“Iperó, minha querida cidade”

Diversidade religiosa
Igreja matriz e Praça Padre Calixto. (Hugo Augusto Rodrigues)

por José Aparecido de Moraes – Tanaka

Quando eu aprendi há bons anos o que significava o toponímico “Iperó”, a sua tradução da língua indígena queria dizer “águas profundas e revoltas”. Bem, eu disse ‘queria dizer’, porque depois de ter tomado conhecimento de outras definições, percebo que o toponímio em apreço não é absolutamente pacífico, pois apresenta controvérsias e que, portanto, existem outras para a sua respectiva designação.

Mas seja qual for o significado que melhor designe o meu torrão natal, que melhor a defina, o que desejo é falar do meu berço primeiro, enfim da querida cidade e do meu agradecimento de ter aqui a minha naturalidade.

Parafraseando Gil, de quem copio o verso e o adapto, eu diria que “Iperó me deu régua e compasso e, dessa forma, o primeiro empurrão para que eu fosse gradualmente me qualificando na vida”. Portanto, sem esse início nada teria conseguido. Se ainda hoje não sou um ser humano melhor qualificado e, por isso mesmo, me penitencio, com certeza não o é por culpa dela, mas é devido a toda a minha limitação individual.

E, ao contrário do significado acima expresso, ou qualquer outro que seja, e aqui faço uso da imagem de linguagem da primeira tradução que me foi ensinada, penso que a minha cidade sempre navegou por águas rasas, remansosas, indolentes e próprias da natureza interiorana se comparada aos grandes centros populacionais.

Quem me dera, então, ela pudesse sempre continuar assim pela infinitude dos tempos, completamente livre de toda a agitação, incongruência, paradoxo, incoerência, maniqueísmo e desejo de se rotular às coisas. Enfim, livre de tudo que é dispensável em nossa contemporaneidade, quando se coisifica, quando se desumaniza a vida, como ocorre nos grandes centros e, sem se deixar levar pelo arremedo de modernidade.

Ela caminha pelas próprias pernas, pois há muito se emancipou e há tempos alcançou a maioridade. Assim, pois, ela soube conquistar a sua independência territorial e a sua administração própria, demonstrando dessa maneira o que quer. E esse querer é seguir em frente projetando e idealizando tanto o presente quanto o futuro, o próximo e o longínquo, para si e aos seus cidadãos. É querer dar sempre o melhor de si à sua comunidade.

E se mais pudesse citar a seu respeito, do seu modo de ser, eu diria que ela não é pequena e, claro, mui tampouco média ou grande, mas, mais que tudo isso que diz respeito a aumentativo, superlativo, diminutivo, ela é do jeito que tem que ser, e é assim que ela deve continuar a ser. Ela é única por isso. A sua característica é essa como ela é naturalmente aos nossos olhos, aos nossos sentidos, como a gente gosta e quer que ela seja. Por isso mesmo, ela não precisa ser rotulada.

No início, no ontem, ela rodou sobre trilhos e rodas de aço. Sua máquina de ferro e a vapor, movida à queima da lenha, soltava fumaça e brasa. Tomasse-se cuidado para que esta não o alcançasse ou a roupa, senão queimava. Só depois chegou a modernidade, a máquina à eletricidade.

Outrora as suas ruas e calçadas de terra batida foram pisadas por pés descalços e solas de borracha. Também trafegadas por carroças e carretas à tração animal com ferraduras do ferreiro artesão. E por rodas de madeira revestidas de ferro para aguentar o rolar e o peso que carregava, senão rachava ou quebrava.

Na seca, muita poeira levantava. Na chuva, então, muita lama se formava. Mesmo no tempo normal não tinha jeito: muitos buracos aqui e ali pipocavam sem igual.

A arquitetura da sua habitação do mesmo formato e cor padronizava a sua construção. Suas paredes de tijolos e cobertura de telhas de barro sustentada por estrutura de madeira e forro era o modelo do melhor conforto. Portas e janelas sob medida, além do fogão a lenha e água encanada, isso sim era comodidade e propriedade. Sua economia assim se pautava e o progresso da época a esta maneira aqui estava.

Ela já teve o seu nome de santo e hoje faz um tributo aos primeiros povos nativos indígenas que nesta pátria continente aportaram, sabe-se como, apropriando-se deles o nome brasileiríssimo, nacionalíssimo.

Entretanto, como tudo no mundo muda e esse é o incontrolável ciclo, a quadra da história, da vida, ela também mudou. Hoje ela transita sobre ruas de asfalto e rodas de borracha. Não mais com os pés descalços, mas com os melhores calçados.

E a sua diversidade cada vez mais se acentua. Sua aparência e pujança é outra. Nota-se que ela quer e busca se atualizar e dinamizar. Ela não é mais tão rural e cabocla como antes. Ela se veste diferente e estampa a moldura da sua época.