“Roque Eid”

Roque Eid
Roque Eid, uma amizade duradoura.

Augusto Daniel Pavon

Os tempos efetivamente são outros. Não quero entrar no mérito da questão afirmando que aquele foi melhor que este ou vice-versa. Aqueles não eram tempos de “descartáveis”. Eram tempos em que amores e amizades ficavam. Cada casal no seu canto, mas com pequenas diferenças, fomos feitos muito próximos, como extensão de outras vidas e de amizades que, de duradouras, talvez incompletas, ficamos juntos novamente nessa existência para, talvez completarmos o ciclo. O Roque e eu nascemos vizinhos, crescemos vizinhos, fomos vizinhos de carteira, daquelas que sentávamos juntos, com um tinteiro nos separando. O Roque sempre foi um menino educado. Me lembro que ele não cutucava o nariz e também não tirava cascas de feridas. Como eu era vizinho, com a ponta de um compasso, tirava as minhas e as dele.

Houve um circo que deixou muita saudade, e tinha um palhaço chamado Tareco. Quando foi embora, sob um grande abacateiro que existia no quintal de minha casa, surgiu o Roque como o verdadeiro Tareco, num “cirquinho” cuja entrada era um palito de fósforo e que tinha também como atores as minhas primas Rosa, Ana e eu. Mas ninguém era tão bom como o Roque, pois transmitir alegria e fazer rir sempre foi uma arte dominada por ele. É um ser definitivamente iluminado. Penso que nunca estivemos separados em espírito.

Uma época estivemos juntos em Sorocaba fazendo admissão ao ginásio e primeira série, no ginásio Anchieta, na Penha, juntos também na mesma carteira. Não estudamos, é verdade. Começamos datilografia numa escola famosa em Sorocaba, Escola de Datilografia São Paulo, na Penha em frente à Drogasil. Também não concluímos. Fomos reprovados no ginásio, porque havíamos determinado que se as aulas terminavam às 16h, nesse horário já deveríamos estar em Iperó para fazermos nossa maior paixão: jogar futebol. Seu Calil, nessa ocasião, penso, era diretor de futebol. Então começávamos na rua Porfírio, em frente às nossas casas, com bolas que sobravam, pois eram guardadas na casa do Roque, nº 5 capotão, com gomos, oficiais, do clube, escondidos do pai dele. Íamos depois ao clube e dessa vez a Dordaia não nos atormentava. Escurecia com o sol caindo lá pelos lados do “varjão”, pra nossa tristeza, e nós jogando bola.

Já disse que só não fui um bom jogador porque não tinha o dom. O Roque jogava muito mais que eu, mas nós dois continuávamos perdendo pro Tanaka, que nasceu com o dom. Quando dava, vínhamos de Sorocaba com o trem de luxo das 14h30, ou ficávamos implorando pros chefes de trem nos deixarem ir com eles no “caboso”, que era o último vagão de um trem de cargas, onde ficavam o chefe do trem e seu auxiliar. Ainda hoje eu os acho muito lindos. Me lembro que numa ocasião, com a negativa do chefe – 1960 – o “Tucano”, apelido do Roque graças ao tamanho do seu “nazo”, deu a ideia de entrarmos em um vagão, escondidos, sem que o chefe nos visse.

Abriríamos a porta, entraríamos e em seguida, lá dentro, fechados, iríamos à Iperó. No corte, aquele enorme barranco por onde os trens iniciavam a chegada a estação e diminuíam a velocidade, pularíamos. Era assim mesmo que acontecia, pois havia antecedente de outra pessoa, o Mauro Folim. Assim fizemos. Roque, Kiko e eu. Aguardamos fechados e quietos. O trem apitou e partiu. Portas fechadas até que saíssemos da cidade. Mais a frente ele parou, ficamos temerosos, ele veio “de fasto”, como falávamos. Passou um tempo, fomos abrindo lentamente, e então vimos o seguinte: o trem deu ré e estacionou no pátio, em Sorocaba, onde ficaria por um longo tempo. Fomos, com cara de “cocô”, descendo um a um e frustadíssimos voltamos à estação.

Fomos reprovados naquele ano, mas foi um grande ano, tenho certeza, pensávamos os três. Fomos para lugares diferentes. O Roque fez Industrial em Tatuí, o Kiko e o Tanaka foram pro Mario Vercellino em Boituva e eu para o Ciências e Letras em Sorocaba, no largo São Bento. Nunca nos separamos. Em espírito sempre estaremos juntos, pois nossa missão é, talvez, darmos continuidade a uma amizade que não se completou em algum lugar do passado. Eu amo esse povo. O Roque se situa entre as pessoas mais decentes que conheci em minha vida. Tenho muito orgulho de falar dele. Um beijo, meu amigo!

 

José Aparecido de Moraes – Tanaka

Ver exteriorizado de forma pública esse gesto de altruísmo, de solidariedade pessoal, enfim de humanismo, de humanidade, na melhor acepção da palavra, no seu mais alto grau, como o fazem os queridos amigos, ou melhor, mais do que amigos, irmãos de coração, sem dúvidas não tem como retribuir o carinho recebido por mais que nos esforcemos para ao menos o igualar e, nem palavra para ao menos chegar perto.

Esse sentimento de amor, de amizade, só pode vir mesmo de pessoas com alma nobre, com espiritualidade incomparável, inigualável, como o são estas que nos cruzam o caminho. E, por isso, sou uma pessoa privilegiada por vocês terem-me no rol de suas mais que amizades.

O Augusto é incomparável, para não dizer invejável, nessa sua maneira de expor, exteriorizar, de reduzir a termo as suas inteligentes retratações, de intelectualizar de forma ímpar as suas colocações das reminiscências para recordarmos com muito sentimento tudo isso, sentimento este que vem lá de dentro da alma. E isso, na altura desta nossa jornada, nos reconforta com tanta intensidade que nos anima a enfrentar, a seguir, sempre com mais e mais vigor o que nos espera adiante.

Apenas para recordar de mais uma das muitas imitações do meu primo Roque e acentuar ainda mais esse seu outro lado da sua personalidade, tem a que ele fazia do Mazzaropi. Eu e a minha prima Cida, lá na cozinha ou na sala da sua casa, ríamos tanto dos seus trejeitos imitando o dito cujo, que chegava a doer a barriga das incontroláveis gargalhadas sem parar que dávamos. Era de perder o fôlego. Olha, acho que nem mesmo um profissional do humorismo conseguiria imitar com tanta perfeição como ele o fazia. Um talento nato na arte de imitação. E concordo em gênero, número e grau, assino embaixo tudo o que o Augusto falou do ser humano que ele é.