“Os animais em nossas vidas”

Animais em nossas vidas
(Imagem da internet - Rádio Nova Aliança)

Augusto Daniel Pavon

Como éramos ligados nesses seres! Decididamente nós os amávamos e eles faziam parte de nossa vida, de nossas mais doces recordações. Lembro-me muito bem das vacas. Já disse que fui operado de um dos meus dois joelhos, até porque não me lembro de alguém que tivesse mais que dois, e que os dois foram lesados no futebol que amava e amo e que pratiquei intensamente no “campão do Sorocabana”, sem nunca ter sido um “Tanaka”. Mas nós o praticávamos rotineiramente, embora na maioria das vezes a sra. “Dordaia” não concordasse e saísse em disparada de uma casinha onde morava, lá nos fundos, ao lado dos antigos vestiários (fundo à direita de quem entrava), em nossa direção, dizendo coisas que muito nos ofendiam, como por exemplo “seus fio de uma puta”. E nos ofendia pela falta de concordância. “Seus” com “fio” e o que é pior: todos de UMA puta só! Isso realmente nos preocupava, a todos, pois não conseguíamos entender. Magoava.

Bom, mas deixemos isso de lado, afinal a sra. Dordaia (porque será Dordaia?) fazia parte importante de nossa história, desde sr. Bertolli até sr. Pedroso. Eu odiava tempos chuvosos (hoje os amo), porque eles não me permitiam jogar. Perdi um ano de estudo em Sorocaba, quando no mesmo Ginásio Anchieta, na rua da Penha, junto com o Kiko (hoje um importante empresário em Boituva) e o Roque, um grande amigo, daqueles que ficam em nosso coração, fazíamos a primeira série e simplesmente abandonávamos as aulas para tomar o “Luxo” que passava em Sorocaba às 14h para irmos ao “campão” jogar futebol. Na prova final havia um professor, famoso em Sorocaba, Hegas (coisa de grego, talvez), que lecionava Latim e me disse: “Conjugue o verbo ser em latim e você está aprovado.” Quer dizer, o mínimo necessário. Sum, es, est, sumus, estis, sunt, acho que é isso. Hoje, muitos anos depois eu sei e, se estiver errado, vocês também não sabem e tudo bem.

Mas naquele dia e hora eu não sabia. Fui reprovado, já era segunda época, mas também foi rápido e eu tive tempo de tomar o “Luxo” e ir ao meu futebol. Me lembro que aquele que estragasse o andar da carruagem, digo, do futebol, com um chute que mandasse a bola para fora do campo, teria que buscá-la. Me lembro que em alguns chutes a bola foi pra fora do campo e no pasto do Joãozinho, o Domingues, pai do Zezinho. Eu até que gostava de ir buscá-la no pasto do Joãozinho. Primeiro, porque era um pasto e aí é que entra a vaca. Era uma aventura. Segundo, porque sempre jogávamos descalços, e quando andávamos pelo pasto verdinho, pisávamos naqueles “montes de cocô moles e quentinhos”. E sabe que não era ruim! Marcaram tanto que ficou como uma doce lembrança. Doce???

 

Hugo Augusto

A respeito da sra. “Dordaia”, penso o seguinte: o nome verdadeiro dela era Ordália. Isso é fato. Mas, com esse negócio de interior, ao qual estamos enraizados, era normal que as pessoas se dirigissem a ela como ORDAIA, ou melhor, DONA ORDAIA. Assim, imagino que ao juntar as palavras DONA + ORDAIA, tenha se originado inicialmente “DONORDAIA” e, posteriormente, “DORDAIA”. E, logicamente, para a molecada soou legal!!! Também ouvi muitos xingamentos dela por causa de entrarmos no campo sem ordem… rs… rs…

Bem, acho que é por aí a explicação!

 

Augusto Daniel Pavon

Eu penso que a “Dordaia” extrapola o pequeno local onde habitava, fundo do campo à direita de quem entra, próximo aos antigos vestiários. Transcende à condição de simples “cuidadora do campo de futebol” e invade o nosso imaginário, visto que constante em seu comportamento limitado, atravessou gerações repetindo os mesmos gestos e permitindo que seu “fios de uma puta” ressoasse em muitos ouvidos em épocas diferentes, levando à variedade de interpretações e elucubrações e repousasse em nossos subconscientes, emergindo vez ou outra para nossas conjecturas. Entendo que é uma questão metafísica. Saiu do plano material e se transformou num mito. O “mito Dordaia”.