“O tempo”

O tempo
(Imagem da internet)

Augusto Daniel Pavon

Diferente do que vivemos dizendo (“o tempo passa muito rápido, a semana voa, já está chegando o natal e nem tiramos a mesa da ceia”), nós é que não temos mais tempo “pra ver o tempo passar ou pra ver a banda passar”. A nossa agenda exclui a passagem do tempo, mas só ela, porque ele, o tempo, flui normalmente. Uma vez fui a Iperó bem cedo pra resolver um problema no cartório, com mil problemas a resolver a mais ou menos 90 km dali. Lembro-me que cheguei bem cedo, estava aberto, na esquina da antiga Duque de Caxias, onde era a casa da professora Clarisse Zaguetti (ótima professora, em um tempo onde eles, os professores, já não ganhavam bem, mas eram diferenciados e tratados com muito respeito; aliás, ainda não vi homenagem alguma a ela).

Foi minha professora no antigo segundo ano do primário, 55/56 do século XX , e contava uma passagem do início de sua carreira, quando lecionava bem afastada de qualquer centro e foi convidada a almoçar na casa de um aluno. Quando foi à mesa, o arroz feito naquele instante estava servido em um penico-urinol (para quem não sabe, época houve em que as privadas eram as conhecidas “fossas negras” – um buraco fundo, no quintal, distante dos poços de água e um assento feito com tijolos, o local onde sentávamos feito de madeira, com um buraco no meio, à parede um gancho onde ficavam recortes de jornal, papel, pois não havia papel higiênico. Era a casinha! À noite era difícil, tinha que se caminhar fora da casa, no escuro, ir ao fundo do quintal para as necessidades fisiológicas. A solução era o penico, que na manhã seguinte era lavado).

Bem, esclarecido o penico, voltemos à dona Clarisse, que mesmo tendo absoluta certeza de ser um substituto da panela, e só isso, ficou estupefata ao ver a cena e, mesmo sendo uma professora exigente, fez a “molecada” rir muito. Hoje ainda me lembro dessa história.

Então, ali próximo à antiga casa do professor Paulo Zovaro e próximo ao terreno onde era a casa da professora Laura, do edil José Alves, da sra. Fiica, era o correio. Entrei, andei impaciente de um lado para outro, resmungando, olhando incessantemente ao relógio, já proferindo algumas palavras impróprias, quando vi uma pessoa conhecida, amiga, saindo calmamente de outra casa, onde havia ido tomar o café da manhã, entrando no correio, cumprimentando-me alegremente, com tempo para perguntar de todos em casa e falar sobre todos na casa dela. Só depois fomos à questão que me levara até a santa terrinha. O tempo era rápido demais para mim, para o meu modo de vida. Nós, na Iperó de minha infância, “curtíamos” o tempo.

Um a dois meses antes começávamos a viver o carnaval, era lançado um livrinho com a letra de todas as músicas, marchinhas até hoje tocadas e cantadas, que ouvíamos diariamente nos programas de rádio, até “decorarmos todas”. As mesas já iam sendo vendidas no Sorocabana, o velho clube. As fantasias já iam sendo providenciadas, eu pessoalmente, desde que comecei ir às matinês, sempre fui com uma camisa listrada e um frasco de “lança-perfume” da Rhodia, o bom. O clube já começava a coletar ofertas junto ao comércio, de enfeites que deixariam o Sorocabana melhor que o Copacabana Palace, pelos menos pra mim e acredito que pra todos. A banda se transformava em orquestra e deixava os dobrados por marchas lindas que eu as sabia todas.

Esse mês ou dois antes dos quatro dias de carnaval eram vividos tão intensamente, que quando chegava não era tão bom, porque acabava rápido. Nós nos permitíamos a esse passar lento do tempo, a “curti-lo”, mastigar bem. Hoje, se tivéssemos de ir à “casinha”, com tantos afazeres, talvez aproveitássemos uma moita no início do caminho, para não perder tempo. Tudo se passa num só tempo, numa só velocidade, que não achamos tempo para saborear, prosear e fundimos as preparações com as comemorações e ainda temos que achar um tempo para outra atividade qualquer. Hoje as coisas são tão velozes que o próximo Natal, ano novo, carnaval, Páscoa, aniversário, são logo ali. “Não leva um ano”. Falta saborear!