“Visão”

Visão
Estação de Iperó em 1946. (Arquivo Izildinha Domingues dos Santos Folim)

por Genésio dos Santos Ferreira – 14 de abril de 1970

“Sentimentos de um quase adolescente que se preparava para embarcar de mala e cuia para a cidade grande em busca de emprego, de aventura, do necessário, ou sei lá do que, talvez atrás de um pouco disso tudo. Iperó ficava para trás, como ficou, mas não ficou esquecida mesmo.

Ouso dizer numa contra-paráfrase, objetando o poeta Drummond: decididamente, a minha Iperó pode até ser um retrato na parede, mas não apenas. Iperó está entranhada em mim como uma segunda pele que não sai nunca, faz parte da minha história de infançolescência.

Fui um iperoense que não jogava bola, não tinha destreza alguma no pebolim e no ‘pingue-pongue’, nadava mal, não tinha bicicleta, me arriscava numa partida de sinuca e num jogo de xadrez, mas convivia com tudo isso acompanhando meus amigos de infância; lia tudo o que me vinha às mãos e cometia meus versinhos.”

Vi num céu longínquo além dos horizontes
Onde habitam os anjos, os querubins de Deus,
A doce imagem da vila onde eu vivi, ontem,
E que já não existe. É um sonho meu.

Vi surgir nos céus, pairar lá no infinito,
A imagem de Iperó, sinto-a dentro de mim,
Tão amiga se desenhava que não contive o grito:
– Ó Deus meu, por que hei de sonhar assim?

Impossível sonhar com quem está distante,
Impossível lembrar do que já não existe.
Olhando o futuro eu seguirei confiante,
Deixando a vila tornei meu ser triste.

Sei que a vila chora por seu filho ausente,
Sei que o filho chora, longe, de saudades
Mas no âmago, meu mundo, toda a vila sente
Por deixá-la só e, longe, na cidade,

Onde vi nos ares a imagem de Iperó,
Lembrei no meu passado e vi o céu nublar,
Eram lágrimas do povo por deixá-los a sós.
Senti, ó vila, e resolvi voltar.

Desci na estação e contemplei extasiado
Iperó, lá no alto, parece tocar nos céus.
Subindo as escadas, lágrimas chorei e fiquei admirado,
Pareceu-me subir nos ares ao encontro de Deus.

E lá de cima eu vi a estação vazia,
E então senti na face o pranto me molhar;
Senti-me tão culpado, senti-a distante e fria,
Talvez por minha ausência, por não querer voltar.

Tudo me foi hostil, a rua me devorava,
Ninguém acenou pra mim, já que parti um dia
E esqueci a vila. E minh”alma chorava
Por saber-me estranho a quem ontem me queria.

Peregrinei em vão pelas ruas desertas;
Tentei fazer amigos, nem isso me restou.
Só trevas na cidade que caminhava incerta
Nos meus tempos de infância que a idade levou.

Nada restou da vila, da minha vila antiga,
Que a tarde me encontrava a correr pelas matas,
Que recebeu no seio as melodiosas cantigas
Dos rudes moradores com suas serenatas.

Não vi as avezinhas a pousarem nos galhos
Se nem árvores existem no seio da cidade,
Só cheiro de fumaça e tinir de malhos…
Gente laboriosa contemplei com saudades.

Pensei na gente simples que eu conheci um dia
E que deixei chorando por um capricho meu.
Preferi as aventuras, pois minha rebeldia
Pedia outros mares. Vaguei de déu em déu.

O que é feito da vila que eu deixei outrora?
Tudo morreu pra mim, sou forasteiro aqui.
Só restaram saudades no meu mundo de agora,
Vivo atormentado desde que parti.

Perdoe-me Iperó, por deixá-la sozinha,
Perdoe minha falta, enfim, eu sou humano!
E lá no azul do céu a imagem ia e vinha,
Tomara fosse ilusão e eu estivesse sonhando.