“Iperó e os anos dourados”

Iperó e os anos dourados
Antiga igreja matriz e praça com o primeiro coreto. (Arquivo Cima Rodrigues)

Ângelo Lourenço Filho

Usos e costumes da época

Talvez até mesmo por falta de opções de lazer, as pessoas de vários segmentos da sociedade, abastados ou pobres, exercitavam algumas praticas de desintoxicação interior. Nessa época já trabalhavam normalmente psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras, sociólogos, jornalistas. Atividades profissionais normais. Entretanto, na maioria das sociedades dessa época, formadas por pequenas comunidades, como Iperó, era difícil se deparar com pessoas sofrendo de depressão, ansiedade, angústia, solidão. Tomava-se café no bule da cozinha do vizinho. Sempre tinha alguém contando um causo qualquer ao entardecer. Fofocava-se a respeito de fulano e beltrano, mas não passava disso. Certamente ninguém sabia nada sobre stress.

No histórico de Iperó nesses anos dourados, registra-se apenas um caso de homicídio. A cadeia que nem escrivão e delegado tinha, quando muito servia de hospedagem para uns beberrões que trocavam uns sopapos num bar ou na rua, ou quando em fins de semana, e de vez em quando, os guardas, recolhiam jovens briguentos dos bailes aos sábados. Só saíam da cadeia no domingo de manhã, depois que lavassem e limpassem o pátio em frente e ao redor da prisão. Obviamente que servia de corretivo para os valentões, já que acabava se tornando uma situação constrangedora, hilária e motivo de chacota. A polícia não tinha viatura e era composta de dois soldados.

Tinha reza na igreja católica todo findar de tarde. Era a hora da Ave Maria. O sino da igreja repicava anunciando o fim do dia. Rezava-se o terço. Na paróquia funcionava um serviço de alto falante, que prestava informações e tocava músicas, antes e depois do terço. Os domingos eram sagrados. Todo mundo botava a roupa de missa. Os fofoqueiros de plantão diziam que cada um queria se vestir melhor que o outro, pois a missa era a passarela da “high society”. Na igreja Congregação Cristã, os fiéis oravam no culto evangélico.

As mulheres compareciam às igrejas vestidas em estilo social. Invariavelmente usavam véus cobrindo a cabeça. Véu de cor preta se casadas e véu branco se fossem solteiras. As mulheres evangélicas desconheciam calça comprida e cabelo curto. Tinham uma postura discreta e conservadora.

Com relação à comida, bem ou mal, mais ou menos, havia um franguinho na panela, um pãozinho feito em casa, um feijãozinho, um arroz ou um macarrão. Muitos deles preparados nos fogões à lenha, à custa dos tocos de eucalipto das máquinas a vapor conhecidas como “maria fumaça”.

Os empregados da Sorocabana podiam comprar os mantimentos e material de higiene e limpeza no armazém da empresa que ficava em Sorocaba. Fazia-se o pedido numa caderneta grande e o valor era descontado na folha de pagamento. Para os filhos dos ferroviários o mês tinha dois dias de festa. O dia em que chegava o trem pagador, pois do que sobrava do pagamento ao menos um sorvete quase todos conseguiam com os pais. O outro dia de festa era quando o vagão carregado com as compras encomendadas do armazém de Sorocaba descarregava os pedidos. Era o povo todo carregando nas costas os mantimentos. E quem não conseguia levar tudo nas costas, contratava o serviço de transporte animal, as carrocinhas, espécie de taxi sertanejo.

As tardes de domingo eram reservadas ao futebol. Futebol era paixão. Jogadores do Sorocabana eram amadores e só ganhavam o direito de não pagar o cinema e nem as entradas nos bailes. Como ídolos da terra despertavam suspiros das jovens que de saia e sombrinha se acomodavam em frente do barranco no sentido esquerdo da entrada do estádio, ou à beira do cercado de madeira do lado direito para aplaudirem ou vaiarem os atletas. Ali não havia rivalidade entre corintianos, são paulinos, palmeirenses e santistas. Tudo era Sorocabana.

Exceção de ocasiões especiais como os das festas de Santo Antonio e Primeiro de maio, aos domingos o cinema do barracão era o “weekend”. A garotada sentava no chão de frente para tela e era só festa. Cada cortada na fita (e eram muitas) a luz acendia e era aquela gritaria. Parecia mais torcida de futebol do que um cine. Aplaudia-se o mocinho e vaiava-se o bandido. O cinema era tão bizarro e divertido que nos fundos havia um bar que vendia refrigerantes, sorvetes do seu Felício e guloseimas. As cadeiras eram de madeira sem declive e cada um que se virasse para enxergar a tela. Antes da película principal, a plateia assistia a um cine jornal. Como esse cine jornal era carioca, aprendemos a decorar os nomes dos jogadores do Vasco, Botafogo, Flamengo e Fluminense. Dos times paulistas só quando havia jogos pelo torneio Rio-São Paulo, ou um, ou outro clássico do nosso Estado. Também antes do filme principal eram exibidos os precursores das nossas novelas de hoje. Os seriados. Todos os aficionados amavam assistir aos seriados do Zorro, do Fantasma, do Cobra, Durango Kid, etc.

