“Festa do padroeiro”

Festa do padroeiro
Leilão de lenha na década de 1960. Ao fundo, o leiloeiro Calil Eid. (Arquivo Cacilda Benedita Ferreira Gomes)

por Adroaldo Jacques Eid – junho de 2008
“Dedico este poema a todos aqueles que fizeram de Iperó um lugar de inesquecíveis eventos, quando era ainda distrito e não município.”

Depois do “Deus louvado seja”,
Os fiéis deixavam a igreja
E se misturavam à multidão.
Era a festa do padroeiro,
Santo Antonio, casamenteiro,
Conforme reza a tradição.

Tinha banda no coreto
Uma fogueira de graveto,
Barraquinhas de montão.
Tinha barraca de vários jogos,
Barraca que vendia fogos
E a barraca do quentão.

Parece que não tinha perigo,
O céu virava um abrigo,
Que acolhia foguetório e balão!
Tinha até correio-elegante;
No serviço de alto-falante,
O Udovaldo, o Dito-cabra e o Enxadão.

Em cima de um tabuleiro,
O mais famoso dos leiloeiros,
Dava início ao leilão.
Mas antes de exibir as prendas,
O tio Calil fazia uma oferenda:
“Senhores, viva Santo Antonho”, com emoção.

“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe treis”,
Entregava o prêmio ao freguês
Que vencia a competição.
Muita gente disputava,
Porém, quem mais ganhava
Era seu Hamilton, pai do Dilão.

Tinha doce e salgadinho,
Champanha, litro de vinho,
E pinga de garrafão.
Tinha boneca e litro de quinado,
Bolo, chapéu e frango assado,
Um quarto de cabrito e de leitão.

Domingo, o último dia,
A cidade outra vez exibia
Outra grande manifestação.
Vindas de longínquas brenhas,
Chegavam carretas de lenha,
Para mais um bonito leilão.

Tinha ainda o leilão do gado,
Que ficava abarrotado
De carreiro e de peão.
Depois daquele alvoroço,
O festeiro lhes ofertava um almoço,
Como forma de gratidão.

No crepúsculo daquele dia,
O sino da matriz batia
Chamando a população,
Que, contrita e silenciosa,
Cumpria a parte religiosa,
Seguindo a procissão…

Faz tempo, mas me lembro ainda,
Era uma das coisas mais lindas,
Que guardo na recordação.
Aquele mundaréu de gente
Parecia uma enorme serpente
Deslizando pelo chão…

Uma profusão de lindas flores
Enfeitava os andores,
Que iam de mão em mão.
Percorria a cidade inteira
A frente alcançava a rabeira,
Formando um cinturão.

De volta à capela,
O padre, na frente dela,
Erguia a cruz com devoção.
Enquanto o sino repicava,
O povaréu se amontoava,
Debaixo de uma salva de rojão.

Em cima do tabuleiro,
O tio Calil, todo prazenteiro,
Falava no seu jeitão:
“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe treis”,
“Que Santo Antonho”, outra vez,
“Derrame sobre nós sua bênção!”