“Sobre o Natal”

Natal em Iperó. (Arquivo Prefeitura de Iperó)

Augusto Daniel Pavon

1 – Houve um tempo em que presentes tinham datas certas. Aniversário e Natal. Na realidade era o Natal, aquela data mágica, esperada por um tempo bem mais longo (se compararmos com a rapidez com que vai e volta nos tempos atuais), a data de muitos presentes. As pessoas estavam mais abertas, mais alegres, todos aguardando o “velhinho”. Nós, as crianças, pelos motivos óbvios, e os adultos porque “tinham” que não acreditar na figura que transportava sonhos. E isso era uma condição, triste, para se tornar adulto.

Uma semana antes, meu avô (Augusto) fez uma gruta de cimento sobre uma estrutura que serviu de molde, não me lembro bem, muitos papéis amassados, concentrados. Depois de seco tornou-se a gruta onde Jesus nasceu. Fomos, ele e eu, à biquinha, próxima à última casa do barranco (subindo o escadão à esquerda, mas lá embaixo, onde havia uma pequena floresta, pois era para o meu tamanho uma floresta, íamos descendo em direção à linha e chegávamos na bica), para conseguirmos aquele limbo verde, espesso que se formava nos lugares úmidos, sem sol, onde as pessoas não pisavam tanto. Estava arrumado o chão, a grama do nosso presépio. Um pedaço de espelho com as bordas recobertas por areia formava uma lago onde eram colocados alguns patinhos. Completava-se com a mesma areia o caminho à gruta. Maria, José, os reis magos, a vaquinha e o burrinho já podiam entrar em cena. Talvez uma pequena lâmpada vermelha acesa à noite, uma estrela sobre a parte mais alta da gruta guiaria os reis.

Esse maravilhoso presépio, o clima no preparo do almoço (frangos, aliás um só para meu avô, leitoa, macarronada, salada, taubaína do Moreno de Tatuí, ou do Schincariol de Boituva) e muita gente sentada à mesa. Nós éramos oito (meu avô, Augusto, minha avó, Alice, meu pai, Olímpio, minha mãe, Cida, tio Lazinho, tia Inez, prima Sônia) e mais umas seis pessoas. Isso era demais, tudo era maravilhoso na minha Iperó do final dos anos 50. Ia me esquecendo que esse almoço havia sido precedido pela “Missa do Galo”. O presente era muito bom, mas nada importante se comparado ao clima maravilhoso que antecedeu a tudo, uma imensa alegria para os meus 10 anos.

 

2 – Três tipos de sentimentos se apresentam a nós quando vamos envelhecendo e se aproxima o Natal. A alegria da festa, das luzes, das músicas, das compras, das pessoas com as quais estamos juntos (ou conseguimos nos comunicar), das comidas e dos vinhos (Ah, os vinhos!!), da troca de presentes, enfim, este é um sentimento; e muito bom!

Há o segundo, aquele que é impossível não irmos ao encontro dele. Nós vamos a ele. É o bom/triste, nostálgico, que nos traz o passado (infância/juventude), quando por nada nos responsabilizávamos. Éramos soltos. Vivíamos em nossa pequena Iperó, tínhamos ao nosso lado todos os adultos que amávamos e que nos protegiam, tínhamos o presente que havíamos pedido e, naqueles tempos, ganhávamos dois por ano: aniversário e Natal.

Tínhamos a roupa nova, as visitas que invariavelmente iam chegando e eram muito bem-vindas, as comidas que minha vó ia preparando, o presépio e a árvore de Natal que já estavam preparadas. Um clima que antecedia ao Natal, que nos deixava maravilhados. Às vezes havia a “Missa do Galo”, não sempre. Essa missa era muito bonita. Manhã de 25 estávamos em “estado de graça” e nossa Iperó com suas ruas de terra, poeirentas, quando não lamacentas, ficava com ares de cidade grande, tão linda era. As pessoas, parentes queridos e não parentes (um andarilho surdo-mudo que adotamos e que no fim não era nem surdo e nem mudo), todas em volta da mesa, falatório, gritos, como bons descendentes de italianos.

