“Eu e Iperó”

Eu e Iperó
Liráucio Zovaro é chefe de estação aposentado.

Liráucio Zovaro

Meus abraços para Augusto Daniel, Tanaka, Moraga, Odacir Peixoto, Elisabeth Rodrigues, Suely, Edna dos Santos, Udovaldo Jacques Eid, Airton Moraga, Maria Silvia Paula Leite e tantos outros. Eu, conterrâneo de vocês, nasci na querida terrinha aos 14 de fevereiro de 1943. Filho de Benjamin Zovaro e Celina Pissinato Zovaro. Nasci na casa 11 do barranco, frente ao pátio da estação, pelas mãos da parteira dona Maria Sanches, mãe do Paco Sanches, portador na estação. Nós morávamos vizinhos do sr. Adão Folim (casa 16) e do sr. Germano que era ajudante de chefe de estação, sendo posteriormente promovido a chefe de estação e indo morar na casa 11. Nessa casa lembro-me de ter falecido um filho do casal Germano chamado Nelci, se não me falha a memória, de tétano. Fomos morar na casa 22, vizinhos de Jaime Pastana Marques e de José de Almeida e dona Adelina.

Estudei até o segundo ano no Grupo Escolar Dr. Gaspar Ricardo Júnior, quando era perto do escadão, com a professora Henory. Dona Henory era muito boa. Certa ocasião deu uma bicicleta para o Laércio, irmão do Loremi, que morava no bairro da Minhoca, para que ele frequentasse as aulas. O terceiro e o quarto ano fiz no grupo novo com a dona Pedrina. O diretor da escola, Virgilio Gomes, que formou os escoteiros. Fizemos várias viagens para Itapetininga, Mairinque, Ipanema, Boituva. Certa vez o sr. Virgilio levou-nos até São Paulo, no Campo de Marte, para conhecermos um avião de guerra. Nesse dia, na chegada em São Paulo, o Zé Marques (Bistecão) deixou cair o chapéu pela janela do trem. Toca o Jorge Nassif correr até uma loja que vendia equipamentos para escoteiros e comprar outro.

Em 1955, querendo seguir a profissão de marceneiro como os meus avós, fui para a escola em Sorocaba, a Escola Técnica Cel. Fernando Prestes. Em 1956 desisti por ser muito difícil ir com o trem P2 2, às 4h40, e regressar com o N1 às 18h40. Para não ficar ocioso pelas ruas, fui fazer o quinto ano com a professora Maria Viana. Ia de trem e regressava de caminhão, a pé, e aproveitava para nadar embaixo da ponte de madeira, que chamavam ponte de terra por ter seu assoalho coberto de terra. Fiz um tipo de preparatório com a professora Therezinha Galvão, quando completei 15 anos que era a idade mínima que se exigia para o exame de seleção para entrar como aluno no Curso Ferroviário (CFT) na escola da Sorocabana.

Concluído o curso entre 1958 e 1959, eu, Adilson Nóbrega e Orlando Mello ficamos até julho de 1962 aguardando vaga para trabalhar. Por ficar aguardando vaga, fiz datilografia em Sorocaba por seis meses e ajudando no cartório da tia Alexis (Lexa) Soares Nassif. Ela era escrivã. Trabalhei em várias estações na função de telegrafista. Barra Funda, Gabriel Piza, Iperó e substituindo em várias outras, sempre morando na querida Iperó. Exceto em 1984: fui trabalhar como chefe ajudante e morar em Itapetininga, mas toda semana estava em Iperó. Trabalhei em Mairinque até julho de 1987 e aposentei em Presidente Altino (Osasco) como chefe de estação. Como aposentado continuo morando em Iperó até hoje. Tenho um pedaço de terra onde eu e minha esposa Maria Helena Rosa (filha do maestro Lazinho) cuidamos das nossas cabras, ovelhas, cavalos, vacas, galinhas, gansos, patos e meus cachorros. Faço minhas cavalgadas nos desfiles de cavaleiros e romaria a Bom Jesus de Pirapora.

Fui batizado e crismado na antiga igreja de Santo Antonio, onde também me casei e meu casamento foi o primeiro casamento da Paróquia de Santo Antonio, celebrado pelo padre Calixto. Meu casamento foi interrompido, pois deu um “branco” no noivo e fui socorrido pelo meu muito amigo Xisto, que me levou até a sacristia e lavou minha cabeça. De volta ao casamento, com aquele cálice brilhante, ele (Xisto) falava baixinho: “Toma mais um pouco que é bom.”

Sobre o futebol, em 1957, quando praticava na estação pelo CFT, o sr. Bertolli era chefe da estação e diretor esportivo do Sorocabana. Nas quintas-feiras era dia de treino do time do Sorocabana e o sr. Bertolli me dispensava do trabalho entre 15h e 15h30 e ordenava que fosse até sua residência. A incumbência era de pegar as bolas com dona Lina (Eulina), encher bem e passar sebo de boi para ficar macia, além da conservação das mesmas. Até que começasse o treino, convidava alguns meninos para bater bola e treinar faltas e pênaltis. Quando o treino começava, ficávamos sentados na arquibancada de tábuas, observando como se jogava 11 contra 11, pois nosso futebol era no campinho da rua do meio e atrás do cinema.

