Sorocaba, Araçoiaba da Serra e Iperó no contexto historiográfico do morro Araçoiaba

Vista panorâmica a partir do Monumento a Varnhagen - no alto do Araçoiaba. (Ken Badgley)

por João Barcellos

Anotações historiográficas para a compreensão política e educacional de um desenvolvimento regional muito peculiar

O que hoje, no século XXI, se entende por áreas administrativas de políticas municipais denominadas Sorocaba, Araçoiaba da Serra e Iperó, no Estado de São Paulo, teve as suas origens, primeiro, no estabelecimento do complexo de mineração de Affonso Sardinha [o Velho], no século XVI, e segundo, na fundação da Villa de Nª Sª do Monte Serrat pelo Governador Francisco de Souza [o Marquês das Minas] nesse mesmo local conhecido como Cerro Ybiraçoiaba, no início do século XVII. Isto quer dizer que a história do Cerro Ybiraçoiaba é única e intransferível. Ninguém pode se apropriar politicamente dela, apenas preservar a memória de um Brasil que nela foi gerado.

 

Parte 1: Colonialismo, ideal municipalista e mercantilismo no Piabiyu entre a Monarquia e a República

As primeiras repúblicas municipalistas da América são instaladas no século XVI, em São Vicente e Santos, e depois São Paulo dos Campos de Piratininga, sendo a região vicentina a sede administrativa da Capitania. O espírito municipalista desembarcado das caravelas portuguesas logra conquistar as mentes dos colonos e, logo, da raça brasileira que com eles evolui, de sorte que a Câmara Municipal passa a ser o eixo das decisões locais para o desenvolvimento regional das capitanias, e particularmente a de São Paulo dos Campos de Piratininga no planalto acima da Serra do Mar.

Através de colonos como Affonso Sardinha [o Velho] que, ao mesmo tempo, são fazendeiros, mineradores, banqueiros e políticos, o velho caminho continental guarani conhecido como Piabiyu [ou Peabiru] serve de ligação entre São Vicente, São Paulo, Asunción, Potosí e Buenos Aires, e nele é estabelecida uma economia liberal que alimenta a Capitania independentemente dos parâmetros político-administrativos da Coroa portuguesa.

Assim é que o Cerro Ybiraçoiaba abriga a primeira metalurgia da América e deste complexo se inicia a indústria brasileira com o próprio governador a despachar oficialmente daqui. É a conquista dos sertões a oeste da São Paulo dos Campos de Piratininga que permite a expansão do espírito municipalista e da economia liberal que é já a alma de um Brasil que quer ser nação e não colônia.

E logo, na governança do capitão-general Luís António Botelho de Sousa e Mourão [o Morgado de Mateus], a Capitania paulista passa ser, em pleno século XVIII, o eixo econômico da América do Sul no reaproveitamento fundiário das sesmarias jesuíticas e daquela economia liberal espalhada pelo Piabiyu, principalmente a partir da região de Viamão com entroncamento em Campinas e continuidade em Sorocaba, Botucatu, para atingir os cais da Serra do Mar passando, obviamente, por São Paulo dos Campos de Piratininga.

Ou seja, o velho portinho fluvial de Carapocuyba, a ligar o rio Anhamby [Tietê] ao rio Jeribatyba [Pinheiros] pelas terras da Fazenda Ybitátá, do ´velho´ Sardinha, não tem mais serventia, pois a infraestrutura logística impulsionada pelo Morgado de Mateus, seguindo várias orientações do engº militar José Custódio de Sá e Faria, dá urbanidade definitiva à Capitania paulista, já agora “o engenho que impulsiona o Brasil”…

Da velha estrutura mineira da Família Sardinha no Cerro Ybiraçoiaba originam-se num raio de poucas milhas novas povoações: a primeira é Sorocaba que, com o desenvolvimento agrário de Campinas vem a se beneficiar com o algodão e ser o primeiro chão da indústria têxtil, além de ser já o ponto de comércio e escoamento de muares e alimentos e utensílios do que se conhece como Ciclo Tropeiro.

