“Eu sou Iperó”

Eu sou Iperó
Rua Porfírio de Almeida em agosto de 2017. (Hugo Augusto Rodrigues)

Augusto Daniel Pavon

1 – Iperó, terra querida!!!

Plagiando Gardel, em tango escrito por De Lapera, brasileiro, paulista, santista, autor também da letra de “La noche que me quieras”. Hoje, dia 30 de maio de 2014, estive em Iperó, saí a andar e parei no Gaspar. Assustei-me porque não vi a cabeça do Gaspar. Havia uma foto acima, mas não a cabeça do Gaspar. Quando fazia eu o primeiro quarto ano, porque fiz dois, já alguém houvera partido o pescoço do Gaspar, isso há 60 anos. Na última eleição disseram-me que a sua cabeça (a do Gaspar) passava por reparos e hoje eu não a vi e não houve justificativa.

Fiquei sabendo que há verba e novas construções estão surgindo na minha Porfírio, que a farão ficar mais digna… fico muito feliz. Aquilo é a minha Iperó. Ali está meu umbigo. Eu amarei eternamente a minha rua. Ali está a minha Iperó. O resto só é Iperó se passar pela mãe… a Porfírio… ali está a história, minha e da cidade.

Desci para a praça, a Santo Antonio, e ali, na renovação da praça, que eu não estava entendendo onde iria chegar, se era coisa do padre que ainda pouco tem a ver com minha cidade, veio a grande surpresa… linda, linda, maravilhosa.

Fiquei alguns momentos boquiaberto, perplexo com o mosaico exibindo de uma forma nítida a minha igreja e a minha praça, dos meus tempos de infância, adolescência. Da minha corporação musical, Santa Cecília, a banda, do padre Olavo, do padre Calixto, das festas de Santo Antonio, dos leilões do velho leiloeiro Calil, do “Dito curadô” e sua imensidão de filhos, dos correios elegantes, dos namoricos que assim se iniciavam e que acabavam após a festa, das missas em que o padre Olavo falava de política e o padre Calixto da guerra do Vietnã, dos arroz com frango e arroz com suã de dona Joana ou dona Minervina, dos fogos ao final da festa, da expectativa do anúncio dos novos festeiros para o próximo ano, enfim… do saudosista irrecuperável que sou, mas que vê com otimismo o futuro.

Ainda veremos uma Iperó do tamanho que ela merece, muito grande. Esta cidade é um retrato, em cada fresta, das maiores emoções que vivi. Eu sou Iperó e vice-versa… e tenho dito!!!

 

2 – 2015. Colocando o passado aos nossos olhos… Porfírio de Almeida, antes de qualquer outra, a rua de Iperó, está sendo escavada, de uma maneira rude, mas como os exploradores ingleses fizeram no Egito, trazendo à tona nossos fantasmas. E eles vêm na forma de terra, sim, porque removem com certeza a nossa terra, aquela que pisamos pouco antes da lajota. Nela, a terra, desfilamos nossa infância e juventude, nossas angústias, nossas alegrias, nossos sonhos, poeiras e lamas. Nela, a terra, aprendemos a caminhar, a soltar papagaios, bolinhas de gude, piões, futebol, desfiles, banda, enfim, naquela terra que ali está exposta, vivemos intensamente a nossa Iperó.

Não lamento, apenas constato! Tenho confiança que ela renascerá, porque dela nasceu!!! Com outra cara, sem dona Diva, Agenor, meu avô e meu pai, sem o seu Calil, sem o charme que me pertence, mas renascerá e sempre será o berço da Santo Antonio, da Iperó, da minha cidade, daquilo que sempre estará comigo nos meus pensamentos. Parabéns a quem está brigando por isso, até por que também foi criado nela, a Porfírio!!!

 

3 – 22h, estava vendo um resumo de “Out of África” com Maryl Streep e Robert Redford, fundo musical de Mozart. Enredo, música, fotografia, desempenho, simplesmente maravilhosos. Nostalgia ao extremo. Sensação de, como disse um amigo meu, de “saideira”. Daquelas coisas que não saem de sua cabeça, ficam martelando, extrema sensação de perda…

“Um verão de 42”, “Em algum lugar no passado” e outros que enquanto duraram pareciam eternos, mas que encerraram deixando uma profunda nostalgia, sem a mínima chance. Esse é o mal que Iperó me deixa: misto de amor e vazio, um consequência do outro. Há uma necessidade de estar lá, mas fere, pois como já escrevi… cada esquina é uma vida!!!

Vida vivida intensamente, que preenchia cada momento com atividades, com relacionamentos que ainda duram, mas em nossa imaginação, e machucam. Egoísmo talvez, pois seria mais lógico agradecer e estar feliz por ter tido a oportunidade de ter compartilhado tudo isso com gente boa, num lugar igualmente muito bom. Aquele bem melhor que este. Aquele se bastava e eu só era adolescente!!!

Iperó era linda… hoje, bem, hoje já não sei. Já não tem só iperoense, já não tem o cinema, mas para compensar tem um presídio. Já não tem banda, mas tem uma fanfarra. Já não tem a mesma praça, mas tem uma foto na atual que é muito linda. Já não tem o mesmo “charme”.

Enfim, não tem a nós, como éramos, e aos nossos… mas… há a nostalgia e isso basta para que sempre estejamos lá esperando, talvez, numa tarde ensolarada, numa esquina qualquer, cruzarmos com o nosso passado, ficarmos nos olhando e, por alguns instantes, voltarmos a ser adolescentes… pode ser, pode ser!!!