“Iperó e a década de 60” 

Década de 60
Sorocabana na década de 1960. (Arquivo Marco Polo Calandriello)

por Augusto Daniel Pavon

Nem tudo foi bom na década de 60, mas sem dúvida ela não foi morna. Movimentou o mundo (movimento estudantil na França, revoluções na América Latina, incluindo o Brasil, revolução na igreja com o maravilhoso João XXIII, Woodstock e o movimento hippie nos EUA, etc).

Época do início do “amor livre”, que quer dizer “da transa sem compromisso”, dos movimentos feministas, do nosso país com o bicampeonato mundial no Chile (quando ouvíamos no rádio o jogo durante o dia e à noite víamos o VT – um avanço), da renúncia do Jânio (fenômeno eleitoral, mas sem Congresso e que quis se impor pela renúncia, para voltar carregado pelo povo que o elegeu, numa espécie de ditador), da tentativa de presidenciar o vice Jango (uma incógnita, vice opositor ao que renunciara).

E num movimento que cresceu, apoiado e estimulado pela igreja, o “Movimento com Deus pela liberdade”, não apenas caiu o Jango, como iniciou uma longa ditadura militar.

No Estado tínhamos a hegemonia do Santos de Pelé, tínhamos o gigante do Morumbi em fase final, a transformação das ferrovias (com histórias e tradições diferentes – e não eram poucas) em FEPASA, iniciando o que seria o desmantelamento do funcionalismo público naquele sistema de emprego vitalício.

Na pequena Iperó, com seus 5 mil ou 6 mil habitantes, ainda distrito de Boituva, com seus “saraivas”, “rafaeis” e “padres” (Olavo, que num momento de furor político castigou o povo fechando a capela de Iperó, por vingança, obrigando-nos a ir à missa em Boituva), tinha início o movimento para a emancipação.

Movimento bonito, ativo, pois envolveu e uniu ainda mais a pequena grande cidade, com seus Jorge Nassif, Said, Zé Borba e tantos outros. Saíamos pela cidade, pela emancipação, assim como saímos no “Movimento com Deus pela liberdade”.

Iperó teve o maior e melhor time de futebol de todos os tempos, com Hélio, Oswaldo e Jumbé, Ulisses e Jorge, Julião e Otávio, Orlando, Olavo, Serginho e Quinho, uma máquina de jogar futebol. Época dos apitos solitários das máquinas puxando os vagões na noite. Lindos. Do N1, P1, dos trens que nasciam na madrugada nos levando a Sorocaba para estudarmos.

Época das tardes no rio Sorocaba, dos bailinhos e bailões, dos filmes e paixões, épocas de Iperó. Época em que ficávamos no fundão da igreja e quando o padre, o mesmo de anteriormente, começava na homilia, a falar de política, saíamos e ficávamos na praça, esperando o fim da mesma para voltarmos.

Lá se vão 50 anos. Pessoas foram, outras ainda estão, outras chegando. E Iperó… bem, Iperó vai indo. Cresceu aqui, estagnou ali e parou lá, lá na Porfírio que as fotos mostram o que foi na década de 60. Nós continuamos acreditando e amando, até porque temos o nosso umbigo num quintal da Porfírio, 85, sob uma jabuticabeira… “I vamu qui vamu”.