 

Parte 2: Expansão da economia e da indústria

A nova configuração fundiária adotada pelo Morgado de Mateus, no século XVIII, dá alma municipalista à urbanização da Capitania. Com o fim da monopolização sesmeira da Companhia de Jesus [padres jesuítas] surgem novos povoados a partir de fogos com famílias que se aventuram na agricultura e na mineração, mas também em pequenas unidades mercantis como vendas, armazéns, além de oficinas de carrocerias e utensílios destinados aos novos eventos industriais.

Entre a Viamão e o Porto dos Casais abrem-se possibilidades mercantis que logo chegam a Campinas e Sorocaba para se expandiram ao centro-oeste por Botucatu e ao litoral por São Paulo. A empreendedora Capitania paulista espelha um Brasil de autenticidade econômica pela dinâmica própria do ideal municipalista.

 

Parte 3: Estrada de ferro

O desenvolvimento socioeconômico das municipalidades paulistas não avança mais por falta de recursos técnicos e de intercâmbio científico com outros países. Entretanto, aquele espírito municipalista embasado na economia liberal, que já havia dado sinais para a implosão de um Brasil-nação em plena era colonial, leva a uma ruptura definitiva com Portugal e a consequente independência política permite que a colônia vire império com diplomacia própria.

É quando o mundo vive a Revolução Industrial a partir de inventos ingleses, franceses, alemães, etc., que logo começam a interessar empreendedores como o Barão de Mauá [Irineu Evangelista de Souza], mercador e político que quer um Brasil moderno e a produzir modernidade. Em meados do século XIX, o Barão de Mauá instala a primeira linha férrea no Rio de Janeiro.

A ferrovia é a ferramenta logística que São Paulo necessita para expandir a sua economia.

Nasce a Companhia Sorocabana, e regiões como Sorocaba, Botucatu, São Roque e Mairinque passam a ser pontos de estratégia logística para ligar os velhos sertões aos portos da Serra do Mar.

 

Parte 4: Estrada de ferro e novas povoações

A abertura mercadológica que a instalação da estrada de ferro possibilita tem um engajamento social: a fixação de populações no entorno das estações e entroncamentos. Assim é com Mairinque e é com Iperó, entre outras localidades, que crescem no rastro do progresso embarcado nas marias-fumaças que rasgam os velhos sertões dos bandeirantes e dos tropeiros.

Mas, se Mairinque é o típico caso da fazenda que vira vila no entorno da estação ferroviária e, logo, torna-se cidade, já o caso de Boituva, assim como o de Iperó é um acontecimento com raízes na história dos desdobramentos político-administrativos criados a partir da Vila de Nª Sª do Monte Serrat estabelecida no Cerro Ybiraçoiaba naquele efervescente século XVI…

Fogos e aldeias surgem nos sertões sinalizados pelo Cerro Ybiraçoiaba e a serra Ybicatu nas direções de Araratiguaba e Goyaz, respectivamente, logo que a atividade de mineração de ferro cessa temporariamente, o que leva os camponeses e os mineradores a buscarem outros lugares entre as sorocas e as serranias.

É uma mistura de nativos, portugueses, africanos, espanhóis, alemães, etc., um caldeamento racial que pulula por todo o oeste paulista; no entanto, é a presença de nativos guaranis e tupis que ainda marca a região, pois, aqui esses povos reuniram forças para sobreviverem aos ataques de preadores; povos que os europeus e os já luso-brasileiros reencontram nos meandros das sorocas e das serranias.

 

IPERÓ[ZINHO]

Um desses locais sedia várias fazendas e bebe muita vida no rio Iperó[zinho], que desemboca no rio Sarapuí.

