“GERALDO POLITANI – entrevista”

Geraldo Politani
Geraldo Politani, o Telo, dedicou a vida à ferrovia.

Concedida a José Roberto Moraga Ramos em 20 de fevereiro de 2004

Geraldo Politani, nascido em 5 de dezembro de 1925, em Itu. Veio para Iperó em 1 de julho de 1931.

Minha família morou, inicialmente, numa casa de taipa no fim da Rua Porfírio de Almeida. Era perto da casa onde morou, posteriormente, o Chico Lima. Não havia praticamente nada naquela região, a não ser a Escola de Jundiacanga, onde hoje é o Largo de Santa Rita. Dona Glorinha e Dona Dulce foram minhas primeiras professoras, no primeiro e segundo ano. Depois, o terceiro e o quarto ano fui cursar em Boituva, entre 1937 e 1938. Ia para Boituva com o “trenzinho”. Às vezes acontecia algum acidente e a gente precisava voltar a pé.

Meu pai, Francisco Politani, nasceu em 21 de maio de 1888, na cidade de Lago, na Itália. Era filho de João Batista Politani e Vitória Beluzzi. Nas horas vagas, ele trabalhava como funileiro. Fundia bacias, fazia canequinhas de leite condensado e tantos outros objetos. Aquilo servia para ajudar em casa e também para passar o tempo. Entre 1935 e 1936, mudamos para a Vila do Depósito, época em que foram inauguradas aquelas casas. A estação ainda não existia. Havia uma estação menor apenas, que anos depois foi aumentada.

A vida da criançada era caçar passarinho, jogar bola, pescar e nadar no rio Sorocaba. Havia um campo de futebol em frente ao local onde hoje é o Banco do Brasil. Meu vizinho, naquela época, era o Sr. Fausto, que trabalhava no almoxarifado e não tinha um dos braços. Havia um farmacêutico também, que não me lembro direito. Mais para a frente tinha a casa da Rita Mota. Para baixo tinha a casa do Mário Araújo. No sentido contrário, subindo, havia o armazém do José Pereira Capitão, a venda do Emílio Thomé, a venda do Augusto Garcia – chegou depois –, a barbearia do meu sogro (Luiz Gonzaga de Jesus) e na esquina (onde foi a loja do Benedito Paula Leite anos depois) havia apenas um casa de tábuas onde morava a família do Chico Cóvos. Atravessando a rua, onde era a venda do Bibe, havia um armazém velho e, ao lado, o bar do Joaquim “caixeiro”.

Por volta de 1939-1940, foi construído o Sorocabana Esporte Clube. Nas sessões de cinema, levávamos as cadeiras. Vinham as famílias da vila com as cadeiras. Elias Cunha, Azeredo, Celestino Gouveia. Toda a turma que vinha para o cinema precisava trazer cadeiras. A cada dez minutos, parava-se a sessão para enrolar o filme novamente. Havia uma máquina apenas. A criançada vinha limpinha e voltava igual porco. Nos filmes de faroeste, o mocinho lutava na tela e a criançada lutava em frente à tela. Ninguém conhecia cinema. Era uma coisa divertida. Tenho saudade. As sessões eram bastante concorridas. Às vezes a máquina quebrava e precisávamos levar para consertar em São Paulo, pois nem em Sorocaba havia recursos para aquele tipo de conserto. Quantas vezes o Dito Bom colocou a máquina nas costas e foi até São Paulo de trem. Saía de manhã e voltava no mesmo dia para montar e passar o filme na sessão.

Comecei a trabalhar na ferrovia em 1943. Naquela época, energia elétrica só havia nas casas da vila ferroviária. Nas casas particulares não havia luz. Somente por volta de 1945 é que as demais casas receberam luz elétrica, por intermédio de Floriano Villaça, que na época era interventor em Boituva (prefeito).

