“Retrato descritivo da cidade – Parte 2”

Retrato descritivo
Casas da Sorocabana, na Vila Santo Antonio, em 1945. (Dinho Vianna - Arquivo Wilson Alves)

Ângelo Lourenço Filho

Vila do Depósito, várzea e cerrado

Quem desembarcasse na estação e quisesse ir à Vila do Depósito, deveria se dirigir no sentido sul, à direita. Uma rua de terra e pedregulho se iniciava ao lado da cabine de transformadores, local rigorosamente vigiado e bem cercado, pois havia perigo a quem não fosse habilitado a manusear qualquer objeto nas proximidades da casa de força. Ao lado dela morava o zelador do local, bem próximo onde também, sempre de prontidão para qualquer emergência, funcionava o departamento da rede aérea, onde o posto móvel era um vagão de tamanho acima dos comuns, com um pantógrafo instalado na sua cobertura. Esse vagão era conhecido como “vagão trolley” e sua finalidade era dar manutenção na rede aérea, que são os cabos elétricos instalados no alto e sustentados pelos postes laterais. Os trens elétricos eram equipados com o pantógrafo, que fazia a conexão elétrica entre a rede de 3.000 volts e a casa de máquinas das locomotivas. O “vagão trolley” obviamente necessitava de artefato igual para poder fazer reparos ou eventualmente algum socorro.

Caminhando por uma pequena ladeira deparava-se com um riacho, que cruzava o caminho, descendo suavemente em direção ao rio Sorocaba. Quem arriscasse a dar uma cusparada da ponte de madeira de dormentes transversais, ou jogasse um miolo de pão na água, vislumbraria o burbúrio de pequenos lambaris e guarus sedentos de qualquer alimento. Sob as águas do riacho muita planta aquática como as ninfeias e as flores de lótus, que embelezavam o cenário com lindas flores brancas ou azuis de miolo amarelo. Em certos trechos elas escondiam por completo aquele pequeno mundo aquático.

Em ambas as bordas brotavam como praga uma vegetação típica dos brejos: a taboa ou paina aquática. O caule da taboa é macio e ela lembra um salsichão vermelho. Sua paina, quando colhida e seca, sempre foi muito utilizada na confecção de travesseiros. As folhas e o caule, por serem constituídas de uma fibra resistente, também sempre tiveram utilidade na confecção artesanal.

Como os garotos da época necessariamente teriam que ser criativos, e como havia taboa em abundância, de ambos os lados do riacho, turmas rivais das vilas do Meio, Santa Rita e Depósito construíam cabanas com as ditas cujas e faziam verdadeiras “guerras” de salsichões. A técnica era a de cortar o caule bem no seu início e, imitando as varetas de rojões, a turma de um lado atirava os artefatos nos adversários do outro lado. A divisa da batalha era o nosso riozinho e as trincheiras eram as beiradas. Interessante que nunca se soube de alguém machucado. Se bem que se isso acontecesse, os pais, sem violência, deixavam claro que malcriadeza, safadeza e brigas na rua poderiam muito bem acionar a famosa vara de marmelo. Então, em caso de algum acidente, o jeito era inventar alguma desculpa esfarrapada.

O limite da área de atuação desses “indígenas do brejo” acabava no túnel construído sob os trilhos que vinham do pátio ferroviário em direção à oficina de solda. A área da oficina também servia de depósito de ferro, aço, dormentes e madeira de eucalipto para as locomotivas a vapor. Após o túnel, o leito foi aprofundado e alargado, pois por falta de qualquer recurso, o “mais simplório e criativo” foi despejar no córrego os dejetos acumulados das casas da vila.

Voltando à nossa ponte de trilho e dormentes, caminhando pelos fundos das casas que compunham a primeira fileira da rua acima, poderia se deparar com canteiros de verduras que os moradores cultivavam no charque. Tinha gente que criava até uns porquinhos em chiqueiros à beira do córrego.

