que de alguma forma você é o responsável pela transformação que aconteceu com o colega que senta na sua frente. Também tenho observado que vocês parecem amigos íntimos, pois estão sempre juntos. Se eu descobrir que você está passando cola ou fazendo as suas e as provas dele, até porque eu não duvido que você tenha capacidade de imitar a caligrafia do fulano, eu relato o fato para o Padre Olavo – diretor do ginásio – e reprovamos os dois.”

Jesus! As noites se transformaram em pesadelos. Medo de que o pai viesse a tomar conhecimento dos fatos. Medo de perder tudo até então realizado com tanto sacrifício. Faltariam tão somente o término daquele ano e a seguir o último ano para o diploma do ginásio. Só tinha um jeito: rezar. Apelar para a providência divina e para o sempre onipresente Santo Antonio de Pádua. E não é que a reza deu certo!?

Na semana seguinte, o dito professor o chamou novamente, para caminhando juntos apenas os dois, da estação de Boituva até o ginásio, que devia dar uns 300 metros, ponderou o mestre que ele devia evitar fazer qualquer bobagem que desabonasse sua sempre irreparável conduta. Passar cola ou fazer a prova de outro representava fraude e seria prejudicial para ambos. Também deixou transparecer que o colega que tinha certa dificuldade em matérias humanas e sociais, era bom de matemática, conforme atestavam as notas (coisa nata de comerciante!). Sendo assim passaria a fazer vistas grossas para determinadas situações. E assim terminou o ano de 1965: ambos aprovados em primeira época para a quarta série. No ano seguinte, já bem escolados na técnica de como se ajudarem mutuamente, não houve problema algum. Final de 1966 e diploma na mão.

Mas, como tudo na vida do nosso personagem era complicado, até para receber o diploma foi difícil. Ficou decidido que os meninos formandos deveriam se apresentar para a grande festa na recém-inaugurada casa paroquial ,ao lado da igreja, trajados com camisa branca e calça azul marinho. A camisa não foi problema. Uma linda camisa de gola engomada. Tecido bom, ganho de presente da Casa São Benedito. Presente do seu Benedito e de dona Diva Paula Leite. A questão era a calça azul marinho. Sua mãe olhou para o velho guarda roupa e não teve dúvidas. Lá estava a solução. O pai conservava como relíquia um terno de casemira azul marinho, lembrança do casamento. Segundo ele, para ser enterrado com o terno. Que besteira! No dia da festa de formatura, um misto de alegria e tristeza. Não teria a companhia de nenhum parente para assistir ao recebimento do diploma. Nem pai, nem mãe, nem irmãos. Todos tinham vergonha de comparecer na festa sem um traje adequado para o evento.

Tal foi o nervosismo que se apossou do jovem, que a solenidade de recebimento do diploma obedecia a uma ordem de entrada, onde cada formando retirava de um grande vaso um ramalhete de rosas, para em seguida ir cumprimentando o corpo docente e as autoridades presentes. Das mãos de um dos membros da mesa, recebia o tão sonhado canudo. Mas não é que nosso herói, na hora de retirar o ramalhete de rosas, e na ânsia de se ver livre daquilo tudo, arrastou consigo uns seis outros ramalhetes enroscados uns aos outros pelos espinhos?

No seu âmago nada mais tinha sentido, pois não teria mesmo para quem entregar a homenagem. Não iria receber cumprimentos de ninguém. Em contrapartida, assim como se representasse um castigo, recebeu algumas vaias e muita risada da plateia. Como consolo ouviu da pessoa que, levantando e usando da sua autoridade máxima, repreendeu os que se divertiram com o momento bizarro. Fez questão de lhe estender os cumprimentos e um pedido a Jesus para que ele tivesse muito sucesso na vida. Essa pessoa era o Padre Olavo, diretor do ginásio, que eticamente se recusava a entregar os diplomas, deixando a incumbência para professores e autoridades presentes.
Esperou terminar a solenidade da formatura.