Meu presente que me encantava. “Sialembro” que um Natal, após o almoço, descemos, meu pai, Olímpio, meu tio, Lázaro, e eu, ao rio Sorocaba, na “ponte de terra”, a velha ponte. Não a ponte de ferro, que ainda existe. Havia chovido muito, o trânsito na estrada estava interrompido, o rio havia “subido”, “enchido” a estrada antes de atravessarmos a ponte para irmos a Boituva. Encheu todo o gramado entre a estrada e o local do antigo matadouro (naquela época o matadouro não era ali, mas só para nos localizarmos).

Naquele local, ocorria naquela hora, uma piracema, e os peixes subiam do rio para a terra alagada, pela grama, e eram muitos, muito lindo! Pegávamos peixes com as mãos, muitos, e o passeio, a pé, pela estrada de terra, transformou-se numa grande pescaria. Isso tudo é lindo e nostálgico, porque os fatos e as pessoas se foram, machuca um pouco e nos vem uma saudade dolorida (redundância?).

O terceiro sentimento, mesmo sendo colocado por último, é o mais importante. Comemoramos o aniversário de Jesus, aquele que provou a nós que não morremos, apenas trocamos de roupa, e nos disse que todos, todos “os” que somos e “os” que foram, ainda nos encontraremos e estaremos definitivamente juntos. Esse, afinal, é o motivo de sermos cristãos: Cristo ter vencido a morte. É por demais gratificante.

 

Ângelo Lourenço Filho

Desde muito cedo, eu descobri que algumas fantasias criadas pela sociedade mercantilista eram tão e somente fantasias. Mas eu, garoto, sempre adorei, amei a época do Natal. Nunca sonhei com papai Noel. Mas adorava ir à “Missa do Galo”, do padre Calixto. A missa era interminável. O padre Calixto parece que fazia questão de realmente esperar o galo da madrugada cantar. Era velho dormindo, criança choramingando e limpando com a roupa novinha, presente de Natal, o nariz escorrendo, o coro da igreja tentando manter o pessoal ligado e o padre Calixto dando sermão… mas eu adorava.

Quando acabava um Natal eu já estava sonhando com o próximo. E eu tinha um motivo muito especial pela época de Natal. Era porque nesta época a abundância e a diversidade da terra mãe de nossa Iperó, desabrochava. Era fartura que só acabava nas águas de março, que prenunciavam tempos difíceis do rigoroso inverno.

Em dezembro só no quintal da casinha que eu morava na Vila do Depósito, onde nós tínhamos uma parreira de uva em frente à porta de entrada. Era uma beleza ver os cachinhos de uva pendurados no varal da parreira. Dava dó de cortar os cachos. No quintal da casa, uma mangueira carregada de manga rosa começava a se colorir de amarelo. Ao lado dela uma ameixeira, também já com frutos amarelos. Bem no final do quintal, altivo e prepotente, o pé de abacate manteiga tentava manter agregado sobre seu tronco os galhos pesados pelos abacates, que despencavam com os temporais da época.

Para colorir meus apaixonados e românticos olhos, o pé de caquis já avermelhados, que faziam a festa dos sabiás e sanhaços azuis. Uma goiabeira com suas goiabas vermelhas bichadas ajudava a compor o quadro. Ah, e eu comia as goiabas com bichinho sem nenhum problema. Em frente à parreira de uvas, tínhamos dois pés de romã, que também em dezembro pipocavam devido ao forte sol, deixando bem à mostra no seu seio as frutinhas avermelhadas. No meu vizinho, bem na porta da cozinha de sua casa, um lindo pé de jabuticaba. A gente colhia em dezembro as danadinhas, e ali mesmo degustava aquelas frutinhas negras como os olhos das meninas pelas quais eu estava sempre “gamado”.

Quem se aventurasse a andar lá pelos lados do cerrado dos Paulas, iria se deparar na época do Natal com as deliciosas gabirobas, os araçás, os indaiás, os marmelinhos. Por Jesus, pela Terra Santa de Iperó, eu sempre e para sempre irei amar o Natal.