Sorocabana Esporte Clube

"Primeiro de Maio" - 1958. Equipe organizadora dos eventos naquele ano. (Dinho Vianna - Arquivo Wilson Alves)

As lembranças do time iperoense

Falar sobre o futebol em Iperó, é recordar um dos importantes aspectos culturais presentes na história da cidade. Os torneios, os jogadores lendários, a grande festa do esporte no “Primeiro de Maio” e os anos de ouro entre as décadas de 1940 e 1960. Para nos contar um pouco mais sobre aquilo que o Sorocabana Esporte Clube representou para a cidade, convidamos dois ex-jogadores do time: Augusto Daniel Pavon (Gusto) e José Aparecido de Moraes (Tanaka). Dessa forma, a história ganha ainda mais vida e eles no ajudarão a entender melhor o amor e a devoção da cidade em relação ao Sorocabana.

 

TANAKA O Sorocabana foi uma paixão pra mim. Mas, ao mesmo tempo que ele foi intenso, foi um tanto quanto breve, pois com 21 anos saí da cidade e deixei esse gosto pelo futebol em segundo plano. Não propriamente o futebol em si, mas me refiro ao futebol de Iperó. No meu tempo, disputávamos o campeonato amador e, portanto, havia futebol regularmente todo domingo. Entravam no campeonato os times de Boituva, Cerquilho, Tietê, Tatuí, Laranjal, Pereiras, Conchas, além do torneio início. A torcida, aqui inclusa a feminina, era uma coisa única, vibrante em campo. Nós até tínhamos umas fãs que torciam individualmente pra gente. E, olha, muita rixa entre os times. Quando jogávamos contra Boituva, então, a temperatura era altíssima. A coisa fervia mesmo. Dificilmente o jogo terminava sem uma briga, mesmo entre as torcidas. Contra o time de Tatuí a disputa também era quente. Eles sequer pensavam que poderiam ser derrotados por Iperó.

E o transporte quando jogávamos fora? Era feito de caminhão. Comíamos uma poeira danada na estrada. Ah, bons tempos esses. Isso quando não surgia um defeito mecânico no dito cujo. Para sentarmos, caso se conseguisse, eram encaixadas umas tábuas que iam de uma lateral da carroceria à outra. Senão, íamos em pé mesmo. Algumas vezes fazíamos viagens de trem. Eu ascendi ao time titular ainda com pouca idade. Para ser inscrito no campeonato, a ficha tinha que ser assinada pelo meu pai. Era o único, com 15 ou 16 anos, que disputava o campeonato. Foram anos de muito futebol na santa terrinha.

 

GUSTO Tomei contato cedo com o futebol. Comecei aos 8 anos, dentro de minha casa, conhecendo as posições. Por exemplo, “gorquipa” era o “goal keeper”, o guardador de metas, também conhecido como goleiro. “Centerfor” era o “center four”, também conhecido como quarto zagueiro. Assim como tinha o “corne”, “corner”, ângulo, marca do escanteio. Tinha o “fiçaide”, “off side”, fora de lugar, impedido. Isso tudo influência do esporte bretão, que Charles Miller trouxe para São Paulo, introduzindo o futebol no Brasil.

1957. A sala de minha casa estava cheia para uma final de Campeonato Paulista. Corinthians versus São Paulo. Tricolor campeão e eu, espontaneamente, são-paulino, naquela época conhecidos como “pó-de-arroz” (hoje somos “bambi”, mas tudo bem). Veio 1958 e um alto-falante no alto da porta do barbeiro vizinho de casa, o Agenor (talvez o único na Iperó daqueles anos), transmitiu os jogos da Copa, na voz de um dos maiores locutores esportivos, Fiore Gigliotti (numa voz que num repente ia desaparecendo, tornando-se quase um assovio para desespero do povo adulto que sonhava com o Brasil campeão do mundo pela primeira vez). Também num repente, ela (a voz) ressurgia num grito maravilhoso de gol que entrava nos meus ouvidos de criança.

Era Vavá, o centro-avante, o “peito de aço”, lavando a alma dos iperoenses, transformando-os em “CAMPEÕES DO MUNDO”. Definitivamente, entrei para o mundo do futebol sem nunca ter sido um grande jogador. Mas estive entre eles. Em Iperó, início dos anos 60 (anos definitivamente inesquecíveis, maravilhosos), o futebol vivia intensamente o time todo branco de PELÉ (esse sim um “dream team”). Todos, sem exceção, éramos santistas ou pelezistas, principalmente quando a vítima não era o nosso time.

Nessa mesma época, surgia em Iperó um Sorocabana, o time de futebol, que como já citei, dividiu meio a meio minha paixão pelo tricolor. Todo de branco, como o Santos de Pelé, com os maiores jogadores que vi desfilar naquele maravilhoso campo em que muitas vezes fugimos da “Dordaia”, uma senhora que morava no campo e insistia em nos expulsar quando disputávamos uma pelada.

Hoje ainda desfilam nas minhas lembranças os Serginho, Quinho, Olavo, Otávio, Julião, Jumbé, Ulisses (que fazia lembrar Mauro Ramos, zagueiro clássico do Santos) e Jorjão com seu chute potente marcando muitos gols. Toda Iperó dos anos 60 acompanhou, vibrou, sonhou com o dia de gala, dia da final, como aquela do Brasil contra a Suécia que citei há pouco.

Todos ao campo, domingo à tarde, depois de uma espera angustiante. Enfim o Santos, digo o Sorocabana, entrou em campo, com seu branco que refletia ao brilho do sol a vitória talvez com uma costumeira goleada, como impôs ao longo do campeonato, a todos os adversários. Naquela tarde, para a disputa do título, estava o time que dava nome ao campeonato, a Associação Portofelicense. Time amador, mas que já andava lidando no profissionalismo.

Um chute seco, numa falta cometida na linha média. Um chute que para nosso fantástico goleiro, Hélio, seria muito fácil. Mas entrou. Não houve a festa do primeiro título mundial, mas o silêncio de 1950, quando na inauguração do Maracanã, o Brasil que até então goleava a todos, perdeu para o Uruguai. Eu, nos meus 12 anos, chorei. Foi, talvez, a maior tristeza da pequena Iperó. Foi o desencanto.

O Sorocabana nunca mais foi o mesmo. Foi definhando junto com a ferrovia e ficou vivo apenas nas minhas lembranças que me permitem até agora escalá-lo, falar nos artilheiros, nas tabelinhas do Olavo com o Quinho, nos dribles do Serginho, nas faltas batidas e nos lançamentos longos do Otávio. Nessas lembranças, o Hélio pegou aquela bola, o Olavo e o Serginho fizeram dois gols e ainda hoje estou no barranco, cercado pelos enormes eucaliptos, ao lado do meu pai e do ‘seu’ Paulino (pai do Tanaka), gritando de felicidade pelo meu time. O Sorocabana…