“O morro… o jacaré!”

O morro
Vista a partir de Boituva, com Iperó e o morro Araçoiaba ao fundo. (José Roberto Moraga Ramos)

Augusto Daniel Pavon

Li um artigo muito bonito, no Cruzeiro do Sul, e o autor dizia sobre o café da tarde na Granja Olga, em Sorocaba. Pôr do sol sempre me pareceu melancólico. Lindo demais, mas melancólico. Talvez por lembrar o fim. Oposto é a aurora, pois nos mostra a força, a agitação de quem nasce, a vida que se renova, enfim… Ele descrevia a beleza das cores refletidas pelas nuvens, cores oriundas do sol que se recolhia por trás do “jacaré”, fazendo destacar a silhueta deste, o “jacaré”. Como eu, domingo sim, domingo não, voltando de Brigadeiro (onde ficava horas com meu tio), passava e parava na Granja Olga para um café, logo entendi o “jacaré”: o nosso “morro de Ipanema”. Estou há mais de trinta anos em Jundiaí e o grande orgulho da cidade é a serra do Japi. É linda demais. Me lembrei que cidades do interior do Estado procuram eleger o seu símbolo, aquilo na cidade que será o seu cartão postal.

Li também recentemente que em Bauru houve um certo tumulto quando dessa eleição e por ser vencedora quem foi. Um dos maiores bordéis do Brasil (zona de meretrício), se não o maior, era a “casa da Enyr”, local frequentado por políticos como governadores e presidentes. A casa, um “castelinho”, provavelmente do final dos anos 40, início dos 50, é uma construção muito bonita. Dizia-se dos homens que se fossem a uma cidade e não visitassem a “zona”, que não conheceram a cidade. E que uma cidade se conhecia pela mesma. Então vocês podem imaginar o que era Bauru, já então famosa pelo lanche que lá se originou. A grande disputa foi entre duas relíquias. De um lado a estação ferroviária, desativada, linda, também rica em recordações, e de outro uma relíquia, talvez nem tanto para as senhoras, a casa da “Enyr”, com suas muitas histórias, transformadas em livro. Venceu a Enyr.

Em Jundiaí venceu a serra, serra do Japi. Pensei que nós passamos nossa “mocidade” com pessoas e coisas lindas no físico e principalmente no espírito, e não as notamos. Quando vamos envelhecendo, quando os interesses vão mudando, e temos sensibilidade (porque envelhecer não é passaporte à sabedoria ou a uma sensibilidade maior), as coisas lindas que sempre estiveram ao nosso lado vão aflorando e passamos a admirá-las muito, a apreciar detalhes que sempre lá estiveram. Quando são pessoas, fica a lembrança, pois quase sempre já partiram. Mas o “jacaré” não! Ele está lá. Hoje eu o vejo mais lindo do que nunca. Sempre lá esteve, mas a ebulição da juventude o ofuscava. Quando vou a Iperó, vindo de Boituva, o “jacaré”, imponente, salta aos meus olhos e emoldura a nossa cidade. Enche-me os olhos. Quando deixo a cidade pela Benedito Paula Leite Júnior, já na primeira descida, mais uma vez ele se mostra, agora mais próximo, com suas várias tonalidades de verde, com toda a beleza da região onde Iperó se insere.

Então eu pensei: não seria o “jacaré”, o morro de Ipanema, ou morro Araçoiaba, ou “morro de Iperó”, pois se encontra no nosso município, um sério candidato a representar a cidade? Talvez tivesse que disputar com o rio Sorocaba, com o “pernoite”, com a “estação”, com o “campo de futebol” (infelizmente não mais com o cinema), mas certamente uma bela disputa. Prestem mais atenção ao morro e imaginem nossa cidade sem o mesmo. Ele é a serra do Japi de nossa cidade, não da vizinhança! E viva o “nosso JACARÉ!!!