“Recomeço de uma família”

Recomeço de uma família
O casal Pedro Francisco dos Santos e Flavia Furtado de Lacerda. (Arquivo Edna dos Santos)

Edna dos Santos

Em meados da década de 1960, meu pai Pedro Francisco dos Santos, nascido em 28/06/1927 na cidade de Belo Jardim (Estado de Pernambuco), exercendo o cargo de guarda-fios na Estrada de Ferro Sorocabana, foi transferido da cidade de Itararé para Iperó. O cargo de guarda-fios era de muito importância. Afinal, ele era    responsável pela eletricidade (alta e baixa tensão), subestação, torres, postes e telecomunicação (centro telefônico, seletivo, etc) entre os limites designados pela própria ferrovia.

A chegada foi conturbada, pois o chefe da estação, na época, entregou as chaves de uma residência que não pertencia à Diretoria de Eletricidade à qual o meu pai pertencia. As vilas ferroviárias foram de extrema importância na vida dos empregados. Residências de padrão europeu, dispondo de todo o conforto, inclusive com água encanada, esgoto, eletricidade, algumas até com seletivo (depois, telefone) e com um setor especializado na manutenção dos imóveis.

Os empregados eram contemplados com essa “mordomia” até a aposentadoria. Contudo, num caso de emergência, já estão próximos do trabalho. As residências eram distribuídas de acordo com uma hierarquia de cargos, existindo diferenciadas acomodações. O imóvel correto seria de nº 14, mas o chefe da estação autorizou que outra família utilizasse o referido imóvel. O impasse estava instalado. Alguns empregados espalharam que “era a primeira vez que ele estava enfrentando uma família nordestina”. Até concordo que fomos a primeira família nordestina a morar em Iperó, mas já estávamos há alguns dias acomodados na sala de espera da estação e a nossa mudança dentro de um vagão no pátio. Havia a necessidade de desocupar esse vagão para seguir viagem, afinal era uma cortesia da ferrovia contribuir com o transporte da mobília de seus empregados num caso de transferência, pagamento e até mesmo na morte.

O chefe da estação tentou ser mais brando, demonstrando preocupação com a família. Meu pai aceitou as chaves, não me lembro se era de nº 7 ou 8, mas disse-lhe que seria temporariamente. Nós estávamos com a minha mãe, Flávia Furtado de Lacerda (nascida em 27/03/1935 na cidade de Mauriti, Estado do Ceará), desenganada por médicos e acamada há mais de dois anos, além de crianças pequenas e sua irmã recém-casada. Portanto, era inviável permanecer por mais tempo ali. O risco era muito grande. Minha mãe recordava-se que o seu “Dito carregador” a olhava fixamente com sentimento de pena e dizia: “Tenha fé, a senhora vai ficar boa para criar e cuidar dessas crianças.”

Na casa, tivemos como vizinhos pessoas maravilhosas que nos acolheram com muito carinho: a dona Olinda Pólo, dona Terezinha, Ivone, pessoas que ajudaram muito a nossa família. O tempo foi passando e a melhora da minha mãe era visível. O clima da cidade ajudou bastante na sua saúde. Não fizemos mudança neste imóvel. Era comum termos nos quintais, hortas, galinheiro, o plantio de árvores frutíferas, um bonito jardim, pois sabíamos que o processo estava tramitando em São Paulo, sede da ferrovia. Chegamos a comprar uma televisão e outros utensílios domésticos. A prosperidade voltou a reinar na minha família e também depois de algum tempo veio a ordem da transferência para a residência de nº 14.

Minha mãe faleceu em 02/01/2000 e não admitia que fizessem críticas à cidade de Iperó. Aliás, costumava dizer: “Para fazer a viagem de Itararé para Iperó precisei tomar quase dois litros de sangue e na Santa Casa os médicos foram sinceros em dizer que dificilmente aguentaria essa viagem. Portanto, caso um dia a cidade de Iperó desapareça do mapa, continuarei a beijar aquele pedaço de chão que só me deu alegria.”