Período da Segunda Guerra Mundial aqui em Iperó. Em 1945, eu tinha 20 anos de idade. Daqui saíram o Oscar, João de Oliveira e o Guerino para os campos de batalha. Quando eles voltaram, contavam o que haviam passado e presenciado nos combates. Tenho aqui o salvo conduto do meu pai. Cada vez que ele ia para Sorocaba, precisava levar o documento para o Sr. Gumercindo de Campos assinar e marcar o que ele ia fazer na cidade. Por causa de ele ser italiano, precisava pedir ordem para tudo o que fosse fazer fora da cidade. Os alimentos eram racionado: sal, óleo e mais um que não me lembro. Mas não faltou alimento, graças ao presidente Getúlio Vargas.

Casei-me com a Eunice em 19 de julho de 1947 e tivemos três filhos. Fomos morar próximo do Calil. Depois, mudamos para a rua Duque de Caxias. Dali, para a rua Samuel Domingues. Depois, fui para uma casa da FEPASA, na rua Porfírio de Almeida, graças ao saudoso José Bertolli. Em 1951 acabou o Depósito de Iperó, injustamente. Manteve-se apenas o depósito de Itapetininga. Então, fomos embora para lá.

Na rua Santo Antonio, havia essa casa – onde moro hoje – que era do Sr. Antonio Gimenez. Na esquina onde está o Banco do Brasil, havia um armazém que era do Cordeiro. E, aqui na frente, já pertencia aos Domingues. Mais para baixo havia um terreno grande, que depois foi doado para que se construísse o prédio do ginásio. A construção ficou muitos anos servindo apenas como espaço para criação de cabras e para os ciganos pernoitarem. Somente após vários anos é que a obra foi terminada, sendo inaugurada em 1953. Onde hoje é a loja Skina Modas, havia uma casinha onde morava o João Pinto, que foi o primeiro lixeiro de Iperó. Ele tirava lixo numa carrocinha, puxada pelo famoso burro “Pombo”, um burro branco. Me lembro bem. Tenho muitas recordações. Muitas vezes, eu, Dimas, Quirino, Fleury e Agenor, em época de Semana Santa, desmontávamos a carroça do João Pinto e cada um ficava com uma parte. Depois devolvíamos para ele.

O carnaval naquele tempo era uma grande festa. Tinha o Sr. Cruz, que foi presidente do Sorocabana, Epitácio Figueiredo, o Moura, o Ênio Marchesini. Era um carnaval melhor que o outro. O melhor carnaval foi no tempo do Groff, encarregado dos truqueiros. A frente do clube foi tão enfeitada, que o povo que vinha de fora ficava muito admirado pelo enfeite que nós fazíamos. Desde aquela época, eu e o Dimas já trabalhávamos vendendo artigos carnavalescos, perto de onde havia uma escadinha que subia para a cabine. O carnaval era fantástico. Lembro muito do Horácio Figueiredo, Bibe, Agenor, Pedro Noronha, Zé Noronha, Adão Davi, Piligo, Dona Jacira, Pedro Brasil, Dito Bom e tantos outros.

Saíamos na rua para brincar. Fizemos um bloco. Eram os carnavais mais lindos. As marchinhas “Jardineira”, “Pierrô apaixonado”, “Me dá um dinheiro aí” e “A lá lá ô”, eram tocadas por um conjunto composto pelo meu sogro, pelo Barbosa, Ernesto, Buri, Zibi e Toninho (irmão do meu sogro). Era um conjunto invejável. A harmonia e o respeito que existiam na brincadeira eram marcantes e me trazem boas recordações. Apesar da fama do carnaval de Tatuí, vinha muita gente de lá para participar do carnaval daqui de Iperó. O pessoal vinha com o PS-4, se não me engano, e chegava aqui às 19h. Depois, voltavam com o PS-1, que saía às 5h15. Houve uma vez, num concurso da “Rainha do Carnaval”, que não deixaram o Dito Bom entregar o prêmio. Ela era o diretor esportivo. Foi uma injustiça. Ele chegou a chorar atrás do clube. Eu lamentei essa história e lamento até hoje.

