“ROMEU DE CAMPOS – entrevista”

Romeu de Campos
Romeu de Campos chegou em Iperó no início da década de 1930, quando o lugar ainda se chamava "Esplanada".

Concedida a José Roberto Moraga Ramos em 19 de fevereiro de 2004

Romeu de Campos, nascido em 25 de fevereiro de 1927.

Veio para Iperó, juntamente com a família – pai e mãe –, em dezembro de 1931. Saímos de Sarapuí e viemos para cá em busca de melhores condições de vida. Minha mãe era Severina de Campos. Meu pai era Benedito Aires de Campos. Ele trabalhava num olaria em Sarapuí e veio trabalhar como carregador na estação de Iperó. Havia pouca gente aqui, cerca de quarenta famílias apenas. Casas particulares haviam poucas. E eram todas de tábua ou de barro.
Já estava aqui o Mário de Mello, o João Mota, o Paulo “bento” (Antunes Moreira), a Adolphina, o Vital, o Samuel Domingues e algumas outras pessoas.

Mas nem nome o lugar tinha ainda. Chamavam de Esplanada, por causa da ferrovia. Depois colocaram o nome de Santo Antonio. Meu primeiro vizinho aqui em Iperó foi o Fleury. Depois, fui vizinho do Samuel Domingues. A gente morava na avenida principal, próximo de onde fica a loja Passo-a-passo hoje. A avenida não tinha nome. Ali não havia quase nada. Nem galinha. Era só a estrada mesmo. Havia umas duas casas de barro apenas.

A nossa diversão era matar passarinho e caçar coelho. Risos. Eu dormia cedo e vivia sossegado. A água vinha do poço e ainda não havia luz elétrica. Em dia de chuva, a gente só saía de Iperó através da Sorocabana. Eu pescava muito por aqui. O rio Sorocaba tinha muito peixe. Hoje ainda tem peixe, mas não prestam mais.

A primeira escola de Iperó pertenceu ao sr. João e ficava próxima do Waldir Paula Leite. Depois, veio a escola da dona Georgina, próxima à pracinha de Santa Rita e do armazém.

Havia um campo de futebol, ruim, no lugar onde hoje está o ginásio (escola Gaspar). Na esquina onde é o mercado do Waldir Paula Leite, existia uma farmácia que pertencia a um italiano. Depois dele, veio outro farmacêutico, chamado Antonio Pinto Resende. Tempos depois, ele vendeu a farmácia para a Sorocabana e veio o farmacêutico Arnaldo Belchior. Essa farmácia funcionou no lugar onde hoje mora o Giba e, posteriormente, foi transferida para a casa que era a antiga cadeia. Foi ali que trabalhou o Benedito Paula Leite. Antes do Benedito, ainda teve o sr. Joaquim e também o Orlando “enfermeiro”.

A vila da Sorocabana foi feita aos poucos. Primeiro quinze casas, depois vinte. Era conforme aumentava o movimento dos trens. Naquela época, o trem vinha de Bacaetava e passava pela ponte com destino a Santo Antonio “velho”. Era uma outra ponte. A ponte de ferro ainda não existia. O trem ia para Boituva, descia por Americaninha e chegava em Tatuí.

Em Iperó não havia nada. As moças moravam no sítio. A ferrovia estava começando a se movimentar. Não tinha a estação do jeito que é hoje. A estação ficava na saída para o ramal e era uma casa de tábuas. O depósito de lenha ficava num lugar onde depois foi construído o armazém da Sorocabana. Quem tomava conta do depósito era o Jairo. Quando construíram o depósito, veio um chefe chamado Colêncio, por volta de 1936. Em seguida foi construído um barracão de tábuas, para onde foi transferida a estação. O chefe da estação chamava Cantílio e o ajudante dele era o Benedito Germano.

O escadão, originalmente, era feito com dormentes. Depois, por volta de 1945, é que foi construído com cimento. O pernoite foi construído por volta de 1938-1939. Não existia desvio da linha até o pernoite. O material era levado pelo escadão ou pela rua do armazém. E nessa época, a estação já era considerada a praça de Iperó.