Uns quinhentos metros acima estava reservado para um xodó da molecada. Um tanque de água represada em forma de dique, que servia de vestibular para quem postulasse um dia nadar no porto de areia no rio Sorocaba. Todos os garotos das redondezas (Vila do Depósito, bairro da Minhoca e os eternos rivais da Vila do Meio) aprendiam a nadar no represado. Ali havia respeito entre as tribos. Como num tratado mudo nada se falava a respeito de futebol, guerra de taboa, estilingue e faroeste. O que interessava a todos, em comum acordo, era aprender a nadar. Afinal, encarar o porto de areia do Joãozinho Domingues não era para qualquer um.

Tomando-se a direção das casas da vila, à direita havia uma extensa plantação de eucaliptos. Essas plantações faziam parte do projeto da Sorocabana de garantia do combustível das máquinas a vapor. As plantações de eucaliptos se estendiam por quase todo o interior do estado de São Paulo, onde houvesse os trilhos. Esse eucaliptal referido começava às margens do córrego e se estendia até os limites do sítio da família Gamero.

Saindo da trilha que descia para o tanquinho de “aprendizado de natação” e seguindo à esquerda dos eucaliptos, a região sofria um contraste. Começando pelo sítio da família do José Leite, até o outro lado da ferrovia, na direção de Bacaetava, a região se transformava num cerrado. Transpondo os trilhos no sentido de Tatuí ou Capela do Alto, localizava-se o sítio da família do Carlito Sartorelli. Seguindo no sentido de quem vai ao morro Araçoiaba (morro de Ipanema), o sitio da família conhecida como os Paulas.

A vegetação predominante, assim como a fauna e a flora de uma terra árida e seca, classifica a área como um cerrado, porque a exemplo de outros cerrados em diversas regiões do Brasil, eles estão circundados por vegetação da Mata Atlântica. Ali do lado estava o morro com a sua exuberância Atlântica. O cerrado sempre foi muito rico na sua biodiversidade e o nosso não poderia ser diferente. Tanto na flora como na fauna poderia se deparar com centenas de espécimes exclusivas dessa topografia. Esse cerrado que tinha seu princípio na Vila do Depósito se estendia por Bacaetava, Ipanema, George Oetterer e Araçoiaba.

Relativamente a plantas com seus frutos e flores, relacionamos as que não eram e não são comuns nos jardins e nos quintais de Iperó e adjacências: Marcelina do Campo, Taquarinha, Marmelinho, Cereja Roxa, Capim Rabo de Cavalo, Capim Gordura, Araticum, Araticum Cabeça de Negro, Indaiá, Araticunzinho de Árvore, Aroeira, Margaridinha do Campo, Vassourinha, Vassoura de Bruxa, Vassoura de Terreiro, Guanxuma, Picão, Arroz do Diabo, Dorme Dorme, Maria Pretinha, Fruta de Cera, Capim Barba de Bode, Cajarana, Gabiroba, Araçá, Juá Amarelo, Grão de Galo, Carrapicho, Jataí, Sapezal, Mamoninha, Unha de Gato, Amora Silvestre, Azedinha, Maracujá Roxo, Cipó de São João, Sempre Viva, Coqueiro Cachorro do Mato, Cambará, Figueira, Jatobá, Gancheira, Cogumelo do Campo, Cogumelo de Árvores, Ipê Amarelo, Ipê Roxo.