Ora, assim como os nativos, os europeus e as suas gerações assentam fogos ou simples acampados nas margens de cursos fluviais e lagoas, o que facilita a rotina diária de caça, pesca e higiene.

 

Uma esplanada no sertão do Piabiyu

O local está na rota dos tropeiros, como já esteve na rota dos bandeirantes e, sempre, na dinâmica socioeconômica do Piabiyu. Os portugueses estão por aqui desde os tempos da primeira fundição de ferro no Cerro Ybiraçoiaba e, por isso, muitas vezes se diz que é o rio dos portugueses, ou y-peró, mas certamente é lugar longe, ou i-peró, porque também aqui os mineradores vinham buscar madeira para queimar nas forjas, e também por que famílias de mineradores aqui estavam arranchadas, i.e., longe do arraial mineiro; entretanto, i-peró também significa casca azeda, das árvores ipê e peroba. Que o seja. Pois, a região de lavoura que o rio Iperozinho alimenta é tida como esplanada. Sim, esplanada, porque as gentes vivem num local de onde percebem a dinâmica da natureza e o próprio desenvolvimento humano.

E se as gentes d´Iperozinho sabem do ideal municipalista e dos desdobramentos gerados até no próprio Cerro Ybiraçoiaba, com a fundação de Sorocaba em meados do século XVII e, no século XIX, a fundação do bairro do Campo Largo, que recebe paróquia para logo passar a Vila de Campo Largo de Sorocaba, nada mais lógico para essas gentes d´Iperozinho pleitearem condições político-administrativas para tratarem da cidadania em casa própria.

A expansão dos caminhos ferro alcança lugares e vilas e cidades que se organizaram ao som dos cascos de muares e no confronto direto com povos nativos, e é durante o século XX que as novas rotas urbanas fixadas pelo desenvolvimento na Capitania setecentista ganham o progresso e deixam o isolamento.

Agora, ao ideal municipalista alia-se o progresso industrial e comercial. Entretanto, havia vida antes da maria-fumaça… Aqueles núcleos habitacionais e agropecuários e mineiros, representam povos e ideais, projetos de vida. Logo, as vilas de Mairinque, de Botucatu, de Iperó, etc., têm uma história própria que a maria-fumaça expande.

Meio século antes, em 1872, foi criada a companhia Estrada de Ferro Sorocabana que, em 1875, abriu o primeiro trecho e ligou Sorocaba a Mairinque e São Roque, com estação central na já opulenta Campinas, além das linhas Rio Claro e Mogi-Mirim; e, em poucos anos, chegou a Boituva e Botucatu.

A expansão da ferrovia corta velhos pontos da estratégia logística agropecuária e mineira. Um deles sinaliza a região do rio Iperozinho como eixo para mais um entroncamento da estrada de ferro. Em sua esplanada própria, as gentes do rio Iperozinho percebem que tudo vai mudar com a maria-fumaça e seu grito metálico libertador. E em 1927 a fazendeira Rita Motta vende terras suas para a EF Sorocabana, enquanto a região, em 1944 e como distrito de Boituva, recebe a denominação Iperó depois de complicadas discussões políticas.

O nome Iperó resgata, de alguma maneira, um ambiente nativo ao qual gentes de outros nações se integram e criam uma sociedade própria. Obviamente, não se poderia designar aquela região como [a título de exemplo] “Novo Araçoiaba”, pois isso seria um ultraje à história do Cerro Ybiraçoiaba, apesar da umbilical proximidade física e social. Por isso é que o nome Iperó surge como acerto de contas na história da região ybiraçoiaba; um acerto feito por gentes que souberam respeitar as raízes.

 

Parte 5: Uma questão política e econômica

Entretanto, existem incompetências políticas na administração pública que permitem erros históricos. Assim acontece com a Vila do Campo Largo de Sorocaba que, em 1944, é renomeada como Araçoiaba da Serra, a demonstrar insensatez politico-administrativa no trato da História do Brasil.