Posteriormente haveria um baile no salão da Sociedade Recreativa Boituvense. Saiu de fininho e começou a caminhar subindo a rua Coronel Eugênio Motta no sentido de Iperó. Ao cruzar os trilhos da estrada de ferro ouviu alguém chamá-lo. Era o seu pai. Deu-lhe um abraço. Deu-lhe os parabéns dizendo: “Fiquei de longe assistindo à sua solenidade. Não tive coragem de entrar. Não dê importância pelos fatos. Nem pela ausência dos teus parentes e nem pela bagunça que você arrumou. Iperó é um tirinho de espingarda. Vamos caminhando noite afora, que já, já, é outro dia e a vida continua.”

Chegamos a 1967. Terminado o ginásio, a opção de continuar os estudos para o nosso jovem era fazer o curso Normal, para formação de professores primários, no Instituto de Educação Barão de Suruí, em Tatuí. As aulas iniciavam às 8h. No primeiro ano, em 1967, eram quatro (ao invés de seis) irmãos. Irmãos, porque dividiam até o cobertor para se aquecer no frio na gelada estaçãozinha de Tatuí. O trem partia de Iperó às 4h25. Não tinha atraso, pois esse trem iniciava sua jornada. Alguns outros jovens pegavam o mesmo trem para estudar na Escola Técnica Industrial. Mas no curso Normal, duas garotas e dois rapazes desembarcavam em Tatuí às 5h e tinham que aguardar até por volta das 7h30 para caminhar até a escola.

Apenas um dos jovens conseguiu ser aprovado ao final do ano. Teve que seguir daí em diante sozinho no segundo ano. Aos 18 anos jogava futebol, curtia os bailinhos e queria estrangular um galo que sua mãe cuidava como se fosse um bebê. Não tinha como curtir os bailinhos ou um namorinho aos domingos, pois às 20h tinha que estar na cama, senão não aguentaria levantar de madrugada para pegar o trem. Era tão bizarra a situação, que o danado do galo não se sabe como todo santo dia cantava às 4h. Com chuva, sem chuva, com geada, não tinha acordo. Às 4h, o galo cantava. Era o tempo de lavar a cara, escovar os dentes, engolir um cafezinho puro e sair correndo.

É, mas tinha os sábados e em todos os sábados tinha baile. Os garotos de Iperó iam aos bailes em Laranjal Paulista, Cerquilho, Tietê, Tatuí e às vezes em Boituva. Era bom, porque evitava confrontos com os boituvenses. A ciumeira era grande porque as garotas de Iperó tendiam a paquerar mais os do outro lado do rio. Nosso herói tinha um inseparável amigão do peito para os embalos de sábado à noite. O Carlos Alberto Paula Leite. O Carlinhos do Genésio. Como o Carlinhos era três anos mais novo que ele e fanático por baile, seu pai só dava permissão e dinheiro para os bailinhos, não importasse onde, desde que em companhia do amigo. Óbvio que o amigo comportado cuidava do Carlinhos como joia rara. Afinal, o seu Genésio garantia as passagens de trem, as entradas e as brejas.

Agosto de 1968. Comemoração da festa de São Roque. Bailaço na Sociedade Recreativa Boituvense com o grupo musical Super Som TA. Imperdível. Duas garotas, paqueras da outra margem do rio, atiçando os dois pobres coitados. A situação merecia uma análise. Uma tentação. Boituva representava perigo. A possibilidade de encrenca era quase certa. Uma das garotas que era vidrada no menino de olhos verdes, dava a garantia de que nada iria acontecer. Afinal, seu pai era uma figura ilustre na sociedade boituvense. Haveria uma mesa reservada e ela iria dispor para os dois junto com sua família. Assim sendo, era só convencer seu Genésio de que a barra estava limpíssima. Mil conselhos, dinheiro no bolso (do Carlinhos), roupinhas de galãs e lá vai a dupla pegar o trem das 21h. Ingresso na mão, beijinho nas garotas, apresentação para o sisudo papai, e na mesa das gatinhas um litro de Black White e um balde de gelo! My God! Tava do jeito que o elaborador das confusões adora. O ambiente estava propício.

