“Iperó, 50 anos”

50 anos. (Imagem da internet - Elo7)

Augusto Daniel Pavon

Eu nasci em Iperó, na Porfírio, pelas mãos de dona Clara, mãe de Laura, Zibi, Zé Alves e Fiica. Estava pra ser dado à luz, quando meu tio Lazinho foi à vila do Depósito buscar dona Clara. Na descida que terminava no córrego, onde havia um poste com uma única lâmpada, que era a comunicação da pequena cidade com a vila do Depósito, exatamente naquele poste, ele abriu um “taio” no supercílio. Eu cresci em Iperó e até hoje, como a criança mais feliz desse mundo e, toda a manhã, quando saio na sacada do meu apartamento para agradecer, no início do dia, o faço por ter tido a honra de nascer na minha Iperó. Ilusões e desilusões, por todas agradeço, com todas aprendi.

Vivi na adolescência “Saraivas”, “Rafaeis”, “padres Olavo e Oscar”, todos grandes políticos, todos. Entendi que Iperó tinha que crescer junto comigo, tornar-se adulta e aprendi uma palavra muito difícil: “emancipar-se”. E só politicamente, porque economicamente nem tanto. A cidade que nasceu com uma mãe muito forte, a Sorocabana, não sabia, ainda, que sua mãe iria falecer e quase que levá-la consigo para o fim.

Daí percebi que era isso que eu estava fazendo: emancipando-me. Bem, vivi toda a campanha, de Zé Borba, Campos, Henory (hoje nome de escola, uma grande professora, do tempo em que se não bem remunerados, pelo menos não apanhavam de alunos), Dimas, Jorge Nassif, Said, Benedito Paula Leite, meu avô, meu pai e outros tantos, saíamos em passeatas, idas e vindas à cidade de São Paulo, políticos influentes, brigas e mais brigas com o governador Adhemar de Barros, com a questão da divisa com Boituva, que era na capelinha até hoje existente e que Boituva conseguiu levar até o rio, nos tirando terrenos que hoje são ocupados por indústrias.

Foi uma briga exaustiva, década de 60, década agitadíssima, Concílio Vaticano II, movimentos na França, renúncia do Jânio, político muito bem votado, ídolo dos funcionários públicos da ferrovia e que numa época em que o vice podia ser de outro partido, tinha como o seu, João Goulart. Woodstock, movimentos feministas, minissaia, magreza cultuada nas mulheres com as famosas tetas em “ovo frito”, John Kennedy, Nikita Kruschev, Tche Guevara, América Latina efervescente, Guerra fria, Brasil bi do mundo com Garrincha e Pelé, e minha cidade se emancipando, dando um belo “chute na bunda” da madrasta… Boituva!!! Eu sinto-me orgulhoso de ter estado lá, vivido in loco. “Brava gente iperoense, longe vai temor servil…”

Viva Iperó, viva eternamente e em glórias que ainda estão por vir. Vivam meu pai, meu avô, meu bisavô que hoje é nome de uma bonita avenida, Emílio Guazelli. Vivam todos aqueles que estão no cemitério e com os quais, em cada túmulo, recomponho a minha história e a de Iperó, em cada fenda de um muro acho um pedaço de minha vida, dos “Primeiro de Maio”, dos “7 de Setembro”, das festas de Santo Antonio com seus “correios elegantes”, dos escoteiros nas alvoradas, da maior banda da história com Pigico, Lázaro Rosa e outros tantos maravilhosos, do Sorocabana, maior time de todos os tempos, das matinês, filmes, seriados e bailes do maravilhoso barracão, que ardeu em chamas, mas não apagou nossos maravilhosos momentos, ao invés, os perpetuou; das procissões de maio e de Santo Antonio, dos carnavais e das confissões com padre Olavo, do meu rio Sorocaba onde, com meu pai, aprendi a nadar, do N1 que me trazia todas as noites de Sorocaba.

Enfim, eu sou a sua história e me cumprimento por ter estado contigo na sua independência. Viva você, minha querida Iperó, viva eu, viva tudo e viva o Chico barrigudo!!!

 

Hugo Augusto

Gustão, muito obrigado por toda a cumplicidade e gigantesca contribuição ao longo de praticamente 10 anos em que mantemos contato e levamos adiante esse sonho do resgate histórico da memória de Iperó. Nosso livro, físico, está em andamento!!! E, Iperó, parabéns!!!

Cidade onde nasci, fiz meus primeiros amigos e minha família escolheu para viver há pouco mais de 70 anos. Apesar da emancipação recente, há 50 anos, a história de povoamento do território iperoense já tem mais de 400 anos. Passa pelos períodos das descobertas de ferro em Ipanema, ciclo do bandeirismo, ciclo do tropeirismo, Estrada de Ferro Sorocabana e chega aos dias atuais.

Com cerca de 32,5 mil habitantes, a cidade está em desenvolvimento e é reconhecida nos quatros do Brasil e do mundo por abrigar a Floresta Nacional de Ipanema (berço da siderurgia americana) e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (dentre outras atividades, desenvolve as pesquisas em torno do reator nuclear e submarino nuclear). Em breve o município abrigará o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), levando o nome do município também para as referências em pesquisas nas áreas de “Ciência e Tecnologia”.

