“Saudade dos tempos que passaram”

Saudade
Antiga igreja matriz e praça com o segundo coreto. (Arquivo Hugo Augusto Rodrigues)

Silvana Mello

Saudade das rodas nas praças, das cantigas de violão, das amizades sinceras, da bondade, da ingenuidade, dos delicados da venda do japonês da rua Porfírio de Almeida, dos vagões de trem, da queimada no meio da rua, de ficar horas deitada no meio da rua olhando para o céu. Tudo bem, pois quase nem existia carros naquela época. Saudades da cabra cega, do esconde-esconde, das brincadeiras de roda cantada, dos pães caseiros, dos bolos, dos doces de abóbora com côco e leite, doce de mamão verde, doce de cidra e de laranja. Hum, como isso tudo era bom!!!

Que saudades dos charutinhos de folha de uva da vó Floriza. Ainda consigo sentir o cheiro das folhas novas que meu avô Vicente colhia para ela. Saudades do pé de manga que ele gostava. Aliás, ele gostava de todos os pés de frutas do quintal. Claro que sem esquecer o meu lindo pé de pitanga: esse carrego comigo…

Que saudade, saudade de tudo que a linda infância me deu. Trago vivo isso na memória. Acho que relembrar é viver e este site traz vivas as mais belas lembranças da minha terra querida, a minha doce e eterna Iperó.

Vivi muito feliz em Iperó, nem sei se posso dizer assim. É que no escrever, acho que tudo se torna verso, poema ou crônica, depende de quem é o critico, ou quem assim se interpreta. Como se por um instante subitamente ou incondicionalmente achasse que essa elegância de frases poderia se revelar dentro do contexto da situação acima, não por condição literária, mas pelo encanto que sinto em descrever um pouco dessa beleza, é que as vezes extrapolo na questão da escrita, mas também tenho muito receio da minha gafe.

Pois quem lê sem ter vivido a doce Iperó, fica longe da ideia do escritor (todos somos escritores). Quem não viveu, sempre acaba se identificando com algumas frases que talvez tragam a lembrança da terra Natal. Mas, continuando, confesso que vivi esta história toda de “Iperó” e é engraçado, pois sempre me pego olhando este site e os trechos desta história em que todos têm o direito de dar continuação, de mantê-la viva.

Este site nos faz sentir convidados de honra, e que honra é também ver os convidados deste site chegando, se expressando com frases, lembranças, saudades, agradecimentos, alguns tímidos com muita discrição, outros mais arrojados, ousados e outros intelectuais.

E eu assim, sem saber escrever tão bem, mas como diz o Patativa do Assaré, acho melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada. E assim a gente vai deixando um pouco de nós, vendo um pouco dos outros com uma espiadinha aqui e outra ali na historia de Iperó, mas alimentando-a com este amor que temos por ela.

 

Augusto Daniel Pavon

Nós todos temos memória (os véio qui nem eu já estão perdendo). Nossa memória envolve fatos que tiveram significado (um perfume, uma música, um instante, uma rua, uma sala, um filme, uma conversa – como muitas que tivemos e ouvimos junto ao Orlando de Mello -, uma dança, uma conversa ao pé do ouvido durante um bolero cantado pelo Ary Araújo num baile, enfim). Antigos ou novos, temos nossas lembranças. Mudam os atores, mas o palco, Iperó, é o mesmo. Peço que “de quarqué manera”, com sofisticação ou sem, com erros de português ou sem, escrevamos. Nosso objetivo é, com o “rodar da carruagem”, deixarmos uma história, a história de cada um, que reflita a nossa cidade sob a nossa visão, sob a nossa perspectiva. Somos atores, nosso palco é Iperó.

 

Silvana Mello

Olá, Augusto. Realmente, você tem razão. A história tem que ser lembrada, registrada. Vou deixar um pedaço da minha memória aqui. Bem, morava na rua Porfírio de Almeida, vizinha do senhor Lucas e Benedita Figueiredo (do lado direito) e do lado esquerdo o senhor Horácio e Maria Figueiredo. Em frente à minha casa havia um imenso pomar lotadinho de frutas que pertencia ao senhor Vital e Julieta, a avó da Leinha. Ali tinha uma fartura de mexerica, coisa linda mesmo. Sempre brincávamos, eu, minha irmã Solange, a Léa, o Vitalzinho, às vezes o Beto (filho da dona Maria Figueiredo) e o Watson .

Porém, quando minhas primas vinham de São Paulo, da família Salmasi, acho ou tenho a impressão que brigávamos e não podíamos ir lá. Só que minhas primas ficavam querendo ir. Éramos todas pequenas e queríamos mexerica. Lembro que até fizemos algumas músicas sobre as frutas. Bem, era tudo engraçado. Essas manias de criança. Mas me lembro que sempre brincava com a Giselma Holtz, a Valdery e a Valéria Lourenço, a Terezinha e a Rosana do senhor Olavo. Na rua também tinha a Denise e o Adilson, eram tantas as crianças, mas era tudo muito bom.

Lembro da fábrica de arroz, da palha, o barulhão que aquilo fazia. Às vezes brincávamos lá. Me lembro do Pixinho, que era vizinho da fábrica, a família Prata, a Tânia e a Maria que também moravam por ali. Olha, eu lembro que eles eram mais velhos. Lembro que sempre ia pedir vidrinho de esmalte para a Ivone do senhor Dito Bom e para a Bete, filha da dona Maria. Nossa, tem muita história…

 

Augusto Daniel Pavon

É isso. É bem isso. Era, e com certeza ainda é, uma bela família. Conheci a todos. O que eu tinha mais contato era o Celoni, mas conheci um tio seu, casado com uma Sartorelli, penso eu já falecida. Também conheci outro tio casado com a Cila Calixto e conheci sua mãe, uma das moças mais bonitas de Iperó. Mas queria lhe contar uma façanha de seu avô, seu Perez, dono da primeira campainha da nossa Iperó, campainha dessas que substituíram as “palmas”. Havia um pequeno quintal em frente à casa dele, essa que você acabou de citar. Era um jardim. Bem, ele instalou a campainha numa ripa, dessas de madeira, fincada no meio do jardim. Significa que qualquer indivíduo que resolvesse tocar a campainha teria que entrar no quintal. Mas, não bastasse isso, ele soltou um cachorro que se não mordia, pelo menos fazia um barulho infernal. Nós, bons meninos, questionávamos duas coisas:

1 – pra que serve uma campainha se não podemos apertá-la e introduzir um palitinho do lado e deixá-la tocando sem parar e o dono furioso?

2 – pra que uma campainha se o cachorro já resolve a questão?

Penso hoje que ele queria preservar a campainha, visto ser ela “A Primeira da Cidade”. Viu que historinha legal do vovô?

 

Tabajara Moraes

O Augusto lembrou muito bem da campainha do sr. Vicente Perez. Só faltou dizer que abaixo do beiral da casa, em lugar bem visível, existia uma luz vermelha que acendia ao mais leve toque na campainha. Isso aguçava nossa curiosidade. Aliás, o sr. Perez era um exímio artesão. Possuía uma oficina completa no quintal, onde materializava sua ideias, sempre engenhosas. Era mestre, também, na arte de produzir enxertos em plantas. Seus vasos de flor de maio eram de encher os olhos. Sabia, ainda, como ninguém, preparar com água da chuva que cuidadosamente coletava, por ser naturalmente destilada, deliciosos licores com extratos de plantas que ele mesmo produzia. Só que a receita ele não dava nem por decreto. Grande figura. Deixou saudades. Foi casado com uma prima de minha mãe.