“Semana Santa em Iperó”

Semana Santa em Iperó
Via Sacra. (Imagem da internet - Divina Misericórida)

Augusto Daniel Pavon

Uma sexta, sábado e domingo da Semana Santa na terrinha, na segunda metade da década de 50. Se aqueles tempos eram melhores ou piores, que julgue quem os viveu. Quem não o fez, fique com o que está. Amanhecíamos na sexta com o rádio coberto (televisão não havia), falando pouco e baixo. Não se comia carne, não saíamos de casa, não havia brincadeiras, futebol, brigas entre as crianças, nada que nos expusesse ao “Diabo”. Nós o temíamos naqueles tempos. Ele ainda está aí, mais ativo que nunca, mais feroz, só que não se acredita nele. Porém, os velhos estavam corretos: ele existe. E naqueles dias “estava solto”, como diziam, porque o Senhor estava “morto”. Então, todo o cuidado era necessário.

A tristeza, o clima pesado se instalava na pequena Iperó daqueles anos, com seu 4 mil ou 5 mil habitantes. Muito linda! Na capela de Santo Antônio, não éramos paróquia, todos os santos cobertos de roxo. Julgo eu que até os paramentos do sacerdote eram roxos. À noite, senhoras com véu negro e virgens com véu branco (naqueles tempos as mulheres ainda não casadas usavam véu branco e eram “Filhas de Maria”; as senhoras com véu negro eram do “Sagrado Coração”). Acho que hoje as “Filhas de Maria” acabaram, né? “Ou tô inganadu?” Bem, voltemos à procissão.

Saía à noite num clima de acompanhamento de féretro e o era o simbolismo do caminho do Senhor até a sua morte. 1º estação, condenação. 2º estação, carregando a cruz. 3º estação, Jesus cai pela primeira vez. 4º estação, Jesus encontra sua Mãe. 5º estação, Simão Cirineu – sempre pensei que fosse seu nome, mas “Cirineu” faz referência ao lugar de onde veio – ajuda a Jesus. 6º estação, Verônica enxuga ao suor e sangue de Jesus.

Essa estação muito me comovia, porque o canto faria chorar até em dia de festa, como velório em crematório, antes da cremação “of course”. Você fica de frente à família, num anfiteatro circular, que por sua vez se vê obrigada a chorar, pois todos os olhares se voltam para eles, e vem uma música, que sem defunto e até sem morto você chora. Então o choro é coletivo. A Verônica, uma moçoila vestida de preto, com véu escuro, se dirige a Jesus, uma pessoa que fazia esse “papel”, e o enxugava, deixando a imagem de sua face em vermelho impressa na toalha. Criança ainda, e juntamente com os adultos, chorei muitas vezes. Ainda hoje acho isso muito bonito.

7º estação, Jesus cai pela segunda vez. 8º estação, Jesus consola as mulheres que o acompanhavam e sempre estiveram com Ele, desempenhando o papel que até hoje desempenham. O mais importante. 9º estação, Jesus cai pela terceira vez. 10º estação, Jesus é despido de suas vestes. 11º estação, Jesus é pregado na Cruz. 12º estação, Jesus morre. 13º estação, Jesus é descido da Cruz. 14º estação, Jesus é sepultado. 15º estação, Jesus ressuscita, motivo pelo qual somos cristãos e é devido a isso que essa é a festa máxima do cristianismo.

Vocês pensam que eu sei tudo isso? Não. Quem me contou foi a Cida, minha mãe. Na madrugada do sábado, com o Diabo ainda solto, vinham as safadezas, que era para dizer serem coisas do capeta. Variavam as pessoas conforme as datas. Dimas, Telo e outros numa data, Said e outros em outra data. Traziam a carroça do seu Pinto, carroça da coleta do lixo na cidade, desde onde hoje é o mercado do Waldir, até o fim da rua Santo Antonio, quebrada no varal (pra quem sabe o que é o varal), como se ela tivesse descido sozinha lá de cima.

Davam nó nas crinas dos cavalos e isso já era sabido que nessa época era coisa do demônio. Quebravam plantas jogando vasos, vidros, portões batiam, animais eram soltos, etc. Isso assustava e muito. Jesus morto, Diabo solto. Mas, como vimos, “os tentados eram sempre os mesmos, trocando a idade conforme a época”.

Meio dia de sábado, a festa era comemorada sempre no mesmo lugar: PORFÍRIO DE ALMEIDA. Num poste na beirada da calçada entre a minha casa e a barbearia do Agenor (grande Agenor!), a cidade, crianças e também alguns adultos, malhávamos um Judas muito bem feito, no capricho, não sei por quem. Tradição, tradição. Finalmente, naquele tempo, Jesus ressuscitava no sábado e vinha o “Baile da Aleluia”, que como todos os bailes da cidade, era um “puta” baile. E viva, com a minha Porfírio, IPERÓ!