Entenda-se a questão:

A – A paróquia do Campo Largo que vira vila e depois cidade não está no Cerro Ybiraçoiaba. Foi idealizada, sim, pelo pároco da Real Fábrica de Ferro que precisava sair do local: o padre Malheiros acerta com o alferes Bernardino Barros “a mudança da paróquia para um lugar denominado Bairro de Campo Largo”. Ora, mudou-se a paróquia, não se mudou o Cerro Ybiraçoiaba… Da mesma maneira que, quando deixou de existir a Vila de Nª Sª do Monte Serrat no arraial mineiro, fundaram-se outras povoações e a mais importante delas, Sorocaba, não tomou o nome do complexo social e industrial que lhe deu alma, nem tampouco lhe tomou o altar…!

Outro exemplo histórico: a mudança da velha Koty [hoje Cotia] do sertão de Carapicuiba para o sertão de Itapecerica, em 1703, levou a capela de Nª Sª do Monte Serrat junto, porque não se muda um núcleo geossocial e cultural apenas com uma parte.

Outro exemplo, este, local: na criação da municipalidade de Capela do Alto, em torno de interesses de famílias germânicas ligada ao arraial mineiro do Ybiraçoiaba, poderiam essas famílias reivindicar o nome do morro, mas não o fizeram para preservar a história local diretamente ligada à do Brasil.

 

O que acontece na Real Fábrica de Ferro, no século XIX

Um alvará de D. João VI cria, em 19 de Agosto de 1817, a Paróquia de São João Batista do Ipanema; ação régia que tem a oposição do notável Luiz Guilherme de Varnhagem, mas, em 1820, a Coroa manda que se mantenha o já determinado; e em 20 de Fevereiro de 1821, o padre Gaspar Malheiros é empossado como vigário da Paróquia de São João Batista, embora já enfrente contestação sobre o estabelecimento de uma paróquia em pleno chão de mineração. Até que, em 1823 [a 3 de Maio], o bispo Matheus Pereira concede licença para se tirar a paróquia da região histórica. No mesmo ano de 1823, é o padre Gaspar que, com cerca de uma centena de moradores e Rufino Costa, este, administrador da fábrica e capitão-engº, vai aos campos de Tatuhy para escolher um lugar e situar a nova matriz; entretanto, o grupo não se acerta e a maioria retorna à fábrica, mas os descontentes fundam em Tatuhy a Capela de São João do [por aqui] Bem-Fica. O padre Gaspar não desiste.

Em acordo com o alferes Bernardino Barros, o padre Gaspar sugere a transferência da paróquia da fábrica para o Campo Largo, bairro onde o mesmo alferes já havia iniciado a edificação de uma Capela dedicada a Nª Sª das Dores e, por isso, solicita que a santa da sua devoção seja a padroeira da nova paróquia, o que o padre aceita, até para acabar de uma vez com as confusões na fábrica. Assim é que o alferes finaliza a construção da matriz e, em 10 de Outubro de 1826 é transferida a paróquia da Real Fábrica de Ipanema para o bairro de Campo Largo.

Anote-se que a Paróquia de Campo Largo recebe matriz e recebe nova padroeira [Nª Sª das Dores]. Não recebe moradores nem o padroeiro da capela da Real Fábrica de Ferro [São João Batista]. Tudo é feito à luz do conceito da colonização ibero-católica, i.e., uma nova povoação começa com edificação de uma capela.

Então, no século XIX surge a paróquia de Campo Largo que, em 14 de Novembro de 1857, passa a vila com vereança própria e é já uma unidade municipal fora do âmbito geo-histórico do Cerro Ybiraçoiaba e da Real Fábrica de Ferro. As divisões territoriais estão determinadas pela história local, ratificadas pela vereança sorocabana no contexto da Freguesia de Campo Largo.

