“Iperó, 1953”

Iperó, 1953
Procissão de Santo Antonio. (Arquivo Eliana Gasparini Del Vigna)

por Zeca Corrêa Leite

A procissão seguia e levava o andor tremulante como as chamas das velas e o canto das mulheres e dos homens entoando “Ave Maria” e os rapazes com os pelos despontando na pele macia fumavam seus primeiros cigarros para serem homens e machos e bravos na frente dos semelhantes e do mundo. De um lado se via a frente da casa do feitor da estrada de ferro e o cão latia feito um danado, seu latido feroz e inútil; do outro lado o quintal da casa do seu Mundico, o limoeiro, mixiriqueira, a cerca de madeira vermelha, enxu de vespa na árvore, a casa mais adiante. O trem vinha resfolegando, apitando longe, antes de chegar na ponte pedindo trilho, manobrador, água, lenha, embarque e desembarque.

Bandeira com fita azul e ponta de metal no mastro refletindo a luz da lua, levada pelo homem que puxava rezas onde tinha gente doente ou morta, quando a lojinha de Dona Diva abria de madrugada e se compravam meias grossas para os pés do corpo rijo deitado em cama simples para acordar nunca mais. O homem levava a bandeira e cantava em voz grossa e alta os hinos e as mulheres cantavam devagar e de modo choroso falando da cova de Iria a treze de maio, a Virgem Maria, os três pastorzinhos banhados de luz. As velas queriam acender e apagar, elas brincavam de lume e dançavam e queimavam as mãos das mulheres e das meninas e dos homens e do padre.

Depois chegavam à igreja e tinha menina subindo as escadas e puxando a corda e batendo o sino e acordando os pássaros que dormiam ali por perto e assustando a própria noite e chegando por detrás do som do rádio que apresentava novela. As janelas das casas eram vermelhas e azuis e todas tinham um jardinzinho na frente e tramela no portão e tinha latidos de cães e o barulho forte dos trens que faziam tremer a terra e passavam todas as noites às 2h45.

Na estaçao os bêbados dormiam, os mendigos cantavam de vez em quando, os guardiães andavam de capa escura e comprida, pra lá e pra cá, atordoados. No meio da escuridão, as almas bondosas repetiam cantigas da procissão e as mulheres mortas, vestidas de branco e fitas nos cabelos, seguindo cantando os três pastorzinhos banhados de luz, a Virgem Maria, a Mãe de Jesus.