“Zé Pequeno”

Zé Pequeno
Zé Pequeno e Lucas Figueiredo no campo Sorocabana.

Augusto Daniel Pavon

Tempo houve em que o carnaval era uma festa do povo mesmo. Tempo houve em que um a dois meses antes do carnaval as músicas eram lançadas e exaustivamente tocadas nas rádios, “marchinhas” de música e letras inesquecíveis, interpretadas pelos melhores cantores do país e feitas pelos melhores compositores. Havia uma disputa acirrada para se ganhar um carnaval. A nós, mortais, cabia ouvir, conseguir livrinhos que tinham todas as letras, decorá-las e entrar no carnaval cantando tudo. Músicas lindas que ficaram para sempre. Cantar, pular, jogar confetes, serpentinas, borrifar lança perfume (Rhodia). Tudo um sonho no imenso salão do Sorocabana.

Essa festa era das crianças, mas principalmente das famílias, que pulavam quatro dias sem se cansar, e trabalhavam no dia seguinte. Nos carnavais da minha terra, além das músicas, eu sempre os encarei com uma camisa listrada e um tubo de lança perfume. Num dos carnavais, não sei exatamente se no de 58, talvez o de 59 ou 60, não sei. Sei que foi lançada uma marchinha que explodiu junto com as outras e se chamava “Zé Pequeno”. Não me lembro mais da letra, embora saiba cantarolar a música. “Zé Pequeno era um soldado de morte…” e assim ia. Mas eu, na minha inocência, fiquei impressionado como o autor podia saber, escrever e por música no Zé Pequeno. Sim, porque não podia haver outro, a não ser o nosso, o nosso Zé Pequeno, ali da cidade.

O seu Zé Pequeno, assim conhecido, porque nós crianças não nos atrevíamos chamá-lo de Zé Pequeno. Importantíssimo dentro do nosso contexto. Venceu o Chico Padeiro na pipoca, pois este, o Chico, durou pouco. Mas o Zé, ah, o Zé, parecia eterno, tal qual a Dordaia. Passou por minha infância e invadiu minha adolescência, até os meus 20 e mais um pouco. Forneceu as pipocas salgadas e doces, amendoins, pinhões, àqueles que sentados nos bancos, lá na frente, lado esquerdo, onde fazíamos de tudo, inclusive quando interessava, assistíamos ao filme. Tapas nas cabeças, soltar “puns” e acusar o vizinho (Tanaka), arrotar, passa a mão no da frente e descascar inúmeros pinhões e jogar as cascas para trás. Tudo de uma forma muito educada, saudável, afinal éramos bons meninos, vindo de boas famílias.

Enfim, voltando ao Zé Pequeno, carrinho desleixado, cara de pouca higiene, fumando sobre as pipocas, jaleco sujo, bigode amarelo pelo fumo, barba por fazer, vez ou outra dando uma coçada no saco, outras cutucando o nariz, o que pra nós não era novidade, mas rotina. Fazíamos isso direto, mas ao Zé Pequeno conferia um charme e dava um sabor especial. Pelo menos pra molecada, eu, que gostava demais daquela pipoca e dos pinhões. O amendoim nem tanto. Faltava sal, ou porque vinha num pacotinho e ele não punha as mãos? Penso que tudo, filmes, bailes, carnavais, festas, devem, pelo menos no que diz respeito às pipocas e pinhões, ao Zé Pequeno. Isso fez com que eu acreditasse que aquela “marchinha” que citei, decididamente, com toda sua beleza, deveria ser muito cantada, deveria ganhar o carnaval, porque ela, com toda a certeza, foi uma homenagem ao nosso inesquecível e grande Zé Pequeno. Foi mais uma pessoa comum, simples, mas importantíssima de minha infância e adolescência, na minha pequenina Iperó. E que viva o Zé Pequeno e o Senhor esteja com ele.