“José Marques Penteado – Bisteca”

Bisteca
José Marques Penteado, iperoense que dá nome à avenida principal da cidade.

Augusto Daniel Pavon

Tenho estado na cidade toda última quinta feira de cada mês. Vou com minha mãe. Fico com ela o dia todo. Fico parado em qualquer lugar, observando, pensando, aguardando minha mãe que resolve seus problemas de “negócios”. A cidade segue seu destino. Gira ela hoje em torno do velho e querido “Bisteca”. Como o Silvano, virou rua. Mais privilegiado, virou a principal rua da cidade. “The old man”, nosso Bisteca, antes de se tornar um doutor, era uma marca registrada, uma cabeça pequena (no tamanho), um corpo grande, um cabelo com a conhecida “onda” na frente, que quando seco, ficava “escorrido”, caído numa franja cobrindo um olho, a calça bem atual, porque nos anos 60 já mostrava o rego.

Nossas tardes eram quase sempre, na época desse folguedo, é claro, passadas no Pernoite em longos “campeonatos” de botão, futebol de botão, em longas disputas onde os campeões eram o Silvano, o João Mena e, vez ou outra, algum outro. Dona Maria nessa época morava bem em frente à rua que sobe da estação. Vizinha do correio, da Chislaine e do seu Tristão (“Que buniteza”, expressão comum do seu Tristão). Ela tinha um bar. Mãe do nosso “grande” Bisteca. Ele, o Bisteca, neto do seu Abílio, aquele do cinema, que levou a “Marquesa”, cachorra conhecidíssima na cidade e que não gostou do filme e fez cocô no cine.

Naquela época, vindo do cinema para baixo, na rua, do lado direito, tínhamos seu Orlando, já falei sobre ele, um médico na nossa cidade e que como homenagem sempre quis seu nome num hospital da cidade. Ele deu nome ao pronto atendimento, mas depois, não se sabe por que, foi tirado. Vizinho dele estava o Felício, velho Felício, também descendente de árabes (não de seu Abílio, mas sim de dona Sada, mãe do Bibe, Calil e tantos outros). Felício, muitas vezes dócil, bondoso, mas quando bravo era de dar medo tal sua força. Era dono de um bar. Após vinha o correio. Havia uma bandeira do Brasil em frente, subíamos uma escada entrávamos no correio.

Lembro-me de um ambiente limpo, agradável, móveis escuros, envernizados, com a sala separada por uma parede de madeira e uma janelinha onde víamos dona Ceinha, uma mulher educada e bonita, que nos entregava uma correspondência ou enviava a nossa. Uma senhora elegante e importante na cidade na sua função, além do que estava inserida numa família muito respeitada na cidade. Em seguida vinha o bar de dona Maria e seu filho, o “Bisteca”. Após, vinha seu Tristão e dona Zezé, no famoso bar “do Tristão”, que sempre me pareceu de bem com a vida. Em frente ao correio, do outro lado da rua, havia o lugar onde mais brincamos em nosso tempo de criança em Iperó, principalmente à noite: o posto de Saúde. Voltado para a velha Porfírio, no teto do posto de Saúde havia um “eixo”, que viu e registrou a infância de muitas gerações e os namoros e os beijos, alguns amassos e não passava disso. Lugar sagrado. Bem, eram vespinhas inofensivas.

À época, o Hélio, filho mais novo de seu Tristão, irmão do Teco (figura como tantas, queridas da velha terra e falecido há não muito tempo em um acidente), nesse tempo ainda gaguejava. E foi picado por uma saúva na bunda. Ficou famoso seu grito; “Eco, Eco, a aúva modeu o meu u”. Isso era algo que toda Iperó nos seus 5 mil habitantes sabia e repetia, mesmo deixando o Hélio muito furioso. Bem, deixemos o Hélio e passemos ao vizinho, o famoso Bibe, não sem antes lembrar que foi no bar de seu Tristão que o Tarzan, figura famosa da cidade, matou com um tiro de 22 um amigo nosso, frequentador dos famosos bailinhos com sonatas e “Chá-Chá-Chá” que fazíamos no cine e nas casas, principalmente na do Ayrton, irmão do Tiguera.

O Bibe, o velho Bibe, do melhor sorvete que até hoje experimentei. Tinha um toque de mágica. E o Sebastião, Sebastião Senna Filho, que era um dos nossos amigos, gente boa, filho de gente boa, seu Sebastião Senna, turmeiro da Sorocabana, honestíssimo, fala baixa, extremamente bondoso, pessoa importante junto de outros turmeiros como seu Pedro Queiroz, Olímpio Passarinho e diversos mais, trabalhou anos com o Bibe e confirmou a maneira artesanal de fazer o sorvete e que isso “num toque de mágica” o transformava no que havia de melhor. Vez ou outra minha avó mandava que fôssemos buscar um canecão enorme, cheio de sorvete, que para nós à época parecia um sonho.

Bem, agora chega, porque o Bisteca estava saindo da casa dele e vinha em direção ao Pernoite, onde se desenvolvia uma importante etapa do futebol de botão. Corre-corre, botões eram pegos num passe de mágica, cada um guardava os seus, o campeonato estava encerrado no dia, porque o dr. José Marques Penteado, nosso querido Bisteca, ótimo jogador de futebol – centro avante são paulino -, edil da municipalidade, vinha com seu cabelo caído na cara e calça caída com o rego à mostra, afanar mais um botão para montar o seu time. Pra quem queria um botão, ele ganhou uma rua, a principal. Um beijo no seu coração e que Deus o tenha.