A festa de Santo Antonio era bastante movimentada. Quero dizer, não havia ninguém no lugar, e mesmo assim a festa era movimentada. Vinha muito cavaleiro, muita charrete, carretas de boi trazendo lenha. A igreja matriz ainda nem existia. A festa era na igrejinha de Santa Rita. A igreja matriz de Santo Antonio começou a ser feita por volta de 1938. Trabalhei como servente de pedreiro na construção da matriz antiga. O empreiteiro da obra foi o Alfredo Sartorelli. Os pedreiros eram Luís “garganta”, Totico, Pedro Amaro, Dito “carregador” e Ditinho Roque.

A procissão de Santo Antonio era grande. Quando a igreja ficou pronta, enquanto havia gente saindo pela praça, a outra ponta já estava lá na vila do Depósito. E a banda tocando atrás. Naquele tempo, o fogueteiro era o Nenê Prestes. Os trens paravam até que a procissão atravessasse o pátio. Também existiam grupos de recomenda aqui. Muita gente cantava. O Dito Pedro, o Anísio Bernardo, o Severino Domingues, o Antonio Galvão e outros. Catira também tinha. O Inácio Camargo ensinava catira para as crianças.

E o cinema? Foi construído por volta de 1942, graças à vitória do time de Iperó num campeonato de futebol. O time daqui venceu o Ferroviário de Botucatu e foi campeão da Sorocabana. Foi o Emílio “banqueiro” que, falando em nome do povo que comemorava a vitória, teria pedido à direção da estrada de ferro a construção do cinema.

Lembro da inauguração, mas não me lembro do filme que passou. O primeiro presidente do clube foi o Epitácio Figueiredo. Precisava levar cadeira para o cinema. Eu sentava no chão e só passava faroeste. Depois foi melhorando. Os bailes eram animados, mas vinha pouca gente. Tinha um conjunto que tocava e era o Castidório que ficava à frente dos músicos.

A banda de Iperó foi formada na mesma época do cinema. Veio o Ernestinho, o Candota, o Bruninho, o Zibi, os Pigico e diversos músicos. Depois, ganhamos o campo de futebol, quando o dr. Ruy da Costa Rodrigues, diretor da Estrada de Ferro Sorocabana, comprou o terreno do sr. Luiz Rossi para construir o campo. Quem coordenou a construção foi o Horácio Hugo de Moura. Até então, o campo era no lugar onde hoje é a escola Gaspar, e pertencia ao Samuel Domingues.

O time de futebol em Iperó, desde essa época em que eu conheci (1940) até por volta de 1970, era “barbaridade”. Era futebol de verdade. Agora não tem mais nada. Na época, o pessoal jogava bem e o time de Iperó era um dos mais procurados para jogar. Fomos jogar em Jacarezinho, Itararé, Bernardino de Campos, Assis, Itapetininga, Buri. A banda ia acompanhando. Eram dezoito, vinte músicos que iam junto. Todos iam de trem. Naquele tempo, o Moura arrumava o trem para o time e a banda. O Bertolli também foi um grande esportista de Iperó. Como jogador e como amigo da cidade. O que ele precisava, o povo ajudava.

Lembro um pouco do comércio da época. No lugar onde o Bibe tinha a venda, era o comércio do Chiquinho “caixeiro”. E onde tinha o Calil, pertencia a um turco chamado Thomé, Emílio Thomé. A mulher dele chamava-se Dalila. Mais para frente tinha a venda do Guinho Guazelli. Na esquina de baixo, havia a venda do José Pereira Capitão. E lá embaixo, havia outra venda, que pertencia a Benedito Vaz. Ali perto havia a igreja Congregação Cristã, a casa da Maria Mota e a sapataria do Custódio. Subindo a rua, onde depois foi a loja do Benedito, havia uma casa de tábuas que foi do Durvalino Pereira. Quando o Benedito comprou ali, ele desmanchou e construiu o prédio.

