“Nossa vida e o percurso de um trem”

Percurso de trem
Trem de passageiros. (Ilustração da internet)

por Augusto Daniel Pavon

Há um e-mail, dos mais significativos, comparando a nossa vida ao percurso de um trem que, por exemplo, partiria de Epitácio com destino à estação de Júlio Prestes. Em nossa vida, digo em nosso trem, durante esse longo caminho, coisas aconteceriam e nos marcariam.

Pessoas estariam conosco desde a partida, amadas, conosco em cada curva, onde encontraríamos dificuldades, em cada reta onde a calma fosse maior, em cada estação, conosco dia e noite, fazendo com que o nosso amor fosse a cada dia se tornando maior e, de repente, para o nosso desespero, tristeza, saudade, sem que acreditássemos, deixariam o trem, subitamente, desembarcando e deixando um vazio imenso.

Há pessoas que entram em uma estação, no meio do percurso, ficam menos tempo, mas nos marcam profundamente, deixando um imenso aprendizado. Outras entram e saem sem que, sequer, as vejamos. Enfim, existem passageiros de todos os tipos enquanto realizamos a nossa viagem, como trem que somos, até a nossa morte, digo, a estação de Júlio Prestes.

Meu trem, pra minha felicidade, fez uma parada muito grande em Iperó, talvez por falta de eletricidade, falha mecânica, maquinista tomou um “fogo” e ficou no pernoite mais tempo. Não sei. Durou mais ou menos 25 anos. Esse tempo, pouco, foi o suficiente para que passageiros embarcassem e marcassem de uma forma definitiva e positiva a minha vida, de forma que 60 anos depois eu ainda me lembre de detalhes e, com alegria, dos mesmos.

Essa convivência foi extremamente saudável para a formação da minha personalidade, pra que eu pudesse entender, embora aprecie a sofisticação, que a essência de tudo reside na simplicidade, no café com leite, no bolo de fubá da tarde, no bolinho de chuva da dona Ruth, no pão com manteiga, no pastel de minha vó, no charuto de dona Nenê, nos quibes da dona Quita, no arroz doce de tia Zenaide, na cinza do fogão da dona Quita (que minha mãe passava nas frieiras que eu conseguia jogando bola descalço no campo de futebol), no pão com mortadela e na garrafa de taubaína tomada no gargalo ali, da “venda do meu pai”, e ouras tantas.

Só tenho a agradecer por essa parada. Foi a lição maior, foi a lição definitiva. Às vezes penso até que pode ter sido Deus quem segurou o trem. Será que ele tá com essa “bola” toda???