No barracão do cinema ouviam-se músicas uma hora antes do início dos filmes. Muita música mexicana. Até porque a maioria dos filmes era da produtora Pelmex. Todo mundo conhecia de cor as músicas do Miguel Aceves Mejia. Às vezes um faroeste ou um filme de amor. Muito dificilmente um clássico. Extrapolava a capacidade financeira do cinema. Ainda assim se podia curtir e muito os faroestes com John Wayne, Henry Ford, Gregory Peck, Débora Kerr. Como na música da Rita Lee, vez ou outra o lanterninha flagrava uns beijinhos de casais apaixonados.

Até meados da década de 60, as transmissões radiofônicas eram de difícil captação. Os poucos aparelhos em raras casas conseguiam em determinados horários sintonizar melhor as emissoras em Ondas Longas do Rio de Janeiro. Aprendemos a curtir a programação musical das rádios Nacional e Mairinque Veiga. Os famosos cantores do rádio. Essas rádios apresentavam musicais ao vivo. Ouvia-se sempre Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Elisete Cardoso, Cauby Peixoto. Das emissoras de São Paulo, a mais sintonizada era a Rádio Tupi. Também as rádios de Sorocaba: Rádio Clube e Rádio Cacique. A Rádio Clube apresentava aos domingos um programa ao vivo, onde alguns postulantes a artista se aventuravam. Era o princípio da época do iê-iê-iê. Das vitrolas e dos discos compactos. Faziam sucesso nas rádios regionais duplas sertanejas como os eternos Tonico e Tinoco, mas o xodó eram os “Desafios de Cururu”.

Televisão nas residências nem pensar. Na Vila do Depósito apenas uma casa tinha televisão. Era do chefe do depósito, o sr. Egídio. Ele colocava a TV no parapeito da janela da sala de frente para a rua e até bancos de madeira foram construídos para o povo sentar e assistir qualquer coisa que a TV conseguisse captar.

A partir de 1961 o mundo explodia. Da América do Norte vinham as notícias sobre a guerra do Vietnã. Da guerra fria com a União Soviética. Dos hippies, da Ku Klux Klan, Elvis Presley, Frank Sinatra. A moçada curtia muito os gibis do Fantasma, Tarzan, Zorro, Billy the Kid. As meninas escondidas das mamães trocavam entre elas as revistas de fotonovelas italianas. Contigo, Sedução, Capricho. Até fã clube dos artistas principais das fotonovelas havia.

Outra forma de diversão era jogar ping-pong no salão anexo à igreja católica. Seu Genésio do bazar era o professor da garotada. No mesmo salão de onde num dia brilhariam muitas mentes e de onde surgiram alguns expoentes da sociedade iperoense. E como o mundo era para os jovens protestarem, nesse mesmo salão foi criado o movimento de jovens iperoenses, que com o incentivo do Padre Calixto, começou a inovar as missas domingueiras com canções populares adaptadas ao culto. Alguém arranjou uma guitarra. Outro alguém um baixo. De um bingo comprou-se uma bateria. E de repente uma dúzia e meia de jovens sedentos por coisas novas estavam tocando e cantando numa missa. E eles próprios realizando os sermões em locais extremamente conservadores, como nas vilas de George Oetterer, Bacaetava e Ipanema.

Como esquecer quando um dia alguém fez uma paródia da música de Roberto Carlos? Muitos chorando e outros rindo cantaram na primeira missa com guitarra. Assim dizia o jovem poeta na sua paródia:

Olha bem (Meu Jesus) – em segunda voz
Preste atenção (Nossa súplica) – em segunda Voz
Esta é nossa oração
Vamos com ela seja onde for
Para nunca esquecermos
Do seu amor (Por nós) – em segunda Voz
Oh! Senhor
Veja bem (Veja bem) – em segunda Voz
Foi você
A razão e o porquê,
De nascer esta oração assim,
Pois você é o amor
Que existe sim. (Existe sim) – em segunda voz
Você partiu,
Não nos deixou,
Sempre e mais
Aqui ficou (Aqui ficou) – em segunda Voz
Para alegrar
Os corações
E sempre vai estar
Nestas nossas
Orações! (Nestas nossas orações) – em segunda voz

Desse grupo de jovens iria nascer um movimento que perdurou por alguns anos desenvolvendo atividades culturais e sociais no município. O Grêmio Iperoense.