Da mesma forma podemos mencionar animais silvestres que tinham seu habitat no nosso cerrado, tais como: Gaviãozinho Carapinhé, Urubu Rei, Gavião Imperial, Beija-Flor Tesoura, Beija-Flor Mirim, Papa Capim, Tisiu, Coleirinha, Bigodinho, Pintassilgo, Canário da Terra, Seriema, Bicudo, Bico de Lacre, Pomba do Mato, Juruti, Inhambu Xororó, Anu Branco, Anu Preto, Azulão, Chupim, João de Barro, Sabiá do Campo, Sabiá Laranjeira, Tesourinha, Pica Pau, Periquitinho Verde, Maritaca, Coruja Buraqueira, Coruja de Cupim, Codorninha, Perdiz, Veado Campeiro, Queixada, Tatu Bola, Tatu Vermelho, Cachorro do Mato, Gato do Mato, Lebre, Jaracambé, Preá, Quati, Gambá, Morcego da Figueira, Ouriço, Cascavel, Urutu Cruzeiro, Urutu Dourado, Falsa Coral, Coral Verdadeira, Caninana, Jararaca, Jararaca do Rabo Branco, Calango, Lagarto, Lagartixa, Cupim, Aranha Caranguejeira, Abelha Europeia, Vespa da Bunda Listada, Abelha Cuivara, Abelha Jataí, Borboleta Imperial, Borboletas do Campo, Borboleta de Madeira, Caramujo, Formiga Taçuíra, Saúva, Formigão Preta de Pau Podre e Tanajura.

Nos meses de calor, após o início da primavera, à longa distância (até quatro quilômetros) era possível sentir o forte aroma exalado pelos frutos amadurecidos do Indaiá, da Gabiroba, do Araçá e principalmente do Araticum de Chão. Seria relativamente fácil localizar de onde o vento trazia o aroma. Se não houvesse uns “poréns”, principalmente alguns que povoam a cabeça das crianças. Como todo bom lugarejo do interior do Brasil, também na nossa região existiam algumas lendas folclóricas. Algumas delas oriundas do cerrado. Diziam os mais antigos que uma assombração conhecida como “Boitatá”, nas noites escuras sem luar, adorava comer os caroços do Araticum.

Nos vastos campos em planície do cerrado era possível vê-los indo e vindo com suas bolas de fogo azuladas, amarelas e avermelhadas, voando acima de onde estava o fruto apodrecido. Então, os pais sempre recomendavam aos filhos que mantivessem distância de onde o “Boitatá” andava aparecendo, pois se o danado pressentisse que alguém andava surrupiando sua refeição predileta, esse pobre diabo era devorado pelas labaredas do monstro. Recomendava-se cautela e temor em colher a gostosura que era a fruta do Araticum. Hoje a gente sabe que as bolas de fogo nada mais eram do que gás metano exalado de fósseis de animais expostos no campo.

Outro folclore se referia à coragem que alguém teria em desafiar um ser monstrengo. Ou seja, o de catar coquinhos caídos dos pés do coqueiro de cachorro do mato. A lenda rezava que nas noites de lua cheia, o cachorro chefe da matilha se escondia atrás dos coqueirais e passava a uivar sem parar. Quando dava meia noite, ele se transformava em lobisomem para daí então atacar os galinheiros de algum sitiante próximo. Era pena que voava de tudo que é lado, cachorros caseiros que ladravam e sitiantes que se escondiam debaixo das camas. A princípio parece outra besteira do folclore, pois quem atacava os galinheiros nada mais era do que os gambás ou raposas, como eram conhecidos, abundantes no cerrado. Mas, como dizia Picasso (um assumido ateu): “No creo en las brujas, pero que existen, existen”. Assim sendo, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Continuando com nossa descrição, vamos caminhando agora no sentido de quem olha e avista ao longe o morro de Ipanema, retornando no sentido da Vila do Depósito pela extensa várzea que margeia o rio em curva. O ponto de partida de retorno é o sítio das famílias Fiúza e Figueiredo. O marco inicial está no nosso rio, num local conhecido como “poço fundo”. A várzea é a mesma que se estende até o fundo de outro sítio bem mais adiante, que era propriedade da família do Carlos Speglis. Só é interrompido por um paredão rochoso muito arborizado, que começa no alto da estrada que liga o centro de Iperó à vila. Abaixo do local mencionado, o rio curiosamente dividia-se em dois, para uns dois quilômetros adiante voltar a se juntar.

