“Estrada velha”

Estrada velha
Estrada antiga em Iperó. (Arquivo José Roberto Moraga Ramos)

por Adroaldo Jacques Eid
“Era o antigo caminho por onde passavam carroças e carros de boi, ‘cortando’ o terreno de meus pais. Este poema fora inspirado nela, fruto das minhas reminiscências.”

Estrada velha, recoberta de capim,
Como você, também fui abandonado!
Poucos se lembram de você e de mim;
Somos apenas dois farrapos do passado…

Estou de volta para juntos recordar
Os belos dias da nossa tradição,
Que só o poeta consegue guardar
No esconderijo da imaginação.

No céu azul, a estrela-guia,
Raios de sol espantando a escuridão;
Findava a noite e clareava o dia,
Exibindo toda a beleza do sertão!

O cantar da passarada lá na tiguera,
O gado leiteiro fechado no mangueirão,
Pobres crianças que saíam das taperas,
Pra ver a boiada puxando o carretão.

Como era belo o arvoredo das beiradas!
Todo enfeitado com cipó-de-são-joão,
O joão-de-barro cantando pra sua amada;
O triste curiango na cabeça dum mourão.

Os longos braços daquele pé de carvalho,
Por malvadeza parece que abriam as mãos
E despejavam uma chuvinha de orvalho
Nas manhãs frias de cerração.

Estrada velha, me desculpe o embaraço,
Mas um pedido eu preciso lhe fazer:
Proteja os meus derradeiros passos
E no seu colo me permita morrer.