Nesses idos anos perdurava uma estupidez de algumas sociedades retrógradas, que não permitiam que pessoas negras frequentassem seus ambientes sociais. A Sociedade Recreativa Boituvense era uma delas. A moçada dançava, tomava uns golinhos, o maldito cigarro esfumaçava tudo, e na penumbra alguém chegava e sussurrava nos ouvidos do garoto de Iperó: “É hoje, hein! Tem gente aqui dentro que está prometendo quebrar com vocês.” Encostavam uns e outros e diziam: “Lá fora, na saída, tem uns desafetos que querem dar o troco do último jogo da Boituvense com o Sorocabana. O lateral não se esqueceu da ripada nas costas que levou naquele dia. E disse que como não pode entrar no baile, vai ficar de butuca até a saída de vocês. Nem que tenha que esperar o sol raiar.”

Já passava das 3h e o baile terminava às 4h. O Carlinhos já estava urinando nas calças. O desafeto do lateral negro sabia que estava enrolado. Era necessário estudar uma saída estratégica. Chamou o Carlinhos e disse: “Seguinte, os carinhas em frente ao clube não te conhecem bem e a bronca não é com você. Sai como quem não quer nada, dá meia volta e se manda para a estação. Esconda-se por lá em algum canto e aguenta até o trem das 6h chegar. Chegando a Iperó não vá pra casa de jeito nenhum. Fica lá pela praça me esperando. Se até às 8h eu não chegar, avise seu pai e mandem me procurar no hospital ou no necrotério. Não fale nada pra minha mãe, nem pro meu pai. Vai…”

Carlinhos foi e ele ficou. Poderia ter falado com o sisudo pai da paquera. Explicar. Não teve coragem. Teve que se esgueirar por entre uns e outros cambaleantes sonolentos retardatários da saída do clube, meio que na moita e sem pestanejar, sair correndo como se estivesse dando partida para uma prova de 100 metros. Só teve tempo de olhar para trás e ver que havia muitos correndo e gritando pega! Não parou de correr até o limite da rodovia Castelo Branco. Exausto, se escondeu numa valeta e procurou descansar observando a noite estrelada e fria daquele mês de agosto. Jurou que nunca mais na vida passaria nem em frente da cidade de Boituva. Quando passasse de trem abaixaria para não ver nada. Passava das 6h30, quando um sitiante que fazia uma feirazinha que começava a prosperar na cidade, deu-lhe uma carona no seu trator.

Desembarcou do trator em Iperó, quase às 7h. Procurou pelo Carlinhos na praça e não encontrou. Encontrou-o sentado no degrau da porta da sala da casa quietinho. Choramingando. Quando o Carlinhos viu o amigo todo sujo e descabelado, pediu um silêncio. Não podia acordar ninguém. Desceram até a casa do infeliz desalinhado e tiveram que contar para dona Terezinha o motivo do estado lastimável do filho dela. Como o cafezinho quente e forte já estava coado, tomaram um café e deram muita risada. Inclusive a dona Terezinha. E como o universo está sempre em expansão, a vida em Iperó continuava. Os problemas e as dificuldades também. Nada que não tivesse alguma solução.

Início de 1969. Não existe mais nenhuma possibilidade de o garoto que amava os Beatles dar continuidade em seus estudos no Barão de Suruí. Dezenove anos, cabeludo, jogador de futebol, fumante e sem um centavo no bolso. Seu pai sempre lhe dizia: “Filho, homem sem dinheiro, até a sombra é feia.” E era mesmo. A situação tinha ficado preta. A pecha de vagabundo já começava a rondar sua pessoa. Não tinha mais como. Precisava trabalhar. Estudar durante o dia era impossível. O sonho de ser professor estava desmoronando. Entretanto, quem acredita consegue, e faz jus que a estrela brilhe.

E como uma estrela solitária ou um anjo descendo do céu, um personagem inesperadamente surge em sua vida. Um rapaz chamado José Gamero. Ferroviário, telegrafista, alocado na estação de Sorocaba e estudante do Normal no “Estadão” (Instituto Estadual Júlio Prestes de Albuquerque). Numa tarde de sexta-feira, calor bravo, sem um ventinho a amenizar o sufoco, ele procura a mãe dona Terezinha e explica para ela que o “Estadão” estava oferecendo três vagas para a terceira série do curso noturno do Normal. Era necessário providenciar os documentos até a próxima sexta-feira, data de encerramento das inscrições para a prova de seleção. Meio desacreditado da questão, pois, como encarar dezenas de concorrentes para três vagas sem ter se preparado?