Pouco antes disso, o Benedito havia montado uma loja com o Francisco Killian. Aí eles terminaram a sociedade e o Benedito continuou com a loja. Depois vinha o Salim Elias e o Luiz “barbeiro” (sogro do Telo). O sr. Campos morava em Boituva e trabalhava no bar da estação de lá. Depois, um sujeito chamado “Areia”, que tomava conta do restaurante, conseguiu negociar para que a família Campos viesse para cá. A primeira padaria daqui de Iperó foi do Altamiro Gastão, onde depois foi a padaria do Salomão, vizinho do Calil. O Luís Ramos veio bem depois. O primeiro açougue foi de Juvenal Machado e do Benedito Vaz. Depois, passou para o Leon Pedro Jacques. Teve também o açougue do José Piva, um italiano.

Lembro também do Gaguinho, que tinha um bar em frente à igreja. Ele era soldado. Lembro que ia buscar as crianças que faltavam na escola. Quando ele chegou, eu já era adulto. Então, não chegou a ir me buscar para ir à escola, não.

Tinha a cadeia, que era “grudada” com o Agenor “barbeiro”, onde trabalhava o Luiz “soldado”. Quem mandava aqui, no início, era o Durvalino Pereira. Tinha o Samuel Domingues também, mas ele nunca foi político.

Meu primeiro emprego foi na Sorocabana. Entrei em primeiro de maio de 1945. Trabalhei no depósito de lenha, onde ficavam as máquinas a fogo. Aposentei em primeiro de julho de 1976, na Bela Vista. Quando eu aposentei, era o Pedrinho Albieri quem estava lá. Antes dele, era o José de Moraes. Eu trabalhava como pedreiro e ajudei a construir aquelas casas onde moravam os engenheiros, o Dito Góes e outros funcionários. Tinha bastante empregados lá naquela época. Ainda não havia escola. A primeira escola da Bela Vista foi construída próxima à usina. Era a escola e a igreja.

Na política, quem mandava aqui em Iperó era o PRP e os “camisas verdes” (integralistas). Era a turma dos Ribeiro quem mandava, parentes do Rafael Caetano. Joaquim Ribeiro e Manoel Ribeiro eram “camisas verdes”. O Paco Gutierrez também. Lembro também que quando acabou a guerra, precisávamos de salvo-conduto para andar de trem. Houve racionamento de óleo, querosene, açúcar, sal e farinha de trigo.

Na minha época havia muitos benzedeiros. Lembro do Joaquim “flor” que morava no sítio, da Efigênia “preta” que morava para baixo da linha e da Valdomira que morava nos fundos da escola Gaspar. E o Nicola? Ele não foi benzedor, foi cigano. E a mulher dele, dona Augusta, também não benzia. Havia também as parteiras. A dona Aurora Redini foi uma das primeiras parteiras. Tinha a dona Maria do sr. Sanches. Depois, veio a dona Isaura. Mas a primeira parteira, de fato, foi a dona Clarinha, mãe do Zibi.

Aqui também teve muita assombração. Tem muita história. Lembro que na revolução de 1932, havia um cabo da polícia, chamado Sodré, que se matou numa capelinha que existia no lugar onde hoje é a loja Nabas. Era a capela de Santa Cruz. Ele se enforcou e a violência do enforcamento foi tão grande que chegou a arrancar a cabeça dele. Então, a gente era criança ainda e morria de medo de passar ali perto. Ficávamos imaginando o homem sem cabeça e um cavalo sem cabeça vindo nos pegar. O cemitério era feio também. Dava medo. Era só uns paus cercando e arame caindo. O pessoal daqui, quando morria, era enterrado em Boituva ou Tatuí.

Também me lembro dos tropeiros que passavam por aqui. Passavam próximo à Bela Vista, vinham no sentido do cemitério e saíam em Bacaetava. Havia trilhas por onde eles seguiam rumo a Sorocaba. Ele paravam próximo aos “Paulas” para descansar e alimentar os animais. Aí, houve um ano em que aconteceu uma grande enchente. A ponte “rodou” e os tropeiros não vieram mais.