“O trem de antigamente: um tributo”

Locomotiva da Estrada de Ferro Sorocabana. (Imagem da internet - Pinterest)

por José Aparecido de Moraes – Tanaka

Gostaria de demonstrar toda a minha consideração e celebrar com bastante sentimento, e por que não dizer, também com não poucas saudades, àquele outrora conjunto de carros e/ou vagões devidamente engatados e movidos pelas inesquecíveis “marias-fumaças” ou pelas locomotivas elétricas e que chamamos trem. Assim, como que para prestar-lhe a devida e singela gratidão, já que para mim, e penso que para todos nós dos idos tempos, ele muito significou. E igualmente acredito que para sempre significará. Esse meio de transporte que foi o acesso para a nossa locomoção e até nos fez com o seu sacolejar por muitas vezes cochilar gostosamente durante aquelas viagens que realizávamos como se estivéssemos a ouvir o tocar de uma canção de ninar.

É, e eu digo isso pela razão que, no nosso caso de estudantes, como tínhamos que levantar muito cedo, mas muito cedo mesmo para pegá-lo, não tinha, assim, como conter aquela vontade que dava de vez em quando de tirarmos uma pequena soneca que fosse, já na nossa ida ou então na nossa volta da escola, durante o trajeto. O seu som característico do contato entre suas rodas e os trilhos e o molejo do seu chassi e que nos induzia ao sono, como assinalei, por certo está gravado na mente de todos aqueles que o recordam e o tem em alta estima, em alta conta, em alto apreço.

Mas, naturalmente, como no título, eu falo notadamente da minha geração, ou seja, de algumas décadas atrás. Ufa! E lá já são passados alguns bons tempos, mesmo por que hoje, para os jovens, esse trem não mais existe, pelo menos em nossa região.

Sem dúvida à época o trem exercia como que uma certa magia em nosso ser e nem precisávamos nele embarcar, pois bastava apenas vê-lo chegando em nossa cidade para mais uma de suas paradas em sua longa viagem, para sermos empurrados descida abaixo em nosso famoso “escadão” para vê-lo passar e admirá-lo. E era essa a motivação para “passearmos” na estação, para paquerarmos as passageiras, e diga-se, até com certo orgulho, naquela imponente estação que tínhamos outrora. Nele e com ele estava contido tudo aquilo que tínhamos em mente realizar, fosse o que fosse essa realização, ou seja, para nós então jovens o era para estudar, para outros tão somente poder deslocar-se pelas mais diversas razões, ou mesmo para viajarmos para um passeio ou uma viagem por mais distante. Qualquer que fosse a intenção, ele embalou os nossos sonhos.

E como era naturalmente imponente o nosso cavalo de aço exibindo aquela robustez sem igual. Para tudo precisávamos dele. Ele que transportou a todos nós. Velhos, moços, crianças, brancos, negros, sem perguntar o origem, fosse qual fosse. Também trouxe o emprego e, por conseguinte, o salário e, assim, o sustento da família, como também movimentou, à sua volta, o comércio local. Assim se desenvolveu todo o nosso micro universo de então. E deve-se a ele esse impulso para a expansão da nossa pequenina cidade, já que era um dos agentes principais, dentre outros naturalmente, que compunham a ferrovia, e também fez as vezes de ambulância, quando não de funerária.

O seu apito característico, a fumaça expelida e o ecoar do barulho de suas rodas nos trilhos e mesmo refletido no interior de seus carros e vagões até hoje ressoam em nossa mente. E para exaltarmos, ainda com mais brilho, nada melhor que terminar com um tributo que duas mentes privilegiadas tão bem o caracterizaram e o descreveram. Penso que esses dois gênios patrícios, um pela música, outro pela letra, conseguiram sintetizar, notadamente na escrita, com tão poucas palavras, tudo aquilo que gostaríamos de dizer da magia e sonhos do trem.

O Trenzinho do Caipira
Heitor Villa Lobos e Ferreira Gullar

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra…
Vai pela serra…
Vai pelo mar…

Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…