Paróquia de São João de Ipanema

Interior da Capela de São João Batista e o altar com a imagem do padroeiro e outros santos. (Isabel Pakes)

200 anos de história (1817-2017)

Em 1817, poucos anos após a criação da Real Fábrica de Ferro, foi criada a paróquia de São João de Ipanema, tendo o padre Gaspar Antonio Malheiros como o primeiro pároco. Frederico Varnhagen se posicionou contra a criação da paróquia. Ele era de origem protestante e alegava que em Ipanema só deveriam residir os empregados do estabelecimento. Além disso, dizia que os mesmos já tinham sua capela. Assim, ele dificultou a entrada de novos moradores, proibiu o corte de madeiras para construção, a derrubada de matas para lenha ou lavoura e todo o gênero de negócios.

Os moradores não tinham outra saída, a não ser escolher um novo local para se estabelecer. Com a saída dessas famílias, houve falta de gente para trabalhar em Ipanema. Os alimentos subiram de preço e o carvão ficou escasso. Durante algum tempo Varnhagen ficou somente com escravos na fábrica. Grande parte desses moradores dirigiu-se para a região de Tatuí, que foi elevada à categoria de paróquia em 1818, tendo como padroeiro o “São João do Benfica”. Invadindo terras alheias, os sertanejos foram se acomodando, mas não demorou muito e alguns tiveram a ideia de mudar a povoação para a região a uma légua de distância do Benfica, onde levantaram outra capela, dessa vez em honra a Nossa Senhora da Conceição. Esse segundo núcleo deu origem à atual Tatuí, cuja fundação ocorreu em 1826.

Devido a essas desavenças, muitos moradores preferiram voltar para as áreas no entorno do morro Araçoiaba, sendo as regiões atuais de Iperó, Bacaetava, Iperozinho, Capela do Alto, Araçoiabinha e Araçoiaba da Serra (então Campo Largo, onde foi criada a freguesia de Nossa Senhora das Dores também em 1826).

 

Capela de São João do [Rio] Ipanema Festa Joanina

por João Barcellos

Com ordem régia de João VI, em 1817, à Real Fábrica de Ferro do [Rio] Ipanema foi incorporada a Paróquia de São João Batista. A primeira capela foi erguida onde mais tarde se deu lugar para o Cemitério Protestante e a imagem do santo da cristandade é conservada na capela definitiva na casa-sede da governança da Real Fábrica, hoje Centro da Memória; o portal que hoje dá acesso ao cemitério era a entrada para a capela joanina.

A incorporação da paróquia joanina – daí a denominação Real Fábrica de Ferro de São João do [Rio] Ipanema – ao complexo ferrífero, iniciado por Affonso Sardinha [o Velho] com fornos catalães no Séc. 16, criou uma crise quase institucional, ou reinol, com o administrador Frederico Varnhagen a se desentender com a ordem do rei. O administrador viu na construção de uma capela cristã dois perigos: 1- o corte de madeira para construção de habitações ao redor da capela, sendo que a madeira era fundamental para manter os fornos em atividade, e 2- já se sabia que técnicos da área protestante, especialmente alemães e suecos, iriam ser chamados para fazer progredir a Real Fábrica de Ferro, logo, a diplomacia religiosa seria a melhor maneira de lidar com tal realidade… Mas, o bispo Mateus Pereira preferiu acatar a ordem régia a dar ouvidos às reclamações do administrador.

O povo da mineração, impedido de se estabelecer no entorno da capela, como era costume social na época, foi então buscar outra região ao ´largo´ do complexo ferrífero, e isso deu origem ao vilarejo de Campo Largo, pois, o povo da banda do Sítio St. Antônio [junto do Rio dos Iperós], que servia a Real Fábrica, continuou os seus afazeres de logística e abastecimento.

Assim foi que naquele ano de 1817 a capela joanina passou a ser o marco-zero das atividades minerárias, sociopolíticas e místicas no Cerro Ybiraçoiaba substituindo a Capela de Nª Sª do Monte Serrat, que, no final do Séc. 16, o governador Francisco Souza havia instalado no arraial mineiro da Família Sardinha. A segunda e definitiva capela joanina foi erguida na época do administrador João Bloem, em 1834, na entrada da casa-sede da Real Fábrica de Ferro.

Em ambos os lugares, logo os portugueses e luso-brasileiros e brasileiros passaram a cultivar a tradição joanina que coloria o ambiente social e religioso das colheitas no verão europeu. Assim, a Festa de São João – no Brasil: a popular festa junina – passou do arraial mineiro para a Floresta Nacional de Ipanema [Flona-ICMBio] e, além da atual cidade-sede Iperó, é palco de uma religiosidade que se estende aos povoados da região ybiraçoiabana.

BARCELLOS, João – escritor, pesquisador de história, conferencista