Atrás do cinema tinha uma quadra de basquete, com garrafão e cesta. Só que era de moinha (pedrisco) e as divisas eram com tijolos em espelho. Em 1960 formamos o time do juvenil. O treinador era o João Porto.

Enfim, começamos jogar no “segundão” e posteriormente reserva no time principal disputando o campeonato portofelicense. Como foi falado, na barbearia do Agenor é que saía a escalação escrita em uma lousa. Posteriormente começou a fazer datilografada para que todos ficassem cientes.

Lembrando do sr. Orlando Ferreira, farmacêutico do posto de Saúde da Sorocabana. Certo dia, quando passávamos pela casa do mestre de linha, sr. Totó, o meu colega Leonildo Batista (“Mula manca”, por usar aparelho em uma das pernas devido à paralisia infantil) “atiçou” o cachorro do sr. Totó. O cachorro partiu para cima de nós dois e o Leonildo me ultrapassou na corrida. O cachorro me atacou, me mordeu. Tive que ser levado ao posto de Saúde para curativo, onde o sr. Orlando com uma pinça puxava o excesso de carne e cortava com uma tesoura.

Falando em benzedeira. Por eu ser alérgico, certo dia peguei aroeira e pipocou todo o rosto. A dona Angelina (mãe do Roquinho Boca Rica) benzeu o local mandando passar salmoura . Aí, meus amigos, dancei catira de tanto arder o local.

 

José Roberto Moraga Ramos

Sou suspeito em falar sobre Liráucio, meu amigo. Seu depoimento nos remete aos velhos e bons tempos que certamente estamos todos revivendo. Tenho a convicção de que existe uma expectativa de um futuro grandioso para Iperó, uma vez que seu passado está sendo redescoberto. Parabéns ao Liráucio, extensivo a todos que aqui perpetuam suas lembranças.

 

Augusto Daniel Pavon

Hugão, grande Hugão, amigos todos, pensem no que estamos conseguindo. Leiam que “puta”, no bom sentido, é claro, se é que existe bom sentido nisso. Mas, enfim, que “puta” depoimento do Liráucio. Uns dos melhores. 23h. Leio uma coisa muito bonita tipo essa que o Liráucio escreveu. Só tenho a agradecer e pedir que continue. Não pare. Escreva cada vez mais. Faça Iperó estar vivo nas suas recordações.

 

Odacir Peixoto

Admirado amigo Liráucio, você embora já velhinho, como eu e outros tantos, ainda está com a memória boa como de elefante. O falecido filho do casal Germano chamava-se, sim, Nelci. E o que o levou à morte, lembro-me, ele cutucou o dedo de uma das mãos no espinho de um pé de roseira. Quanto a esse caso, aproveito para pegar um gancho e contar um fato extraordinário que aconteceu comigo somente, que tive mais sorte que o saudoso Nelci, graças a Deus!

No dia do enterro do Nelci, eu estava de molho em casa com um dos pés inflamado e com febre alta. Diante de meu quadro febril, minha mãe sabedora do infortúnio do Nelci, porque dias antes tinha cravado um estrepe de madeira na sola de meu pé. Quando da janela do quarto de minha casa que ficava na Vila do Depósito, pude visualizar quando o caixão com corpo do garoto saiu pelo portão da casa do sr. Germano e começou a descer o escadão em sentido da estação, onde uma locomotiva engatada num vagão de passageiros faria o traslado do corpo até Boituva, onde o franzino Nelci seria sepultado.

E sabe por que isso aconteceu? Foi porque um grupo de amigos da minha classe do grupo escolar, dentre eles, eu, o Ico Gamero, o Carlos Fumes, o Quinho, o Tiziu e outros mais que não me recordo o nome, em suma, uma cambada de malucos, os de sempre, quando soubemos que naquele determinado dia todos os alunos do grupo iriam tomar lombrigueiro, nós com o intuito de não tomarmos tal vermífugo, cabulamos a aula e fomos até a “Turma 1” que ficava na linha do ramal antes da Fazenda Bela Vista, fazendo zoada.

Ao voltarmos, eu vindo esfregando meus pés no caminho que era arenoso, senti que algo estranho tinha entrado em meu pé debaixo do dedo mindinho, mas não sabia identificar o que seria. Não estranhem eu dizer que estava esfregando meus pés na areia, sendo que poderia estar com os pés calçados ou usando um mero chinelo! Calçado, que nada! Naquele tempo andávamos descalços. Calçados só usávamos em ocasiões especialíssimas. Vocês não imaginam o horror que minha saudosa mãe passou naqueles dias enquanto o tal estrepe continuava encravado no meu pé!

Salvo engano, fiquei uns cinco dias com ele no pé, e minha mãe utilizando métodos rudimentares, nada comparados com os de hoje. Usava cânfora misturada com álcool, diariamente, fazia limpeza do local afetado. Foi quando, uma vez, ela usando uma agulha de costura, desinfetada no fogão a lenha, conseguiu alcançar tal objeto e tirá-lo para fora. E ela assustada, observou que se tratava de um pedaço de madeira fina que tinha entrado em meu pé. Quando tirado, estava preto como carvão. Ela só não desmaiou ao ver tal objeto porque foi muito forte no momento, mas veja só gente o que eu passei. Esse foi apenas um dos casos acontecidos em minha vida.