“Iperó e o trem”

Iperó e o trem
Estação de Iperó e a vila Santo Antonio ao fundo - fim da década de 1990. (José Roberto Moraga Ramos)

por Hugo Augusto Rodrigues – 2014

A Iperó primitiva era uma área com grande presença de nativos e se integrava às trilhas da Peabiru, caminho que ligava o Pacífico ao Atlântico. Séculos depois, no fim dos anos 1500, se tornou o berço da siderurgia americana, o que se confirma através dos remanescentes das fundições no morro Araçoiaba. Mais um século se passa e a região se torna rota dos bandeirantes e posteriormente dos tropeiros.

Depois, com a chegada da Família Real ao Brasil, nasce a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (onde está a atual Floresta Nacional de Ipanema). O empreendimento foi de grande importância para o desenvolvimento do Brasil e funcionou durante 85 anos.

O espírito de progresso sempre pairou por essas terras. E assim, acelerando a linha do tempo por mais um século, chegamos à primeira metade do século XX, quando a ferrovia rasgou o território do atual município.

Iperó teve o trem como um aspecto importante na sua história e desenvolvimento, o que levou à criação dos primeiros serviços públicos, estabelecimentos comerciais e vilas com casas para os ferroviários. Esses primeiros núcleos urbanos organizados, construídos pela própria Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), deram ar de cidade à pequena Santo Antonio. A ferrovia movimentava o comércio, criou clube, time de futebol, campo e cinema para oferecer lazer aos iperoenses daqueles tempos.

Sem o trem, possivelmente o novo povoado de Santo Antonio não tivesse existido ou demorasse mais tempo para se desenvolver e sonhar em se tornar município. O trem impulsionou o lugar durante os anos 1930 e 1940.

Nas décadas seguintes, anos 1950 e início dos 1960, a presença da ferrovia e o imenso movimento de pessoas foram marcantes para o “distrito de Iperó”. Isso dinamizou o povoado e contribuiu para que as lideranças políticas locais e a população levassem adiante o sonho da emancipação.

Sem o trem, talvez tivéssemos ficado pelo caminho, sem a possibilidade de conviver com tantas famílias que vieram para cá e fincaram suas raízes com o sonho de uma vida melhor. O trem abriu fronteiras para além do nosso pedaço de chão à margem esquerda do rio Sorocaba.

Na estação, embarcavam e desembarcavam sonhos e projetos de vida. O romantismo da juventude passeava pela plataforma da estação na esperança de encontrar a “cara-metade”. Namoros. Casamentos. A estação como um ponto-de-encontro. A praça dos iperoenses.

Época onde havia o orgulho de ser ferroviário ou pertencer a uma família de ferroviários. E mesmo quem não tinha ligação com a ferrovia, também se orgulhava em viver aqui e trabalhava muito para ajudar no desenvolvimento do povoado: comerciantes, servidores públicos, agricultores, pecuaristas e trabalhadores das mais diversas áreas contribuíram para o crescimento do lugar.

E todos se orgulhavam ainda por muito mais: a grande festa do padroeiro reconhecida em toda a região, os bailes no Sorocabana, o time de futebol muito respeitado por onde passava…

Olhar Iperó hoje é enxergar duas cidades: antes e depois da EFS. Anos de administrações ruins nas diversas companhias que operavam no Estado de São Paulo levaram à criação da empresa Ferrovia Paulista S.A. no início da década de 1970. A Fepasa nasceu em crise, iniciou um processo de decadência já nos primeiros anos, intensificado a partir dos anos 1980, que se arrastou até 1998 quando ocorreu a privatização. De lá para cá, acompanhamos o triste destino das ferrovias em São Paulo e também pelo Brasil afora.

O ‘pós-EFS’ pesou para Iperó e não foi apenas economicamente. Foi quase um ‘pós-guerra’ que levou a um desânimo geral durante muito tempo. Quando a ferrovia acabou, parece que o orgulho de ser iperoense também se foi. As coisas se arrastaram. A cidade ficou órfã e as pessoas passaram a repetir muitas lamentações. É triste, realmente.

Sentimos saudade da ferrovia e do trem, das lembranças da infância e adolescência. Mas, se por um lado o nosso “saudosismo” lembra que houve vida ativa e pulsante no entorno da ferrovia, por outro lado isso só foi possível graças às pessoas. Pessoas que atuaram nas mais diversas frentes de trabalho e ajudaram a impulsionar a cidade. A ferrovia acabou, mas as pessoas continuaram. E a cidade continuou. Então, é preciso seguir em frente.

A esperança de revitalização das áreas do pátio, estação e depósito tem um significado que vai além da retirada dos vagões. É preciso trazer de volta o orgulho dos iperoenses e preservar aquele complexo que por várias décadas trouxe desenvolvimento ao município.

É preservar também a memória de todos os que participaram da saga da Sorocabana em Iperó, pois uma história que representou tanto progresso não pode ser esquecida. As novas gerações devem se orgulhar daquele espaço e utilizar o local com respeito à memória de todos os ferroviários que ali dedicaram grande parte das suas vidas.