“Tradições de um povo feliz”

Tradições de um povo feliz
Igreja de São Jorge, em George Oetterer, na década de 1950. (Dinho Vianna - Arquivo Wilson Alves)

por Ângelo Lourenço Filho

Vento ventania, ironia
Que transpassa bravo os gravetos
Do mato seco carregando no epicentro
Do seu redemoinho
Pelas campinas, florestas e flores
Pássaros, que por ali gorjeiam
E animais que por lá se escondem.

Vento ventania, contamina
Passas no pico do morro descampado
Sob cinzas, madeiras em brasa, chamuscado.
Pelas lagoas da imensa várzea,
Pelo grande lago Ipanema, idem rio Ipanema,
E também o Sorocaba
Também o riacho Alcoléa,
Vide as lagoas no desleixo
E os brejos bronqueados

Vento ventania, não judia
Faz carícia. Acabou o mês de abril
O povo tem saudade
Abril é mês de festa
E também de devoção
É chegado o momento
É São Jorge o guerreiro

Vento ventania, vagueia
Lá pelas campinas de George,
Na capelinha enfeitada
Com flores cor de abóbora
Da planta São João.
São Jorge, São João, contradição?
Corroboradas com cores de petúnias
Em maio já finadas. Aleluia!

Vento ventania, ameniza
Pois o povo divertia,
São Jorge a espada elevava,
Jesus menino sorria
E nosso povo se alegrava.
Cada qual na sua data,
George, Araçoiaba, Ipanema,
Araçoiaba com São Roque,
Ipanema com São João.

Vento ventania, alumia
A luz que vinha de “gato”
De postes de madeira
De fiações improvisadas,
E duma enorme fogueira.
Ajudavam vagalumes ou olhos de corujas,
Se tivesse lua cheia melhor ainda seria

Vento ventania, acampe um só instante
Veja que maravilha:
Araçoiaba, George, Bacaetava, Ipanema,
Barracas de bambu empalhadas,
Entrelaçadas, recobertas de sapé e de palmeiras de indaiá,
Folhas de eucalipto e flores da laranjeira.

Vento ventania, devaneia,
No alvo sorriso da menina
Brincando de saco de corrida
Ou carregando uma colher com ovo
Para ganhar a graça e a benção da honraria

Vento ventania, assopra,
Ajuda, não derruba as travessuras do menino,
Totalmente lambuzado
Tentando ganhar o brinde
No cume do poste ensebado
De pouco valor venal, talismã de poder real.

Vento ventania, explode
Com a pólvora de São Roque das roqueiras.
Do pipocar dos rojões de vareta e com os estalos da batata doce
Assada nas brasas das fogueiras.

Vento ventania, se delicie
Com arroz doce, cravo e canela,
Doce de cidra, figo doce e doce de abóbora.
E nenhum doce mais doce
Que o nosso doce da batata doce.

Vento ventania, experimente
As guloseimas da nossa terra:
Quentão, vinho quente, pipoca,
Bolinho de polvilho azedo, pinhão, milho verde,
Pamonha, canjica e paçoca.

Vento ventania, admire
Metro por metro daquela terra
O mastro de rústica madeira
Se orgulhando em sustentar
A bandeira com o patrono santo

Vento ventania, admita
E reserve um grande espaço
Pra falar da bela cidade
De tradições seculares,
Com seus filhos adoráveis.

Vento ventania, direcione
Norte ao sul de Ipanema,
Horizonte do céu de outono,
Da nossa Iperó querida
De alvorecer serena geada.
Faces rubras, mãos doídas,
De orvalho na gramínea
Formatando gotas congeladas!

Vento ventania, parabenize
O céu vermelho, azul e roxo
O sol por trás do altivo morro,
Clareando um horizonte perdido.

Vento ventania, não judia, acaricia
É mês de maio, mês das noivas,
Das filhas de Virgem Maria.
Do manto branco e azul piscina,
De fita e medalha no peito,
Dos congregados de Maria.

Vento ventania, abençoe…
O mês do nosso santo padroeiro.
Festas de Santo Antonio,
Corpus Christi, amor, frio e calor humano…