“Eu era feliz… e sabia!”

Eu era feliz
Amizade. (Imagem da internet - Guia dos Solteiros)

Augusto Daniel Pavon

Cheguei agora, tomei “uns par de chopp” e tava pensando na primavera friorenta. As coisas estão um pouco diferentes. Em meus tempos de Iperó, ainda nos brilhos da Porfírio, o inverno é que era a estação do frio. Isso era bom. Era bom porque era julho, mês de férias. Tão esperadas. Eu me levantava tarde. Ouvia todas as rádios. De Lutcho Gatica, Giani Morandi a Bievenido Granda. Sonhava com as meninas lindas e, ainda hoje, lembro-me dos nomes. Não se produziam. Nasciam e continuavam lindas. Minha mãe me trazia o café na cama, eu reclamava da interrupção dos meus pensamentos, levantava-me e saía para a rua. Tudo era muito lindo!

Não me arrependo de não ter visto, porque vi, senti, curti o momento. O sol, de inverno, como o de outras estações, nascia lá no alto, pros lados do Pastini, tomava o lado esquerdo de quem descia a Porfírio, pegava de frente o lado comercial da city. Sentávamos do outro lado, todos estudantes, em férias, alegres, agitando. Vejo ainda hoje, na frente da venda, meu pai, João Ferreira, Eugênio Marandola, Dito Preto saindo de seu plantão, começando o dia papeando, já iniciando numas “biritas”.

Passávamos a manhã num bate-papo, contando o dia anterior e fazendo a programação do dia que se iniciava às 10h. Havia sacrifícios como aguentar o resto da manhã, pensar no sacrifício do almoço, projetar a tarde no “porto” ou na “prainha”, campo de futebol e a noite. Noite de inverno, bailinho no cinema, escolher as meninas para o “chá-chá-chá”, boleros e sambas, de preferência aquelas que deixavam encostar o “rosto” (um pouquinho diferente de hoje). Depois me lembro que sentávamos em frente à porta da venda de casa, fazíamos um resumo do dia, eu então ficava sozinho, deitava-me no degrau e ficava olhando o céu de inverno.

A luz que iluminava era de um poste à beira da calçada, entre o Agenor e a nossa casa, morteira, deixava o céu de inverno escancarado, lotado de estrelas, deslumbrante, na minha “fuça”, inesquecível. E eu, pensando nas verrugas que nunca tive, apontava as estrelas pra ver se, no dia seguinte, eu ganhava uma delas. Não a estrela, mas a verruga. Eu era feliz e o que é importante: eu sabia!!!