O jeito foi correr até Tatuí no começo da semana, implorar pela ficha modelo 19, que constava as notas e a aprovação das duas séries anteriores e fazer a inscrição para a prova que seria realizada na semana seguinte. O garoto que amava os Beatles e os Rollings Stones não tinha a mínima ideia do que seria a prova. Levou apenas uma caneta no bolso e a fé inabalável. Ficou sabendo que havia 83 candidatos às três vagas. Foram distribuídos em duas salas por ordem alfabética. O responsável pela prova era um professor de português e literatura. A prova era apenas uma dissertação definida como “O que nos espera o futuro?”. Talvez influenciada pela corrida espacial, que prenunciava naqueles meados do ano a chegada do homem à Lua.

O examinador ou fiscal da prova ressaltou em bom português, que a dissertação deveria ser composta de no mínimo 10 linhas e no máximo de 30 linhas. O garoto, um dos, das jovens tardes de domingo, foi tomado por inspiração divina. Talvez algo canalizado, mas escreveu duas folhas de papel almaço, sem rasuras. Na hora de entregar a prova, o examinador nem queria receber, pois a recomendação tinha sido clara. No máximo trinta linhas. Sem opção, teve que aceitar.

Os dias de janeiro continuavam extremamente quentes em 1969. Abafado, sem nenhuma brisa para afagar a face e massagear os cabelos das meninas. O ar parecia contaminado pelo perfume exalado pelas flores de damas da noite, camélias e jasmins. Era como se o tempo tivesse parado. Isso quando não pairava sobre a atmosfera as cinzas de queimadas campo adentro. À noite, uma mistura de sons. Rodas de trens estalando nos trilhos e soltando faíscas. O “talalá, talalá” dos vagões deslizando para os confins. Os sapos resmungando: “foi gol, num foi, foi, num foi, num foi, foi”. Vagalumes iluminando os pequenos arbustos, besouros e mariposas dando trombada nas lâmpadas e pernilongos infernizando.

Nesse cenário, o anjo José chegou esbaforindo, suando e gritando na porta da casa da dona Terezinha, após o concurso no Júlio Prestes de Albuquerque para uma das vagas do terceiro ano Normal: “Dona Terezinha, onde está seu filho? Eu passei hoje no Estadão para fazer a minha matrícula e está publicado que ele passou em primeiro lugar! Tem até segunda feira para fazer a matrícula.”

Ufa! Graças a Deus! Primeiro dia de aula na nova escola, o professor que elaborou a dissertação e que apesar de não compor o corpo docente dos que iriam ministrar as aulas, para o afortunado rapaz, fez questão de conhecê-lo e pedir-lhe autorização para guardar para si uma cópia da redação, pois gostaria de no passar dos anos, conferir se as previsões do postulante à vaga, visionárias, iriam num dia, se concretizar. O ano de 1969 se foi e ficou na memória e na história da vida de um pobre rapaz. Vinte anos de idade. Dia onze de fevereiro de 1970. Quarta-feira de Cinzas. “Morreu Maria quando a folia na quarta feira também morria. E foi de Cinzas seu enxoval. Viveu apenas um carnaval.” Um carnaval que durou 11 anos maravilhosos.

Sentindo-se um zumbi e caminhando por uma estradinha poeirenta, que dá para a estação de Iperó, às 3h30 vai dando um último olhar para aquela casinha com uma área com abertura para a calçada da rua, iguais a quase todas da cidadezinha amada, e que por milhares de dias acolheu numa sacolinha de pano rústico uma garrafa de leite do seu Antonio Andrade com sua charrete, e o pão quentinho das padarias do Del Vigna, do Bíscaro ou do João Padeiro. Seu coração está em pedaços. Sabe que o momento da responsabilidade chegou. Da batalha cruel para vencer os obstáculos do capitalismo selvagem. Os anos dourados acabaram e carnaval never more. Leva na bagagem, além das lições aprendidas, dos amores perdidos, o fluxo energético agregado na magia da Iperó de outrora. Agora sim estava devidamente preparado para enfrentar o mundo!