“Minha infância querida”

Infância querida
Brincadeira de "pular sela". (Imagem da internet - Guia Infantil)

Tabajara Garcia Moraes

Lendo as histórias de nossa terra, tão bem escritas, não resisti ao ímpeto de registrar algumas impressões de minha infância querida, passada nesse rincão, até os meus 8 anos. E essa idade me faz lembrar o grande Casimiro de Abreu: “Oh, que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”. Filho de maquinista, nasci e morei na Vila do Depósito e, na ótica de criança, esse lugar era muito distante do palco de quase todas as ações relatadas.

Nossos vizinhos eram Abílio Antunes (que explorava uma quitanda em sua residência), pai do Osmir que era o líder da rua, Benedicto Peixoto (pai do Odacir), Sebastião Sena (pai do Tão), Manuel Azeredo (pai do Manuelzinho e do Lúcio), Elias Cunha (pai do Marcos) e outros que me escapam os nomes. Entretanto, quero registrar a amizade de minha família com um casal que morava, como se diz, parede e meia conosco. Ele era Gélson e sua esposa era chamada de Dijinha (não me lembro do nome). Dona Dijinha tinha uma câmera Kodak (um luxo na época) e sempre chamava os meninos para fazerem “pose” para uma foto. Lá íamos animados, arrumando o cabelo, ajeitando a camisa para dentro das calças e então: Clic! A pose era desfeita, a criançada perguntando quando a foto seria revelada e ela se desmanchando de rir ao dizer que a máquina não tinha filme. A criançada era só resmungo. Algum tempo depois, já moradores de Itapetininga, soubemos de sua morte precoce, o que muito nos entristeceu.

Nossas brincadeiras na rua eram “boca de forno”, “pular sela”, “mocinho e bandido” que chamávamos de farveste, “jogo de taco”, “bafo” que consistia em virar, com um tapa, figurinhas que eram postadas no chão com a figura para baixo. Também íamos ao “nadador”, uma pequena represa no meio do eucaliptal, buscar taquara do reino da qual cortávamos canudos onde eram introduzidos outros canudinhos de papel, em forma de cone, para soprar nesses enxames que as vespas fazem nas paredes das casas.

Em 1955 entrei no primeiro ano, já no Gaspar. A professora era dona Lourdes Caetano da Silva (dessa ninguém se lembrou), muito querida. Pelo relato do Tanaka e do Augusto Daniel, há grande chance de termos estudado na mesma turma. Como já disse o Tanaka, a classe era dividida entre os mais e os menos “adiantados”. A sala tinha três fileiras de carteira denominadas seções: seção “A” (os alunos mais atrasados), seção “B” (os intermediários) e seção “C” (os mais adiantados). De se notar, ainda, que havia ascensão e rebaixamento nas seções, sempre cobrados pelos pais. Lembro-me que na hora do recreio muitas mães (a minha inclusive), acostumadas a levar almoço para os maridos na ferrovia, levavam almoço também para os filhos.

O colégio era cercado com arame farpado e as mães do lado de fora conversando entre si, enquanto os filhos almoçavam rapidamente. No segundo ano tivemos a professora Elvira Tomazella (essa já foi citada), da qual não guardo boa lembrança. Era muito exigente e, como a época permitia, castigava fisicamente. Na classe tínhamos como colega o Jarbas, filho do sr. Bertolli, garoto muito inteligente e desinibido, queridinho da professora. Ao término daquele ano de 56, meu pai foi transferido para Itapetininga e, então, pouco voltamos para Iperó. Agora, com tantas lembranças revividas, surgiu um desejo de visitar a terra para conferir os avanços que ela vem experimentando, conforme relato dos “escribas” que a frequentam atualmente. Quem sabe uma hora dessas?

 

José Aparecido de Moraes – Tanaka

Maravilhosa a sua narrativa, Tabajara. Só de uma coisa eu discordo de você. Ao contrário de você, a professora Elvira Tomazella era a minha queridinha. Era de quem eu não tinha medo. Você sabe, naquele tempo os/as professores/as nos inculcavam algum temor, não é mesmo? Não sei se seria por que ela flertava com o Said e por isso ela me tratasse até com carinho, mas de qualquer maneira era com quem eu tinha mais acesso, vamos dizer assim. Mesmo com minha mãe ela fez amizade. Me lembro também dela ser uma fervorosa católica.

 

Augusto Daniel Pavon

Muito bom, muito bom o Tabajara. Certamente não me lembro de você e vice-versa. Também não é o mais importante. Importante é que certamente convivemos, certamente dividimos as mesmas situações, conhecemos as mesmas pessoas, incluindo o conhecimento das pessoas da “Vila do Depósito”, que mesmo não morando daquele lado, sei das casas de cada um. Fico feliz porque você entrou no clima e peço que relate suas histórias, que podem ser parecidas com as nossas, mas elas serão suas, com o seu toque. E sempre estará falando da nossa terra. Descreva os detalhes que sua memória permitir: a vila, a rua, as crianças, o córrego. Enfim, você chegou. FIQUE!!!! Um abraço.

A Dona Elvira não deu aula, no tempo em que vocês falam, pra mim. Eu me lembro que fiquei muito triste porque fui para a classe da professora Lilia, que deixava muito a desejar. Aliás, me fez muito mal pelas agressões. Pegava em nossos cabelos (meus e de outros) e os puxava, arrancando-os. Do ponto de vista de aprendizado, regredi muito. Dona Elvira eu conheci como professora particular, em minha casa, e gostava muito dela. A verdade é que nosso amigo é muito bem-vindo no time, fez até o Tanaka se manifestar novamente. Insisto, não pare.