“Minha primeira cueca”

Minha primeira cueca
Saco feito de linho. (Imagem da internet)

Augusto Daniel Pavon

1956 ou 1957, quando eu tinha 8 ou 9 anos, época em que para crianças, suspensório era moda e, calças curtas (abaixo dos joelhos) também eram as crianças que usavam (cuecas, calças compridas e cintos eram a nossa entrada na adolescência, junto aos pelos buço e pubianos). Lembro-me que morávamos na rua Silvano, em frente à casa do velho Danezi e que noutras épocas teve como moradora a professora Therezinha Galvão. Meus avós, meus pais, meu tio Lazinho, eu, meu gato e um enorme cachorro, chamado Leão, “policial” do meu tio.

Lembro-me que o Leão estava muito doente, “lambiuvu”, essa era a doença. Uma parvovirose hoje evitável através de vacinas, mortal naquela época. Só havia duas saídas; uma era o benzimento. Fazia-se o benzimento, dobrava-se num papel amarrado com fio e, dentro de um pedaço de carne oferecia-o ao cão. Nada! O nosso sofrimento era grande, do meu tio e meu principalmente. O Leão muito “estufado”, parado, olhos “vidrados”, aguardando a morte.

Restava então, e meu avô o fez, chamar o eclético Pixe (ferroviário, delegado de polícia, mecânico, juiz de futebol, motorista, veterinário, etc…). Seu Pixe era uma pessoa falante, altiva, muito segura de si. Chegou como a esperança de todos, e assim se comportava. Dava uma explicação sobre a doença que talvez à época, deixasse boquiaberto qualquer veterinário, mais difícil que médico, então. Após, detalhava a terapêutica e elencava seus sucessos. Punha-se o animal em pé, segurava-se a boca evitando dentadas e ele, o Pixe, colocava, próximo ao pescoço, de cada lado da coluna um polegar, e vinha “espremendo” até o fim da coluna, início do rabo (cauda). Saia um líquido, não pareciam fezes, e era considerado critério de cura, pelo nosso erudito veterinário.

Não havia orifício para sair, a não ser o ânus. Com certeza foi por ali que saiu e foi de dor. O Leão morreu de “lambiuvu” e talvez um pouco de Pixe, sei lá!

Exatamente nessa ocasião, de um “saco de linho”, minha vó fez a minha primeira cueca. Deve ser como o primeiro sutiã das “gurias”. Era uma cueca branca como o saco que a originou, grande, com elástico prendendo-a na cintura. Era um dos passaportes para a adolescência. Faltavam a calça comprida, o cinto, fiozinhos de bigode e os pelos pubianos (esses dois últimos as galinhas pretas, do galinheiro de meu avô, resolveriam).

Bem, quando as aulas do dia acabaram, a molecada saindo do Gaspar, tirei a calça curta e desci de cueca até minha casa. Tinha que ser assim, não podia ser diferente, ou podia? A adolescência ainda demorou um pouco, pois eu só tinha 8 anos, mas as coisas começaram a mudar, nunca mais fui mesmo e confesso que tão importante quanto o primeiro amor, a primeira mão que seguramos, o primeiro beijo, foi a primeira cueca, e de saco de linho.