Mencionamos o “poço fundo”, porque o local era temido até mesmo pelos mais destemidos pescadores e caçadores. Não pela sua profundidade, que era de mais ou menos uns seis metros, quando de sua vazão normal, mas pelas histórias que se contava do lugar. Diziam que na beira do barranco vira e mexe aparecia uma tal de mula sem cabeça correndo e se atolando no brejo, para desaparecer aos poucos no lodo, como se fosse numa lagoa de areia movediça. Também de uma mulher de vestido branco, que sentada numa grande pedra, que realmente existia, se insinuava para os homens de forma convidativa a acompanhá-la. Lógico que nunca ninguém se meteu a besta, pelo menos é o que se comentava. Não existe nenhum registro de que alguém foi levado para o fundo do rio junto com a donzela.

Tinha ainda mais uma lenda. A de um garoto bem negrinho que se sentava nos galhos de um imenso ingazeiro que desprendia seus galhos para quase o meio do rio. A correnteza passava uivando nesses galhos e de repente em redemoinho formava o remanso onde se situava o famoso poço. O que se sabe através dos relatos é que o negrinho era boa gente. Ficava observado os pescadores e só rindo. Quem contava muito dessas estórias era um senhor conhecido como Antonio Custódio, frequentador assíduo das barrancas do rio Sorocaba, desde o “poço fundo” até os confins da várzea grande (ou “varjão”), como as pessoas a denominavam, muito além da ponte de cimento.

É bem possível que as histórias fossem inventadas por pescadores que sem ter muita mentira para contar dos enormes peixes que eram fisgados e sempre escapavam, e mais ainda, sob o efeito da marvada rosinha, criavam mirabolantes fantasias. Temos que ressaltar que o seu Antonio Custódio não fazia parte da turma da manguaça. Ele não bebia nada de álcool. Tinha crédito no que contava. “Assim sendu, o mior era num duvidá e caí fora do tar poço.”

Uma coisa era verdade. Em toda extensão da imensa várzea desde o sítio da família Fiúza, passando pelos Speglis, adentrando no terreno do senhor Amadeu Eid, contornando a lagoa dos eucaliptais, atingindo a região onde havia quatro olarias que margeavam a várzea (olarias essas que pertenciam a família Del Vigna e aos senhores João Branco e Horácio Figueiredo), a visão que se tinha para quem se aventurasse adentrar o varjão era a do Jardim do Éden. Se alguém se propusesse a pesquisar sobre tudo que ali vivia, se sentiria embasbacado e ao mesmo tempo culpado por nunca ter percebido o quanto perdeu em tempo para vivenciar aquela beleza.

A várzea e o rio em sua jornada, carregavam consigo uma gama incrível de habitantes. Sobre e sob a terra, nos galhos das árvores, proliferavam plantas e animais tais como: Orquídeas, Bromélias, Barba de Papai Noel, Lírio do Brejo, Margaridinha da Lagoa, Begônia do Brejo, Samambaia de Árvore, Samambaia de Chão, Copo de Leite, Ninfeias, Flor de Lótus, Aguapés, Taboa, Avencas, Ingazeiros, Jativocas, Capim Navalha, Urtiga, Capim Gordura. Bananeira de Jardim, Ave do Paraíso. E centenas de borboletas azuis, que se multiplicavam beijando o lodo do pântano.

Vejamos a quantidade de animais catalogados que fizeram parte dessa viva natureza. Sobre o chão, na superfície das águas, nos galhos, folhas e flores das plantas, desfilavam Pacas, Preás, Capivaras, Cutias, Jiboias, Jararacuçus, Caninanas, Lagartos, Lagartixas, Sapos, Girinos, Rãs Paulistinhas, Rãs Pimenta, Minhocuçu, Minhocas Puladeira, Cobras Cega, Pernilongos, Escaravelhos, Caramujinhos, Cigarras, Mosquitos Pólvora, Besouros, Gafanhotos, Louvas a Deus, Vagalumes, Pitos Velho (helicópteros), Libélulas, Centopeias, Garças, Socós, Marrecos, Patos Selvagens, Martins Pescadores, Coleirinhas do Brejo, Franguinhos d’água, Saracuras, Biguás, Caranguejos, Mandarovás, Moscas Butuca.
Submersos estavam os Jacarés, Lontras, Ariranhas, Tartarugas, Cágados, Caranguejos, Acarás, Lambaris, Bagrões, Bagrinhos, Bagres Sapo, Traíras, Trairões, Tanchins, Tambiús, Corimbatás, Corimbataíras, Pacus, Piranhas, Tabaranas, Chimburés, Piavas, Piavinhas, Piaus, Mandis Chorão, Mandis Branco, Tuviras, Mandiúvas, Piramboias, Cascudos, Saicangas, Tanchins e Saguerus.

