“O trem”

O trem
Estação de Iperó em 1959. (Arquivo Alberto del Bianco)

por José Aparecido de Moraes – Tanaka

É, iperoense que é iperoense dos tempos idos, sabe que tem o trem como o formador preponderante e realçador do seu ser. Se não fosse ele que nos levava e nos trazia a qualquer tempo, incólumes às intempéries da natureza para a mais valia da nossa formação, será que teríamos alcançados, ou mesmo subido os degraus e chegado onde hoje estamos?

Decerto ele foi um dos meios, um dos veículos proporcionadores e impulsionadores para que realizássemos os nossos sonhos materiais. Sem ele, que nos dava comodidade, será que teríamos alcançado os nossos objetivos ou teríamos ficado a meio do caminho, por não termos o amparo, o suporte material em nossa jornada cotidiana?

Sem dúvida ele também contribuiu para a formação da nossa socialização. Assim, devido a ele pudemos conviver com outras pessoas, com outros pares que não os da nossa própria comunidade. Ele, sem dúvida, nos abriu as fronteiras para além daquele pedaço de chão em que vivíamos. Ainda, nos proporcionou o direito de ir e vir além das nossas fronteiras.

Para aquela época é de se dizer que foram ganhos inquestionáveis esses, que são, em suma, o pleno exercício da nossa cidadania. Se até agora eu me referi a apenas um lado da coisa, no entanto eu não posso deixar de falar do seu lado sentimental, dos nossos sonhos românticos de juventude, já que ele também nos transportava para os nossos encontros com as nossas paqueras, onde quer que fossem. E mesmo ali dentro dos seus vagões de passageiros ou na nossa própria estação.

Fora isso, igualmente o lado esportista, de lazer, quando nos transportava para as nossas partidas de futebol, para os nossos passeios. Como se vê, ele foi quase tudo. Embora se possa sempre fazer a ressalva da exploração material do homem pelo homem, do capital pelo trabalho, não podemos deixar de ressaltar a importância que a ferrovia proporcionou como meio de sobrevivência, como tendo contribuído com um bem estar material, da maioria das famílias de iperoenses que tinham unicamente no trem o seu “ganha pão”, o seu precioso emprego, embora pudesse ter feito muito mais.

A submissão ao trabalho e o desenvolvimento capitalista tecnológico são os paradoxos da nossa era contemporânea, mas, entretanto, até que um dia isso possa mudar, teremos que seguir nessa mesma linha de conduta. Por outro lado, justiça seja feita também aos nossos ancestrais, que nos proporcionaram as demais condições, por mais sacrificadas que elas fossem, para que alcançássemos os objetivos a que nos propusemos e que em última análise era a transferência do que eles pretendiam fazer destes mesmos objetivos para si, mas que trasladaram aos seus descendentes.