No Brasil, inauguração de Brasília. O presidente era Juscelino Kubistchek, sucedido por Jânio Quadros. Em 1964, Jango e a ditadura militar. A censura. Escuridão na intelectualidade. Para compensar, “Jovens tardes de domingo”, com Roberto Carlos e a Jovem Guarda. Uma vitrola no palco do cinema consumia as agulhas do braço da vitrola e quase furava os discos de tanto tocar. LP’s e compactos dos ídolos do Brasil e do mundo. Surgia o fenômeno da “Beatlemania”. Inesquecíveis os bailinhos das “happy hour” nos domingos. Naquele universo não campeava a maledicência. Os jovens dançavam pelo simples prazer de dançar.

A disputa por um lugar na vitrola era grande. Como escolher o melhor dentre tantos ídolos? Entre os internacionais ouvia-se Beatles, Rolling Stones, The Carpenters, The Mamas and The Papas, Bee Gees, Jackson Five, Credence, Supremes, The Platers, etc. Do Brasil, na chamada Jovem Guarda, além de Roberto e Erasmo, havia espaço para Ronnie Von, Ronnie Cord, Demetrius, Paulo Sérgio, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Antonio Marcos, Tony Campelo, Arturzinho, Bob de Carlo, José Ricardo, Ed Wilson, Wanderleia, Rosemary, Celly Campello, Martinha, Vanusa, Golden Boys, Os Vips, Fivers, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, Leno & Lilian, etc. Também estouravam os festivais de música popular na TV Record e uma áurea brilhante contrapunha-se à censura militar. Os jovens de Iperó vivenciaram e curtiram como nunca compositores e cantores maravilhosos que germinaram e floresceram nesse período, tais como Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina, Milton Nascimento, Toquinho, Raul Seixas, Rita Lee, Nara Leão, João Gilberto, Tom Jobim.

Além dos bailinhos, também a sociedade iperoense deleitava com grandes bailes. Bailes com requinte. Traje Social. Mesa reservada. Orquestras e bandas de primeira qualidade, como Os Três do Rio e Super Som TA. Ao menos uns seis grandes bailes por ano o Sorocabana organizava.

A juventude sentia a necessidade de protestar. Em Iperó até no futebol surgiu uma contracultura. Um jovem da família Jacques Eid resolveu criar um outro time de futebol para contrapor ao Sorocabana. A sala de reunião da paróquia viu nascer um novo time. Azul da cor da fita que os congregados usavam. Azul claro piscina. Um uniforme fora dos padrões para a época. Confeccionado em cetim. Um luxo. Puro protesto. Certamente estarão ausentes alguns nomes perdidos na memória, quando dos primórdios do time da Congregação Mariana, mas a maioria deve estar nesta relação: Major, Udovaldo, Adroaldo, Hélio, Carlinhos, Dirceu Paulino, Paulininho, Luiz Enxadão, Cidinho, Dito Scruph, Flávio Scruph, Zé Fogaça, Rubens Fogaça, Ademar, Gilo e Paulo Bim. Um timão.

O técnico do time, o Udovaldo, só arrumava jogos contra times de nível. Até no Paraná, em Londrina, o time foi se aventurar. Jogou contra Alumínio em campo com arquibancada e com vestiário subterrâneo. Perdia quase sempre por goleadas, mas o resultado dos jogos era o que menos importava. O Congregação foi o embrião para nascimento de um novo time que criou raízes e passou a fazer parte da história de Iperó. O SACI, que transformou o azul em vermelho.

Como nem tudo no mundo é um mar de rosas, também houve um lado obscuro no modismo. Uma praga alimentada pela indústria cinematográfica americana, que levava as pessoas a começar a fumar ainda muito jovens. Quem não fumasse era “démodé”. Milhões de brasileiros reduziram o seu tempo de vida devido aos efeitos maléficos e nefastos causados pela nicotina. Como a propaganda do cigarro era extremamente agressiva, o próprio governo fazia vistas grossas e incentivava o consumo, até porque o imposto do tabaco era o mais elevado do país. Sob esse aspecto a população era totalmente ignorante.

Mas é importante também que seja registrado o quanto se consumia de cigarros diariamente. Até 1964 não havia os cigarros com filtro. O que, diga-se passagem, de nada serviram para evitar todo tipo de câncer que o cigarro causa. Só serviram para tapear e incentivar mais ainda o consumo dos cigarros. A partir daí começaram a surgir marcas com o filtro de cortiça sintético. Dentre as marcas mais conhecidas disputavam os bolsos da rapaziada os maços de Continental, Mistura Fina, Fulgor, Pulmann, Hollywood, Marlboro, Minister, Carlton e Charme.