No tempo do prefeito José Homem de Góes, foi feito um tablado na praça e saiu um excelente carnaval também. A turma do Bibe fez um carro alegórico imitando uma plataforma de extração de petróleo. Quando ligava a máquina, ela jogava confete no pessoal que estava brincando. Coisa mais linda. Os Aleixo fizeram um carro alegórico imitando aquelas diligências americanas com cavalos. Os Prestes, com o famoso “boi do Prestes”. E tinha mais carros ainda.

Não me recordo muito bem do primeiro “Primeiro de Maio” que foi comemorado aqui, mas foi um dos maiores eventos já realizados em Iperó. Aquele campo de futebol, que era com cerca de madeira, lotou. Tinha tanta gente naquele dia, eu me lembro. Pedro Queiroz, Chico dos Santos, Toninho Antunes, Sizino Dias. Todos nós trabalhamos com barraca naquele dia no campo de futebol para ajudar o esporte na cidade. Churrasco, pipoca, a gente vendia tudo o que havia para vender. E foi tão grande o sucesso, que acabou tudo em pouco tempo. Limpou. Nós compramos, se não me engano, cinquenta caixas de cerveja. E aquilo já era um absurdo pelo número de pessoas que havia em Iperó. Não sobrou uma garrafa. E, interessante, não faltou uma garrafa também. Deu na medida. Da mesma forma, o refrigerante também deu na medida. Tudo o que nós levamos, vendemos.

Em 1963 fui eleito vereador pelo distrito de Iperó, pela coligação PSP-PSD. Adhemar e Juscelino. Foi eleito o Rafael Caetano da Silva como prefeito em Boituva, que não era o candidato que eu apoiava. Sofri grande pressão para que eu passasse para o lado do prefeito. E eu não podia fazer aquilo, pois precisava respeitar “o lado” pelo qual havia sido eleito. Quando houve a emancipação de Iperó, em março de 1965, renunciei ao meu cargo de vereador e a cadeira passou para o Jandir Schincariol. Eu não tinha mais nada a ver com Boituva, não ganhava “um  tostão” e ainda pagava passagem. Eu e o Dito Preto, que também era vereador em Boituva.

Nós começamos a lutar pela emancipação de Iperó em 1961-1962. O prefeito de Boituva, naquela época, era o Saraiva, que deu “uma mão” para nós. Depois, entrou o Rafael e quis impedir. Quem trabalhou aqui foi o José Homem de Góes, o Jorge Nassif e tantos outros. O Jorge Nassif teve prejuízos, perdeu o cartório. No plebiscito de 1963, houve 97 que votaram contra a emancipação de Iperó. Na minha contagem, foram 480 “SIM” e 97 “NÃO”. Esse era o eleitorado de Iperó naquela época. Acredito que não teve brancos e nulos, pois não tenho marcado aqui.

Voltando ao esporte, o Sorocabana chegou a ter 500 sócios. Fui presidente do Sorocabana e durante grande parte da minha vida me dediquei ao clube. Sacrifiquei a minha família, e minha mulher é testemunha disso. Quantas noites de 31 de dezembro para 1 de janeiro, “Réveillon”, estive ajudando na realização da festa. Mas, depois de cansado, em 1980 me desliguei do clube, pois eu era meio “bocudo” e queria as coisas certas. Foi quando pararam de passar filmes e transformaram em discoteca.. Em 1983 voltei a trabalhar com a diretoria eleita no Esplanada, atuando como tesoureiro. Mas as coisas não eram fáceis. A concorrência com o Sorocabana era grande. A gente tentava entrar em acordo com a diretoria do Sorocabana, eles aceitavam, mas na última hora voltavam atrás nas decisões.