Quando, em 19 de Dezembro de 1906 a freguesia passa a cidade e recebe o nome Araçoiaba da Serra [D-L nº14.334, de 30.11.1944], o Estado de São Paulo e o Brasil sabem que é uma municipalidade com 315 km², entre os rios Sorocaba e Sarapuí, e não uma municipalidade criada no arraial mineiro do Cerro Ybiraçoiaba, como acontecera com a Vila de Nª Sª do Monte Serrat. Isto significa que a história de Campo Largo começa e termina em si mesma, apesar do nome Araçoiaba [da Serra].

Além de Sorocaba e de Iperó, e em parte Boituva, eis que é das gentes do arraial mineiro da Vila de Nª Sª do Monte Serrat que se forma, também, Tatuhy. E isto, sem que ninguém reivindique o nome Ybiraçoiaba para si. O respeito à raiz sociocultural mostra o zelo pelo ideal municipalista.

Já com núcleo habitacional formado, quando o alferes Barros oferece a sua capela e a sua santa de devoção para constituir paróquia, Campo Largo é um território definido para seguir uma história própria, e só.

 

B – Quando não se tem lastro sociocultural, o melhor é batalhar para criar condições de políticas públicas pelas quais é possível construir uma casa própria, como fizeram as gentes do rio Iperozinho, já agora, gentes d´Iperó.

 

C – Ao se reportarem a um decreto-lei para denominarem a Vila de Campo Largo como Araçoiaba da Serra, as autoridades do Estado de São Paulo abriram espaço político e administrativo para futuras rixas regionais. Não observaram o ideal municipalista que fez o Brasil: a terra é de quem a ocupa. Não existiu o bom senso de buscar na História designações culturalmente sustentáveis para inibir problemas políticos, o que – para gentes sempre dispostas a serem mais do que outras – acaba por criar um álibi para atuarem, ou tentarem legalmente reivindicar alguma ancestralidade.

A falha político-administrativa das autoridades estaduais foi tão grave que nem levou em conta outro erro: a vila já havia sido denominada de Campo Largo de Sorocaba. Ora, Sorocaba significa exatamente campo largo, ou campo rasgado… Por outro lado denominar Araçoiaba como “da Serra” é um abuso geográfico. Até os mais antigos sabiam que a região era um mar de morros, ou cerros [montes], e não uma serrania…!

Por isso a história registrou a existência do Cerro Ybiraçoiaba e não de uma serra. Tal sequência de erros acaba por criar tensões e, às vezes, rupturas sociais a partir do âmbito político-administrativo, pois, sempre aparecem gentes a reivindicarem o que não lhes pertence, principalmente quando no alheio está uma riqueza de recursos minerais e uma história industrial que é eixo de uma nação!

 

Parte 6: Para rematar esta anotação historiográfica

Nas minhas pesquisas sobre a raiz piabyiuana do desenvolvimento paulista e brasileiro sempre anoto um denominador comum – a saber:

As municipalidades que surgem da efervescência bandeirística e tropeira, e principalmente da ruptura fundiária para o acerto urbanístico na época do Morgado de Mateus, resgatam o ideal municipalista das primeiras vereanças, e nisto conquistam liberdade política para as ações públicas que possibilitam o progresso geral.

Entretanto, se o ideal municipalista, moderador e ao mesmo tempo libertador pela democracia representativa que impulsiona social e politicamente, torna-se a bandeira de um Brasil que emerge em plena Monarquia, primeiro lusa e depois plenamente bragantina – ora, tratou-se de salvar a Coroa de linhagem bragantina e não de constituir uma Nação livre… –, já na República, ainda pançudamente monarquista pelo efeito coronelístico e quixotesco do senhores d´engenho e minas e escravos, vem a ocorrer com mil e um plebiscitos a formação de novas unidades municipais em todos os estados federados, municipalidades sem quaisquer viabilidades socioeconômicas de sobrevivência… a não ser pelos subsídios estaduais e federais.