Os modelos das roupas usadas foram únicos na história fashion do mundo. As garotas vestiam as famosas minissaias, criadas pela estilista britânica Mary Quant. Variavam em forma de saias com blusa ou vestidos tubinho. Para combinar, sapatos de salto alto e meias de nylon. Os rapazes extrapolavam nas cores. Calças boca de sino coloridas e camisas floridas. Cinturão e sapatos com salto carrapeta. Uns e outros mais abastados conseguiam uma calça jeans Lee, velha e surrada. Era sucesso na certa em qualquer roda que se formasse.

Os cabelos longos dos meninos. Ser cabeludo era primordial. Cuidava-se dos cabelos do jeito que se podia, mas o que não podia era cortar os cabelos. As meninas apelavam para os bobs à noite antes de dormir, como forma de fixar melhor os cabelos. Junto com a minissaia, ressurgiu a criação da estilista Coco Chanel, de 1910, com os cabelos curtos, as pontas voltadas para dentro do rosto e a franja bem retinha no alto.

Na época de festas na igreja matriz, rolava uma brincadeira conhecida como correio elegante. Quem estivesse a fim de paquerar alguém comprava um cartãozinho, escrevia-se o que gostaria e pedia-se para a vendedora dos cartões fazer o trabalho do correio. Podia-se também oferecer música ao paquera, através do serviço de alto falante. Quase sempre no anonimato. Tipo assim: “Alguém muito especial oferece esta canção para a moça morena de saia azul e cabelos longos, que está encostada na barraca do bingo.”

Como forma de se poder aparecer para um futuro pretendente e também como passatempo, as jovens solteiras andavam em círculo pela praça, em duplas ou em trio, trocando entre elas impressões sobre os “pães”, que sorrateiramente se posicionavam de maneira estratégica, à espera de um olhar mais ousado e convidativo, para então partirem ao ‘ataque’.

Para os homens a pratica esportiva se resumia basicamente ao futebol. Para os mais idosos, atrás do cinema tinha uma cancha de bocha, onde se esforçavam em praticar o esporte, de maneira rudimentar, já que a cancha era construída com terra batida extraída de cupins. A cancha para se jogar era pesada e as bolas muito mais ainda. As bolas de bocha da época eram de, acreditem, madeira. Pesavam uns dois quilos e meio cada uma. A sociedade num todo era bem machista. Pouca atividade sobrava para as mulheres. As jovens postulantes a um casamento tratavam de preparar o enxoval, desde bem novas. A educação das filhas cabia quase que exclusivamente às mães.

Em Iperó não havia o curso ginasial. Terminado o primário, quem pretendesse estudar tinha que prestar um vestibulinho num dos ginásios das cidades de Boituva, Tatuí ou Sorocaba. Em Tatuí havia um curso de aprendizagem industrial. Curso médio só em Sorocaba ou Tatuí. Cursos que se resumiam no Curso de Formação de Professores Primários, mais direcionado ao público feminino, o Científico para quem pretendesse estudar ciências exatas e o Clássico, mais voltado para as ciências sociais e humanas. Concluir um desses cursos médios estudando nas escolas públicas era uma proeza. Primeiro pelas dificuldades naturais inerentes à locomoção de Iperó para alguma das cidades vizinhas, pois não havia ônibus. Só transporte ferroviário com horário dos trens nada adequado.

Quem estudasse no Barão de Suruí de Tatuí tinha que pegar um trem às 4h30. Voltava só às 15h. Para estudar no Júlio Prestes de Albuquerque – o Estadão –, em Sorocaba, havia a alternativa dos cursos noturnos. O trem saía de Iperó às 18h horas e o retorno era por volta da 1h. Tudo isso quando os trens não atrasavam, o que não era raro. Quanta gente, e por tantas vezes, não passou noites de frio e fome nas estações da Sorocabana, na busca desenfreada de querer adquirir cultura e conhecimento.

As dificuldades se estendiam ainda e os alunos se deparavam com a grande exigência que as escolas impunham por meio de professores catedráticos e rigorosíssimos, transformando numa aventura heroica a tarefa de se conseguir um diploma. Mesmo assim, dezenas de jovens conseguiram. Alguns permaneceram na terrinha, mas a maioria teve que se aventurar pelos “desertos do Sinai”. Com certeza todos bem sucedidos em idoneidade e caráter. Graças à formação que tiveram: família, escola, tenacidade e disciplina.