Retornando da várzea pelo sítio do Amadeu Eid até a nossa Vila do Depósito, iremos reparar que ela era constituída por duas fileiras de casas “parede e meia”, umas de frente para as outras, em duas ruas. Em frente ao seu sítio, o sr. Amadeu tinha um estabelecimento comercial que vendia um pouco de tudo. Daquilo que seu sítio produzia e também da revenda de gêneros alimentícios e utilidades domésticas. Logo acima da venda do Amadeu ficava a oficina de soldagem de trilhos e manutenção de dormentes, que definiu a denominação do bairro.

As casas da primeira rua, de quem vinha do centro da cidade, eram melhores. Mais espaçosas e com terrenos maiores. Nelas moravam as lideranças dos operários. Uma bela residência no meio da primeira rua era destinada ao feitor, que comandava os trabalhadores que faziam os serviços mais braçais da ferrovia (limpeza dos vãos e laterais dos trilhos, troca de dormentes e troca de trilhos), serviço duro, pesado, de enxada, enxadão, picareta e marreta. Na mesma rua havia outra mansão, que era destinada ao chefe do Depósito. A última casa da rua era a melhor de todas e quem nela tinha o privilégio de morar era o engenheiro responsável daquele trecho regional da ferrovia.

Subindo a rua em vertical, onde se situava a residência do engenheiro, tinha uma caixa d’água enorme, de muita utilidade. Não só a abastecer as residências, como também servir de observatório para os garotos que subiam a escada de ferro até a borda no parapeito do reservatório. Lá de cima era possível divisar a uma distancia de uns mil metros um campinho de futebol de terra batida. A finalidade era ver se já tinha alguém batendo uma bolinha no campo também conhecido como barrancão.

Barrancão, porque esse campinho foi o precursor do hoje futebol “society”. De um dos lados não havia lateral, então valia tudo, inclusive fazer tabela com o barranco. As través eram de eucalipto e nunca teve redes. O terreno de terra vermelha e toda impregnada de más formações, causadas pelos pisões de barro das chuvas. Era o vilão dos dedões da garotada. Como só se jogava descalço, não havia na Vila do Depósito garoto que jogasse futebol que não tivesse num determinado dia perdido alguma unha dos pés. A paixão era tamanha, que não era raro ver algum garoto com algum dedo amarrado por pedaço de pano e ainda assim insistindo em brincar de bola. Profissional da bola apenas exceções.

São conhecidas duas histórias de meninos que arrebentaram as unhas no barrancão. Um foi o Toninho Oliveira (filho do Antonio Oliveira, que trabalhava na rede aérea e da dona Rosa, que depois se mudaram para Ourinhos). Anos mais tarde o Toninho se profissionalizou e jogou em grandes equipes como a Ponte Preta e o Santos. O outro foi o Verdotinho (filho do Verdotti, que trabalhava na “soca” – denominação dos trabalhadores que davam duro nos trilhos), que foi criado ao “Deus dará”. É de conhecimento de quem viveu nesse período, vizinho dos Verdotti, que muitas mães ajudavam o menino que quase nunca tinha o que comer. Não sabemos como ele chegou ao profissional, só sabemos que jogou no Pará e algum tempo como lateral no Corinthians.

Daquele campinho saíram poucos craques de bola, mas inúmeros craques de lições de vida. A Vila do Depósito, como numa bênção divina, era bafejada por um fluído cósmico universal que transformava as pessoas em lutadores contumazes e por isso vencedores.