De sorte, quando as gentes d´Esplanada buscam [não assentar, mas] oficializar a sua raiz comunitária e tornam-se gentes d´Iperó, já representam uma região com autonomia socioeconômica pela via agropecuária e de serviços, autonomia que se amplia quando se transforma, também, em entroncamento ferroviário da malha paulista, além de que tem no seu território a base histórica da indústria americana: o Cerro Ybiraçoiaba e a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema.

É o inverso da freguesia de Campo Largo, que vira cidade indo puxar o nome ao Cerro Ybiraçoiaba para possuir algo de atração política – um engodo que os legisladores paulistas tomam como ´doce´ e se esquecem de questionar sobre as potencialidades socioeconômicas da unidade municipal a que dão origem! É uma mera paróquia rural que, súbito, surge no mapa como município…

O professor e procurador Flávio Roberto Ferreira de Lima, em breve anotação à questão Plebiscito, e a recorrer a uma análise sobre texto do doutrinador Palhares Moreira Reis, lembra-nos que

“[…] o plebiscito feito para a emancipação de Municípios tem sido verdadeira prova da nossa incapacidade de tratar desse assunto relevante. Com a liberdade dada às Leis Estaduais criaram-se um sem-número de Municípios, até à edição da Emenda Constitucional nº 15/96, sem qualquer condição material de emancipação, na mais das vezes, cedendo-se a mesquinhos interesses políticos em detrimento dos próprios Munícipes”.

As cidades que assim tiveram o seu assentamento político-administrativo foram apenas e mais um risco [troféu] na coronha do revólver dos coronéis respectivos, mas a cidadania – que é o que vale – ficou perdida lá na autenticidade da Comunidade de raiz reunida em torno da paróquia. A maioria dessas municipalidades criadas a gosto político-eleitoreiro entre os séculos XIX e XX estão em petição de miséria, e, em alguns casos, o melhor é fechar a porteira…!

Tal incompetência administrativa por parte das casas legislativas logrou unicamente enriquecer ainda mais uma ou outra família, mas espezinhou a cidadania que é a alma do ideal municipalista.

 

A Lei Estadual

A lei nº 8.092, de 28.2.1964, do Legislativo estadual paulista, ao dar título de municipalidade à região ora dita Iperó, com os distritos de Iperó e Bacaetava, desmembrados de Boituva e Araçoiaba da Serra, diz no seu Artº13 que… “Cabe ao Instituto Geográfico e Geológico da Secretaria da Agricultura: a) organizar mapas dos novos municípios, bem como os daqueles que sofreram alteração em seus territórios; b) proceder à demarcação das divisas fixadas nesta lei, sempre que necessário”.

Clara e inequívoca, a lei estadual trata de Iperó como trata de outras dezenas de novas municipalidades, ou dá título às que já eram vilas, pelo que o regime de divisão territorial observa o traço dos fios d´água – rio Iperozinho e Sarapuí – como o traço convencionado para uma demarcação que é fundiária e é social. E, neste aspecto, tudo certo. O problema foi o mesmo Legislativo ter permitido, anteriormente, a aplicação do termo Araçoiaba [termo modernizado de Ybiraçoiaba] a uma municipalidade nascida no Campo Largo e não no seio do Cerro Ybiraçoiaba.

Cabe aqui lembrar a anotação historiográfica de Azevedo Marques, no Seu “Apontamentos…” [pp. 160-161]:

“CAMPO-LARGO (de Sorocaba) – Povoação fundada entre dois braços do ribeirão Guacuriú, que deságua a meia légua distante da fábrica de ferro do Ipanema, em território outrora pertencente a este último município, sob a invocação de – Senhora das Dôres […]. Sôbre as divisas civis vejam-se as leis de 10 de abril de 1865 e 16 de março de 1866, e 3 e 20 de abril de 1873. Além da matriz possui nos arrabaldes as capelas de Santa Cruz, a de São Francisco e a da Senhora da Aparecida. Não tem casa de câmara nem cadeia para as quais servem casas particulares alugadas. A produção deste município em maior escala é o algodão, porém cultiva também café e cereais. A população é de 5.144 almas, sendo 469 escravos; eleitores em 1876, 12; fogos 14; somente os que pagam o imposto pessoal. Tem duas cadeiras de instrução pública primária para ambos os sexos”.