É claro que a cidade ainda tem inúmeros problemas a serem resolvidos, em diversas áreas (do social ao econômico), assim como encontramos em praticamente todas as cidades. Foram erros e acertos ao longo do tempo, antes e depois da emancipação, mas isso não altera o orgulho que sinto ao falar das minhas origens.

Quando me perguntam: “Você é de onde?” Imediatamente respondo: “De IPERÓ!!!”

Cada um de nós pode ajudar a escrever a história da cidade.

As nossas atitudes como cidadãos importam e muito!!!

Grande abraço a todos e obrigado a todos os amigos que participaram do nosso trabalho até aqui!!! Vamos em frente!!!

 

José Aparecido de Moraes – Tanaka

Aproveitando a data comemorativa, nesta oportunidade quero mostrar aqui toda a minha gratidão à minha mãe virtual “CINQUENTONA” dizendo: Te amo IPERÓ, terra mais que querida. Sim, terra também no seu sentido estrito que me destes para pisar e que nunca reclamastes e não importastes em me suportar em todos os sentidos.

Vós que já tivestes nome de santo, mas que hoje carrega um nome pagão. Entretanto, apenas no nome, pois continuas religiosa como sempre fostes, notadamente cristã. E cristã católica, cristã protestante, cristã evangélica, cristã também de outras denominações, mas sempre cristã, não importa a denominação, pois és mãe de todos e todas.

Vós que carregas um nome que remete ao masculino, mas tem a essência da maternidade e jamais foi madrasta e nunca serás.

Vós que já tivestes um coreto físico e hoje o tem virtual estampado na sua paisagem; uma igreja à antiga e hoje mais atual; uma população caipira, rural, cabocla e hoje seguindo a modernidade; de ruas de terra e pisadas por patas de animais, hoje negras rodadas por velozes borrachas. Enfim, para sempre estarás no íntimo do meu ser.

 

Genésio dos Santos Ferreira

Parabéns, Iperó, pelos seus 50 anos de emancipação. Parabéns iperoenses nativos e/ou de coração!

Em 21 de março de 1965, Iperó, que deixara de ser distrito de Boituva, passaria a ter um governo recém-nascido com prefeito e vereadores da própria cidade. Para mim, não era uma cidade qualquer. Não foi e não é uma cidade qualquer.

Em junho de 1963, meu pai – Paulino Ferreira – fora removido da Turma 34 (Itapeva) para a Turma 1 (km 141 da EFS, início do ex-ramal de Itararé). Pai, mãe e irmãos, vivíamos e continuaríamos vivendo por um bom tempo à beira da linha do trem. Íamos à vila só quando necessário, fosse pra fazer alguma compra no comércio, para ir à missa, ao futebol, a alguma festa ou desfile em data comemorativa. A ida à escola, porém, era compulsória de segunda a sexta.

Estudei o quinto ano do antigo grupo escolar (segundo semestre de 1963) no “Gaspar”. Àquela época ali só havia o ensino primário. Mas foi lá também que, em 1969, estudei a quarta série do ginásio. E, entre 1964 e 1968, estudei séries ginasiais no Mário Vercellino, em Boituva. Interrompendo-se o ginásio, fiz o Curso de Telegrafista, em outro “Gaspar”, escola técnica da ferrovia, em Sorocaba. Sabemos que no ensino educacional de hoje, primário e ginásio se fundiram e compõem os nove anos do fundamental. Meus irmãos e irmãs, em diferentes momentos, também passaram por essa rotina.

Continuando as reminiscências, foi em 67 ou 68 que deixamos a Turma 1 e fomos morar na cidade. Qualquer dia eu conto esta história da saída da Turma 1. Dá uma novela ou quase um conto… de terror.

Viemos pra Vila Moraes, moramos por dois ou três meses de aluguel na rua Constantino Pastini, próximo da confluência com a hoje Avenida Paulo Antunes Moreira. Depois, meu pai construiu a casa, em dois lotes adquiridos na antiga rua Dois, atual rua José de Moraes, 222. Ali moramos por um bom tempo, em casa com poço dentro da cozinha, inicialmente sem reboco, sem vidros em janelas, sem forro no teto. Também cheguei a construir uma casa, no fim da década de 70, junto ao trevo de saída para Bacaetava/Sorocaba e Tatuí. Quanto às casas, tanto a alugada quanto as adquiridas e depois vendidas, ainda estão lá, com modificações. No entanto, das residências da Turma 1, que pertenciam à EFS, não há nem vestígio. Tenho fotos dos locais.

