Rota dos tropeiros atravessava Iperó

Tropeiros. (Imagem da internet - Mundo Estranho)

A descoberta do ouro em Minas Gerais promoveu a expansão da mineração. Foi preciso aumentar a capacidade de transporte e torná-la mais eficiente. Os muares encontrados no sul passaram a chamar a atenção dos paulistas e iniciou-se o transporte desses animais para a venda nas áreas das minas. O tropeiro contribuiu para a integração nacional ao transportar riquezas entre as regiões do Brasil.

O transporte de animais e cargas aparece em várias partes do país, mas conquistou grandes proporções no caminho entre Viamão e Sorocaba. A região de Sorocaba deu um salto em desenvolvimento econômico e cultural graças aos tropeiros, que desbravaram os campos, abriram caminhos, transportaram materiais diversos e produziram cultura e folclore. Em 1733, quando a primeira comitiva de muares entrou pelas ruas de Sorocaba, selou-se o destino da cidade que se transformaria na “capital do tropeirismo” e cresceria bastante ao longo de mais de 150 anos.

Apesar de ser o ponto central nesse ciclo, Sorocaba não tinha estrutura para suportar a demanda, o que se agravou após a criação da “Feira de Muares” que era realizada anualmente. As tropas precisavam buscar abrigo ao redor da cidade, principalmente no entorno do morro Araçoiaba, nos núcleos surgidos a partir das atividades nas jazidas de ferro. Esses locais se tornaram importantes entroncamentos dos tropeiros e os caminhos percorridos se incorporaram à malha urbana no decorrer dos anos.

Iperó está numa dessas rotas, aquela que se dirigia de Botucatu a Sorocaba e passava por Tatuí. De Tatuí a Sorocaba já existiam picadas por onde as tropas arreadas (transportando mercadorias) transitavam. O jornalista Ivan Camargo escreve que “os tropeiros costumavam ir de Sorocaba até o ‘estabelecimento montanístico’, no morro Ipanema, e dali, seguiam pela trilha ‘Vai e vem’, margeando um ribeirão que viria a ser conhecido como “Manduca”, até atingirem o povoamento de Tatuí, que começava a ganhar corpo na segunda década do século XIX. A primeira estrada aberta em Tatuí foi a chamada ‘Vai e vem’, que ligava o povoamento à Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema.” (CAMARGO, 2008)

Esse antigo caminho entre Tatuí e Ipanema era formado por grandes sesmarias para a criação de gado. Não houve construtores, pois não se fazia estradas naquela época. Os fazendeiros e peões abriam picadas e o chão se firmava conforme o gado pisoteava. Pedro Antunes de Oliveira, iperoense e descendente de tropeiros, conta que as tropas atravessavam o rio Sarapuí na região do bairro Guarapiranga, percorriam o Sapetuba e se dirigiam a Bacaetava e Ipanema antes de chegar a Sorocaba. “Depois que atravessavam o rio Sarapuí, já na área atual de Iperó, seguindo a estrada havia a venda do ‘João do padre’ e do Inácio Américo. Cheguei a conhecer tropeiros que negociavam mulas e passavam pelas fazendas da região, mas os que transportavam cargas não são do meu tempo. Toda a Iperó de hoje tinha terras que serviam para a criação de gado, cavalo, burros e cabras. A agricultura era muito fraca ainda. Havia estradas que vinham de Tatuí e de Boituva e se juntavam numa encruzilhada pouco antes de Bacaetava. Ali havia a venda do Ezequiel Ribeiro, que era bastante movimentada, e também uma antiga capela.”

Bacaetava foi uma das localidades mais beneficiadas e passou a lucrar com as ações do tropeirismo. Tropeiros vindos de Botucatu se encontravam com os tropeiros vindos do sul. Na região, juntamente com Capela do Alto e Campo Largo (hoje Araçoiaba da Serra), havia condições favoráveis para que as comitivas armassem os “faxinais”, que eram grandes espaços utilizados para o descanso e o tratamento dos animais. Olarias, ferrarias, atividades mineradoras e madeireiras. Ali surgiu um comércio onde se negociava um pouco de tudo.

Outra região importante nesse período foi o “bairro do Iperó”, existente desde o século XVII. Esse Iperó (entre Bacaetava, o morro Araçoiaba e os atuais municípios de Capela do Alto e Araçoiaba da Serra), conhecido hoje como “Iperozinho”, contribuiu bastante para o desenvolvimento da Sorocaba primitiva.

Paralelamente ao tropeirismo, a criação da Real Fábrica de Ferro também provocou uma alteração na demografia da região. Conforme escreveu Aluísio de Almeida, “o outro lado do Araçoiaba estava estourando de tanta gente e ainda tinha algum mato. Em 1811, o governo e os acionistas compraram por 800 mil réis três quartos de légua de terras do morro. Não mexeram com o fazendeiro rico Francisco Feliciano de Oliveira Rosa, dono da fazenda que fora de Almeida Leme e capela de São Sebastião, rio Sorocaba adiante, mas desapropriaram 100 proprietários, herdeiros ou adquirentes de antiga sesmaria e que apresentaram suas escrituras. O comprimento ou sertão era uma légua. A testada, algumas braças, tudo isso obrigou as famílias a saírem. Gente pobre, vivia de uma rocinha, talvez cercada de varas num total indiviso.” (ALMEIDA, 1967)

Não é difícil imaginar que esses 100 desapropriados, juntamente com a suas famílias, tenham se dividido e ido para áreas vizinhas que representam principalmente as atuais Araçoiaba da Serra, Capela do Alto, Boituva, Iperó e Tatuí. No fim do século XIX, após o fim da “Feira de Muares” de Sorocaba e o declínio da Real Fábrica de Ferro de Ipanema, esses povoados continuaram desenvolvendo suas atividades sociais e econômicas. Nessa fase, ex-escravos, agropecuaristas, ex-mineiros e ex-técnicos ligados à Real Fábrica de Ferro também se juntaram a esses núcleos.

O fim do tropeirismo praticamente coincidiu com o início da ferrovia. A Estrada de Ferro Sorocabana inaugurou a estação de Bacaetava em 1880 e rumou para o oeste. A presença do trem acelerou o progresso da vila, que em pouco tempo passou a contar com hotel, cartório e agência de correios. Nessa mesma época chegaram muitas famílias de imigrantes, sendo italianos na maior parte, que se instalaram no entorno de Ipanema, como em Bacaetava e Villeta (atual George Oetterer).

Pedro Antunes de Oliveira – descendente de tropeiros e conhecedor de parte importante da história de Iperó (José Roberto Moraga Ramos)

 

Após uma entrevista, o senhor Pedro nos levou até o local onde existia uma ponte por onde passavam os tropeiros (José Roberto Moraga Ramos)

 

Rio Sarapuí – no local existia uma ponte por onde passavam os tropeiros. À esquerda, Tatuí. À direita, Iperó (José Roberto Moraga Ramos)

 

Tropeada – anualmente é refeito o caminho das tropas, entre Itararé e Sorocaba, passando por Iperó (Prefeitura Municipal de Iperó)

 

Desfile de cavaleiros – evento anual recorda as tradições tropeiras (Hugo Augusto Rodrigues)

 

Desfile de cavaleiros – evento anual recorda as tradições tropeiras.
(Hugo Augusto Rodrigues)