A criação da nova freguesia/paróquia fora da Real Fábrica de Ferro tem uma explicação e é o mesmo Autor quem a especifica:

“[…] não sendo permitido aos moradores nem o corte de madeira nem a edificação de casas no terreno da mesma fábrica, pediram ao bispo D. Mateus de Abreu Pereira a mudança da sede da paróquia para outro local”.

Ao mudarem a paróquia da Real Fábrica de Ferro as gentes fazem, então, de Campo Largo a sua nova casa espiritual e se isolam da raiz geossocial do Cerro Ybiraçoiaba.

De qualquer maneira, a fronteira territorial que assinala a municipalidade de Iperó foi elaborada por peritos e não por políticos e párocos, e assim é que Iperó possui entre o centro urbano e a vastidão rural o manancial histórico da indústria americana e brasileira, e as pessoas que sinalizaram a demarcação geral da municipalidade, tanto as de entre o rio Ipoerozinho e Bacateva quanto as de Campo Largo conheciam muito bem a temática histórica e geológica que as segundas deixavam para as primeiras, logo, a lei que dá título de municipalidade a Iperó diz tudo e, agora, nada se pode acrescentar ou subtrair. Quem o quiser fazer deve, antes, tomar conhecimento geossocial e historiográfico de tudo que está em jogo.

Entre os estudos sobre as ações socioeconômicas e geopolíticas de Affonso Sardinha [o Velho] e de Pompeo de Almeida e, antes deles, do Bacharel de Cananeia e de Brás Cubas, aprendi que para cada nova vila ou cidade erguida nos sertões afundava-se o espírito monopolizador dos jesuítas e suas sesmarias; e, ao mesmo tempo, emergia aí a ideia de um Brasil como casa própria das gentes luso-afro-americanas, ou, já então, o Povo Brasileiro.

Quando pesquisei as periferias históricas do Cerro Ybiraçoiaba encontrei Iperó e Araçoiaba da Serra: nesta (Araçoiaba da Serra), um vazio sociocultural; e naquela (Iperó), a ousadia de estar em ambiente próprio recriando a liberdade de ser urbanidade nas circunstâncias políticas geradas ali mesmo –, assim como o nome Iperó brotou para assinalar o espaço-tempo de uma gente que soube, e sabe, guardar a memória do Cerro Ybiraçoiaba.

Eis por que estas anotações historiográficas não são uma lição, mas um alerta sociocultural para prevenir atentados ideológicos e econômicos contra o fabuloso Cerro Ybiraçoiaba que gerou o Brasil industrial.

 

Instituições e Bibliografia

BN / Biblioteca Nacional [Rio de Janeiro / Brasil]; ANTT / Arquivo Nacional da Torre do Tombo [Lisboa/Portugal]; IHGSP / Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; Câmaras Municipais de São Paulo, Sorocaba, Iperó e Araçoiaba da Serra; Arquivo do Estado de São Paulo; Cúria Metropolitana da Igreja Católica [São Paulo / Br.]; Estrada de Ferro Sorocabana; Acervos de Hugo Augusto Rodrigues, Adolfo Frioli, Desbravadores Villas-Boas, Centro de Memória da Fazenda Nacional de Ipanema e João Barcellos.

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BARCELLOS, João
Escritor, conferencista, pesquisador de História e jornalista
Centro de Estudos do Humanismo Crítico
CEHC / Portugal e Brasil
Terra Nova Comunicação e Editora Edicon
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