Para aquela criança de calças curtas e para todas as crianças, dois ou três anos a mais ou a menos com relação à idade de outros guris ou gurias, pareciam ser quilômetros a serem percorridos e quase que instransponíveis nas relações de amizade e de brincadeiras com os demais coleguinhas. Daquele tempo, eu que tinha 11 anos, me recordo da “Escola Gaspar”, onde fiz o quinto ano. E me lembro do professor Benvindo Jacob e, da quarta série do ginásio, a recordação é do Paulo Mazulquim, professor de Matemática, da Célia Mioni, professora de Português, do Ipojucan, professor de Artes, e de alguns outros dos quais me fogem os nomes.

Comunitariamente, convivíamos, eu, meus pais e irmãos, com uns poucos moradores da Turma – o sêo Fernando e dona Cristina, com os filhos Fião, Tuim; o sêo Ico e dona Dita (Benedito e Benedita), com os filhos Adão, Gusto e Nenê; com a dona Detinha, sêo Gino e filhos, do sítio vizinho à Turma, junto à várzea do outro lado da linha do trem. Vivíamos num ambiente quase que apartado das pessoas da cidade. Éramos um pouco bichos do mato. Só de vez em quando éramos “visitados” por algum mascate ou um e outro andarilho que perambulava no caminho dos trens.

Como já disse, foi após a mudança para a Vila Moraes, que passamos a conviver com os “da cidade”. A minha ligação forte com Iperó, que se deu inicialmente com a ferrovia e sua gente (minha gente!), depois fortaleceu-se muito mais na convivência com a vila, seus lugares e ocasiões, e suas gentes (minhas gentes!).

Tantas coisas passam pela mente: a inauguração da caixa d’água municipal, na rua Constantino Pastini; as festas de Santo Antonio e de Santa Rita e suas procissões, quermesses e leilões; os desfiles e a bandinha Santa Cecília; a sinuca e discussões sobre futebol no bar do Santista (que era palmeirense!), no bar do Felício e no bar do Giba, o Copa 70; o carrinho de doces do Zé Pequeno; as serenatas com o Zé Augusto e outros violonistas e/ou violeiros; a ida ao “escadão” ou à plataforma da estação para ver, apreciar (e conferir!) a chegada e saída dos trens e seus passageiros; os jogos de malha e de bocha; as ‘composições japonesas’ (trens!), nossas conduções para as escolas em Boituva e Sorocaba; a convivência nas escolas; o cinema em seu “barracão”; os serviços na “cata” de algodão, no corte de cana, nas plantações dos japoneses Mauri e Kandi, no plantio de gramas na rodovia Castelo Branco ainda não inaugurada, no açougue do Zeca Calixto, no escritório contábil do Marcos Andrade; o futebol (que não joguei, por ser um absoluto perna de pau!) nos campos do Sorocabana e as peladas nas ruas de terra da Vila Moraes; o estágio do curso de Telegrafista, na estação; os vizinhos da rua Dois (hoje rua José de Moraes); os jogos de xadrez na casa do Zé Lopes e do ‘Vanusa’ e irmãos; e tantas outras situações, gentes e lugares que fizeram parte de minha infançolescência e que não cabem numa só postagem.

No livro “Eu, a ferrovia e o tempo”, de Benedicto Peixoto Filho, há a reprodução de uma foto da turma de ginasianos formandos de 1969. Lá estão, entre outros, o Peixoto, o Zé Fogaça, o Hélio ‘Saúva’, o Zé Roberto ‘Tiguera’, as irmãs que tocavam clarina (não me lembro do nome delas), as irmãs Vera e Márcia Andrade, as ‘george oetterenses’ Iraci e Ana Nilce, algumas professoras e professores, as meninas e meninos de Tatuí, e eu inclusive. Eu tinha esta foto e a perdi em minhas andanças. Não há como não recordar o período em que fiz estágio do curso de CFT (telegrafista!) na estação. Fizeram parte disso, como instrutores e monitores, os ferroviários Osmar, Dito Galvão, Jaime Vilhena, Adilson Nóbrega, Peixoto, Telo, Zé Fogaça e outros, alguns deles também estavam na turma de formandos de 1969.

E como esquecer a minha “fuga” para Osasco, rumo ao Bradesco, meu primeiro registro em carteira, e que para onde também, logo depois, partiram algumas dezenas de iperoenses em busca de emprego? Chegamos até a formar um time de futebol, com titulares e segundões, e de uniforme completo, o “Caju” (Clube Atlético Juventude Unida), que teve vida curtíssima. Afinal, eu nunca servi para cartola e muitos dos futebolistas “bradesquianos” já eram jogadores do Sorocabana ou do SACI. Tenho fotos dos times.

Tudo isso me vem em torrentes neste dia em que Iperó está completando seus 50 anos de emancipação. As pessoas todas estão vivas. Em Iperó, em outras praças, em minha memória. Mas fica pra amanhã, ou depois, um relato mais organizado e pormenorizado disso tudo.

Um carinho especial ao Hugo, ao Zé Roberto e demais colaboradores e incentivadores desta página sobre Iperó e suas gentes. Sintam-se contemplados, também, todos os que não foram citados nominalmente neste texto (e são muitos e muitas!) e que de alguma forma conviveram comigo à época.

Beijos e abraços aos nativos e aos de coração. Fui.