O monge de Ipanema

"Gruta do monge" ou "pedra santa". (Blog Miaira)

Giovanni Maria de Agostini nasceu em Piemonte, na Itália, em 1801. Aspirou à vida sacerdotal durante a juventude, mas não chegou a ser ordenado. Ainda assim, assumiu votos de castidade e pobreza, tornando-se um eremita. De barco, a cavalo ou a pé, Agostini percorreu a Europa e a América improvisando moradia em grutas ou cavernas. Com a missão de salvar almas através da pregação do Evangelho, manteve sempre vivo um desejo: “Quero servir a Deus nos mais terríveis desertos do mundo até o dia de minha morte.”

Após longas viagens pela Itália, Espanha e França, partiu para a América do Sul em 1838 e chegou à Venezuela. Posteriormente, percorreu a Colômbia, Equador, Bolívia e Peru, até atingir a cidade amazonense de Tabatinga. Atravessou o rio Amazonas numa canoa até Belém, no Pará. Seguiu para o Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro, onde se encontrou com Dom Pedro II e morou durante três meses numa gruta na Pedra da Gávea.

Vestia hábito religioso, calçava sandálias rústicas, carregava uma Bíblia, medalhas de Nossa Senhora e um cajado. Os sermões dele utilizavam linguagem forte, gestos, falas sobre o fim do mundo, as penas do inferno e a condenação ao luxo e à avareza, mas também abordavam as possibilidades para a salvação da alma.

Agostini fabricava rosários e crucifixos de madeira, que depois eram trocados por alimentos ou dinheiro para prosseguir a peregrinação. Sabia combinar ervas, raízes, folhas e água de fontes para uso medicinal. Receitava chás e preparava remédios. A formação cultural o destacava, pois ele possuía grande conhecimento sobre o Evangelho, Teologia e falava latim e francês.

Saiu do Rio de Janeiro e chegou a Sorocaba no fim de 1844. Foi para a região do morro Araçoiaba, atual município de Iperó, onde teria chegado em 28 de dezembro de 1844 e exerceu o ministério durante aproximadamente um ano. Viveu numa cavidade formada pela erosão no arenito, uma espécie de gruta. Da “pedra santa” ou “gruta do monge”, como ficou conhecida a área, corre uma água límpida considerada milagrosa. Na região, o eremita ficou conhecido por “monge de Ipanema”, mas raramente descia à vila. Quando descia, era cercado pelo respeito dos moradores e pela zombaria de muitos operários de origem protestante.

O eremita se dedicava a penitências, meditações e orações. Ganhou fama de santo e muitas pessoas o procuravam em busca de cura. Em torno dele há diversas lendas e mistérios até hoje. Dois livros lançados no primeiro semestre de 2014, frutos de importantes pesquisas, resgatam toda a trajetória do monge:

– “Giovanni Maria de Agostini, Wonder of the Century – The Astonishing World Traveler Who Was A Hermit” (Giovanni Maria de Agostini, maravilha do século – O surpreendente viajante do mundo que era um eremita”). Escrito pelo historiador David G. Thomas e editado em Las Cruces/Novo México (Estados Unidos)

– “O Eremita das Américas: a odisseia de um peregrino italiano no século XIX”. Escrito pelo professor e pesquisador Alexandre Karsburg a partir de sua tese de doutorado e editado em Santa Maria/Rio Grande do Sul (Brasil)

Saindo da região do morro Araçoiaba, Agostini foi para o sul do Brasil, Paraguai, Argentina, Chile (atravessou o deserto do Atacama e os Andes a pé), Bolívia, Peru e seguiu para a América do Norte. Passou pelo Panamá, Guatemala, México, Cuba e Estados Unidos. De Nova Iorque foi a Montreal, no Canadá. Retornou ao oeste americano, inicialmente atravessando o rio Mississipi numa canoa. Seguiu pelo Missouri, Texas e chegou ao Novo México em meio à Guerra Civil Americana, onde fixou moradia na área chamada de “La Cueva”, em Las Cruces. Apesar de bastante respeitado em todos os lugares que percorreu, o “monge de Ipanema” acabou assassinado em Mesilla, região de Las Cruces, em abril de 1869. Diversas investigações foram feitas, mas o autor do crime nunca foi encontrado. A morte do eremita faz parte de uma lista de crimes nunca solucionados naquela área dos Estados Unidos.

Em Iperó, muitas pessoas visitam a “gruta do monge” ou “pedra santa” anualmente como forma de homenagear a memória de Agostini. Em 20 março de 2015, durante as comemorações dos 50 anos de emancipação político-administrativa do município, foi apresentado à população o busto do monge que ficará exposto na sede da Floresta Nacional de Ipanema, reforçando a importância da passagem do eremita por aquela área em meados do século XIX.