“Primeira metade da década de 1960”

Primeira metade da década de 1960
Rádio vitrola da década de 1960. (Imagem da internet - Youtube)

Augusto Daniel Pavon

Estive em um clube de Jundiaí onde as tradições italianas são cultuadas e muito bem, pelo fato de ser a cidade onde existe a maior população de descendentes, em terceira geração, dos habitantes de “la vechia signora”. Linda! Decoração, recepção, o espumante servido muito bom, comida e música. Tudo, tudo a caráter. Mal sentamos e começamos a papear, já nos serviram o “couvert” e o espumante. Começou uma série de Pinno Donaggio, Rita Pavonne, Ornella Vanonni, Peppino di Capri, Domenicco Modugno, Gigliolla Cinquentti, Gianni Moranddi, enfim, todos maravilhosos e com músicas que me atiram mais uma vez em um “túnel do tempo” e fui parar em Iperó na primeira metade da década de 60.

Anos mágicos. Desta vez não no “Cine Paradiso”, mas na minha Porfírio, na minha casa, 85, que trocaram até o número, no meu quarto, na minha cama, onde ao lado ficava o rádio do meu avô. Não me lembro por que esse rádio estava ao lado da minha cama, pois ele ficava na copa, ao lado da geladeira, onde meu avô Augusto, mesmo com a televisão na sala, fazia questão de ouvir duas coisas: um jornal transmitido com muita classe por Corifeu de Azevedo Marques e um programa de esportes (entenda-se futebol) e só uma parte dele, a que falava do Corinthians, o grande campeão do 4º Centenário, de Claudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Simão. E assim mesmo só quando estavam falando “bem”. Também me julgo um fanático, pois faço tudo isso, só que herdei o bom gosto de meu pai.

Bem, deixemos isso de lado e voltemos ao rádio. Fim dos anos 50 e nos 60, nós o tínhamos. Era um “rádio vitrola”. Nele aprendi tudo de música ouvindo os famosos 78 rotações que ainda os tenho. Nele ouvi à exaustão “Adeus, cinco letras que choram”, de Chico Alves, e “Luzes da ribalta”, com o Trio de Ouro. Ouvi muito, pois como já citei em outro comentário, participei do programa de calouros no Cine Sorocabana, da linda Ana Azeredo. Só parei “graças às vaias”.

Então, lá estava o rádio ao meu lado e, nas férias, feriados prolongados, eu dormia até um pouco mais tarde: 11h30. Acordava cedo, isso é verdade, minha mãe batia à porta e levava meu café. E que café! Eu merecia. “Já” era, naquela época, filho único, então eu não mais dormia, mas também não levantava. Com calma eu esperava o almoço. Pra esse eu levantava. Nesse tempo eu seguia minha rotina de férias, sofrendo. Ligava o rádio, primeiro a maravilhosa Rádio Portofelicense, aquela da Altino Arantes, e após, quando acabavam as músicas, rodava o “dial” para a Rádio Cacique, aquela da esquina da Manoel José da Fonseca com a Miranda Azevedo, naquele tempo, na linda Sorocaba.

Todos esses cantores, mais Miltinho, Nelson Gonçalves, Miguel Aceves Mejia e Bienvenido Granda desfilaram músicas que embalavam meus sonhos de mancebo apaixonado, que só era interrompido pelo cheiro da comida. Voltei à realidade quando a Cláudia me convidou a dançar, pois estava tocando “Champagne”, grande sucesso de Pepinno di Capri, e fomos a bailar, como eu fazia nos velhos tempos, nos salões do Sorocabana. “Dois pra lá e um pra cá”.

 

José Roberto Moraga Ramos

Belas lembranças do Augusto. Brilhante como sempre!

É interessante esse novelo, onde um puxa uma ponta e pronto: já aflora uma lembrancinha que estava lá no fundo adormecida. Quando foi mencionado Corifeu de Azevedo Marques, do grande jornal falado da Rádio Tupi, veio à tona a voz do locutor, uma voz que fugia do padrão da época. Aquele padrão Hélio Ribeiro e Ferreira Martins (Rádio Piratininga) para os mais jovens. Então, depois de algumas notícias, Corifeu anunciava: “Atenção, senhores cotonicultores”. Cotonicultores? Mas, que diabos era aquilo? Cotonicultores? Consultado o velho dicionário estava lá: produtor de algodão.

Foi o que bastou. Em todas as redações escolares, na primeira oportunidade eu dava um jeitinho e arrumava um emprego para os cotonicultores. O meu agradecimento aos cotonicultores de então: Milton Sartorelli, Toninho Antunes e Carlito Sartorelli. Falando ainda dos tempos da rádio, bom mesmo era acompanhar a Marcha das Apurações (eleições) na Rádio Portofelicense.

Chegado o dia da eleição, depois de xingamentos, boatos e intrigas. 15 de novembro.

A rua Santo Antonio, cheia de papeis, poeira e promessas, aguardava nervosa o pleito acabar. O velho Gaspar recebia a todos. Ricos, pobres e remediados para exercerem o direito ao voto. Meu Deus, quanta gente! Fila longa e a esperança de dias melhores maior ainda. O dia todo era um entra e sai de pessoas que só víamos nos velórios e não mais lembrávamos que existiam. Havia alegria, apesar de ser uma época dura (e bota dura nisso né, Dita?). Eram poucas e raras as eleições, mas era uma alegria ver a “gentarada” na rua.

Quando as votações eram encerradas, os presidentes, secretários, mesários, candidatos, fiscais dos partidos, carregavam a urna até o carro da polícia que as conduzia ao local da apuração em Porto Feliz. Alguns candidatos e fiscais permaneciam em vigília no recinto para “guardar” as urnas, temendo a violação e subtração (talvez) de alguns votos. No dia seguinte começava a apuração. Primeiro Porto Feliz, depois Boituva e por último Iperó. Seria uma predestinação? Ao redor do velho rádio, ficávamos atentos à apuração. De repente alguém gritava: “Começou!”

Correria, logo a pequena sala estava apinhada. O locutor da Rádio Portofelicense (seria Adélio Mendonça?) anunciava: “Apuração da seção 29 de Iperó – vinha aquela musiquinha com toques de clarim, eu acho que tem alguma coisa a ver com a Revolução de 32 – para prefeito.”

Expectativa! Silêncio! E então: piiiiiiiiiiiiiii nhommmmmmmm piiiiiiiiii.

A maldita interferência estática invadia a sala. Xingamentos, sopapos no pobre rádio. Nada adiantava. A emissora já estava fora do ar! Com certeza, aquilo (fora do ar) era obra do candidato que não era o nosso, que havia cometido aquele atentado. Decepção estampada no rosto de cada um. O velho Mário de Mello escalava um de nós para aguardar o retorno da emissora. Nada!

Altas horas, o plantonista gritava: “Voltou!”

Correria, empurra-empurra e a emissora já estava anunciando os vereadores eleitos de Boituva. Somente saberíamos quem havia ganhado a eleição, quando Iperó acordasse com os rojões do candidato eleito. Isso já na madrugada do dia 17.