“Sebastião Senna”

Sebastião Senna
Sebastião Senna, bastante estimado na cidade.

Ubirajara Moraes

Recordo-me do saudoso sr. Sebastião, na noite em que foi anunciada a vitória do então candidato à Presidência da República, Juscelino Kubitschek, na vila do Depósito, onde morávamos. Naquele tempo, a contagem manual era demorada. A eleição ocorreu no dia 03/10/55 e a contagem final se deu muitos dias após. Em casa, já tarde da noite, só eu e minha tia estávamos acordados, quando começamos ouvir os rojões que foram ao ar em comemoração, lançados pelo saudoso sr. Sebastião.

 

Augusto Daniel Pavon

Que lembrança do Ubirajara! Muito bonita! Época em que as pessoas, quando estudavam, no máximo faziam o “primário”. Tinham um compromisso: trabalhar para que os filhos pudessem estudar. E trabalhavam como “gigantes”. Getúlio foi ditador muitos anos e, nesses anos, o “clima” não era dos mais leves. Havia uma mistura de temor e incertezas com relação ao governo, que se instalou na capital do país – Rio de Janeiro -, lá colocado após uma revolução civil. Até quando fui embora pra São Paulo, 1969, sobre um rádio antigo de meu avô, ficava um porta retratos, oval, pequeno, bonito, com a foto do “velho”, que quase todos os brasileiros de uma maneira ou outra, guardavam uma.

Bem, as pessoas, naquela Iperó dos anos 50, pouco estudavam. Já citei que não o faziam, pois precisavam trabalhar e ganhar dinheiro pra criar seus filhos. Mas tinham uma profunda noção de brasilidade. Eram patriotas. Em 1954, Getúlio já um presidente eleito, depois de longos anos como ditador, e em conflito com o Congresso, suicidou-se no “Palácio do Catete”, então sede do governo. Eu com seis anos, lembro-me da comoção nacional, afinal o temor dos primeiros anos da ditadura tornou-se respeito, até amor.

Iperó, com seus 3 mil ou 4 mil habitantes, não esteve alheia a isso. A tristeza também atingiu os nossos adultos. Todos arrasados. Já havia a tristeza pela perda do campeonato do mundo de 1950 na inauguração do Maracanã. Some-se a isso a morte de Chico Alves, “A voz de Ouro”, o maior cantor do Brasil, voz maravilhosa, cantando sobre carrocerias de caminhões no “gogó”, sem microfones.

Assumiu então, após a morte de Getúlio, seu vice Café Filho. Na minha criancice, eu achava muito engraçado o nome Café, como achava o do Zagallo que me soava como Zé Galo. Café Filho ficou no governo até o final dos ano de 55. Juscelino, eleito em 03/10/55, provocou também uma esperança e euforia muito grande na cidade e o nosso povo de então, na sua humildade, simplicidade, tinha noção política, entendia a importância de um voto. Os contava um a um, de ouvido grudado nos velhos rádios e, como seu Sebastião Senna, vibrou e disparou fogos por um Brasil melhor. Decididamente, mostravam que para serem brasileiros, não precisavam de faculdade, mas sim de dignidade, um tanto quanto escassa hoje em dia. Parabéns pela lembrança, Ubirajara.